Criatividade e Inspiração

Poemas neste tema

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Ritual

seus olhos
ovulam um verde mediterrâneo
espermatozóides
agitam-se em gôndolas
sua língua
passeia em minha boca
meu pênis
endurece e penetra sua vagina

gozemos
há um ritual de procriação
mergulhado
nesses olhos verdes
: quem sabe
dele nascerá algum poeminha?

1 016
Maria Carlos Loureiro

Maria Carlos Loureiro

Primeiro foram os dedos

Primeiro foram os dedos
que travaram conhecimento.
Depois os olhos pousaram-me
na mão e levaram-na a percorrer
a curva da cintura. E a sua boca
procurou a minha boca
sem sobressaltos e deixou-a depois
para percorrer o meu corpo.

É assim a descoberta do poeta,
apesar de tudo se passar na sua cabeça,
dando origem a mais um poema.

738
Octavio Paz

Octavio Paz

Bajo tu clara sombra

Bajo tu clara sombra
vivo como la llama al aire,
en tenso aprendizaje de lucero.

1 397
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Roda em torno o bafo do nome,

e o homem está como um fole a prumo

sob o arco da língua.

Outras vezes é uma vara fincada

ao centro.

Abre a ideia,

sustenta o fogo nas mãos,

arde ao meio como um ofício puro.

de A Luz nos Pulmões(2000)

829
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

Encantatória

Custa é saber

como se invoca o ser

que assiste à escrita,

como se afina a má-

quina que a dita,

como no cárcere

nu se evita,

emparedado,a lá-

grima soltar.

Custa é saber

como se emenda morte,

ou se a desvia,

como a tecla certa arreda

do branco suporte

a porcaria.

de A Lume

2 197
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Os dedos batem no nome e estancam

Não há profundidade depois disso.

queria emergir magnífico

do meu fôlego,

cantar sob os foles da língua.

digo que todo o nome é dançado,

que freme como tocado de dentro.

753
Walt Whitman

Walt Whitman

Sometimes with One I Love

Sometimes with One I Love

Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I

effuse unreturnd love,

But now I think there is no unreturnd love, the pay is

certain one way or another,

(I loved a certain person ardently and my love was not

returnd,

Yet out of that I have written these songs.)

1 667
Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Álcool

Álcool

Não tenho gostado do que tenho escrito
Não tenho conseguido destilar minhas idéias
Não, definitivamente, não sou uma destilaria.
854
Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Automatismo Extraordinário

Automatismo Extraordinário

Escrevo através de
um impulso magnífico
ora espumante ora ingênuo
sempre transcendental

num transbordamento mágico
expresso minha poesia como
asas na amplitude do infinito

a vida não acaba, o tempo não
passa, a poesia permanece
livre. Escapo do insignificante

860
Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Essência

Essência

Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...

1 157
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Vida Ordeira

Vida ordeira, muito só
Arrefece a incitação
de escrever composição
em casa de minha avó

Parece-me estranho
a vida caótica; de ator
É o melhor desafiador
da minha imaginação...

madrugada de julho/73.

1 053
António de Navarro

António de Navarro

Poema XVI

Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.

Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza

Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração

Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...

1 184
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai alta a nuvem que passa.

Vai alta a nuvem que passa,
Branca, desfaz-se a passar,
Até que parece no ar
Sombra branca que esvoaça.

Assim no pensamento
Alta vai a intuição,
Mas desfaz-se em sonho vão
Ou em vago sentimento.

E se quero recordar
O que foi, nuvem ou sentido
Só vejo alma ou céu despido
Do que se desfez no ar.


15/06/1933
8 554
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho escrito mais versos que verdade.

Tenho escrito muitos versos,
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.

Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».

E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.


12/04/1934
3 741
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