Dor e Desespero

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que tenho o coração preto

Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.
1 782
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é um hospital

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
2 481
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que desgosta

Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói‑me realmente.

Como um barco absorto
Em se naufragar
1 341
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A TEMPLE

I have built my temple — wall and face —
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
1 353
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE PICTURE

In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
        And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.

The name of the painter is ignored
        And his purpose none do know.
1 320
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FRAGMENT OF DELIRIUM

I know not whether my mind is broken
Nor do I know if my mind is ill;
I know not if love is but the last token
Of God to me, or a word unspoken
        In a chaos of will.

My thoughts are such as the mad must have
        And dead things guard my soul
Grotesque and odd are the shapes that rule
In my brain as worms in a grave
1 270
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 449
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sometimes in the middle of life a change

Sometimes in the middle of life a change
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.

A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
1 303
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Traz-me um copo com água

Traze-me um copo com água
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.
1 731
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A Senhora da Agonia

A Senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.
1 548
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há cortejos, pompas, discursos,

Há cortejos, pompas, discursos,
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
942
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tu és Maria das Dores,

Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 491
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O moinho que mói trigo

O moinho que mói trigo
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.
2 275
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

D'outra vida mais bela

D'outra vida mais bela
A esperança já desesperada,
A gélida e constante aspiração.
1 232
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Esse é um génio, é o que é novo é (...)

Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
1 224
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tão linda e finda a memoro!

Tão linda e finda a memoro!
        Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
        Nas goelas do coração?
1 292
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco,

Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco
A fúria do horror da vida!
1 448
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Roçou-me

Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
1 342
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano

Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
1 345
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

As mortes

As mortes, o ruído, as violações, o sangue, o brilho das baionetas...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
1 233
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(after running away. (He never loves))

(after running away. (He never loves))

Não sei viver! nem fui para viver
Destinado; porquê então a vaga
Aspiração que tenho?
1 124
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(Antes do monólogo da treva)

(...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
811
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ao teu seio irei beber

Ao teu seio irei beber
O conforto de sofrer.
1 272
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei se a alma no Além vive...

Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
1 366