Conflito
Poemas neste tema
Florbela Espanca
À Guerra!
Fala o canhão. Estala o riso da metralha
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!
Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!
Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!
Nun’Álvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!
Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!
Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!
Nun’Álvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”
2 117
Florbela Espanca
Às Mães de Portugal
Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
3 744
Florbela Espanca
Confissão
Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.
Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.
Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!
Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
...................................................................
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!...
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.
Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.
Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!
Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
...................................................................
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!...
1 704
Florbela Espanca
Prince Charmant
A Raul Proença
No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas
Das noites da minh’alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...
E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!
Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
– Nunca se encontra Aquele que se espera!... –
No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas
Das noites da minh’alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...
E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!
Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
– Nunca se encontra Aquele que se espera!... –
2 157
Isaac Rosenberg
Raiar do dia nas trincheiras
A escuridão desmorona -
É o mesmo tempo druida de sempre.
Só uma coisa viva roça minha mão -
Um rato esquisito e sarcástico -
Ao arrancar do parapeito a papoula
Para por detrás da orelha.
Rato comediante, você seria fuzilado se soubessem
De suas simpatias cosmopolitas.
Agora você tocou esta mão inglesa
Amanhã fará o mesmo com uma alemã -
Sem dúvida em breve se bem lhe aprouver
Cruzar o verde sonolento entre nós.
Você parece sorrir por dentro ao passar
Por olhos fortes, pernas rijas, atletas orgulhosos
Menos aptos à vida que você,
Atados aos caprichos do homicídio,
Esparramados pelas entranhas da terra,
Os campos rasgados da França.
O que você vê em nossos olhos
No ferro e fogo barulhento
Arrojados pelo céu quieto?
Que tremor - que peito horrorizado?
Papoulas com raízes nas veias de homens
Caem, e caem eternamente;
Mas a minha está segura em minha orelha,
Apenas um tanto embranquecida de poeira.
(tradução de Ricardo Domeneck)
É o mesmo tempo druida de sempre.
Só uma coisa viva roça minha mão -
Um rato esquisito e sarcástico -
Ao arrancar do parapeito a papoula
Para por detrás da orelha.
Rato comediante, você seria fuzilado se soubessem
De suas simpatias cosmopolitas.
Agora você tocou esta mão inglesa
Amanhã fará o mesmo com uma alemã -
Sem dúvida em breve se bem lhe aprouver
Cruzar o verde sonolento entre nós.
Você parece sorrir por dentro ao passar
Por olhos fortes, pernas rijas, atletas orgulhosos
Menos aptos à vida que você,
Atados aos caprichos do homicídio,
Esparramados pelas entranhas da terra,
Os campos rasgados da França.
O que você vê em nossos olhos
No ferro e fogo barulhento
Arrojados pelo céu quieto?
Que tremor - que peito horrorizado?
Papoulas com raízes nas veias de homens
Caem, e caem eternamente;
Mas a minha está segura em minha orelha,
Apenas um tanto embranquecida de poeira.
(tradução de Ricardo Domeneck)
1 661
Dan Pagis
Escrito a lápis em um vagão de trem lacrado
Aqui neste vagão
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu
("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu
("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)
1 358
Blanca Varela
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
da terra rumo ao inferno ou à estrela de sucata que te
leva diante de outro muro cheio de espelhos e de gestos,
endiabrados gestos sem dono e tu atrás deles, só, feliz
proprietário de uma boca escarlate que muge.
Cola o ouvido à terra que insiste em se levantar e respirar.
Acaricia-a como se fosse carne, pele humana capaz de
te comover, capaz de te rejeitar.
Aceita a espera que nem sempre há lugar no caos.
Aceita a porta fechada, o muro cada vez mais alto, o
pulinho, a imagem que te mostra a língua.
Não subas sobre os ombros dos fantasmas que é
ridículo cair de bunda with music in your soul.
tradução de Angélica Freitas
615
Pedro Xisto
Soledade
Sobre a tarde me aplico. As sombras ou trabalho
como quem plumas colhe: as almofadas ponho
nos cantos vivos; toda a casa espera o sonho;
e a nuvem de alto mar é ninho no carvalho.
Mas, inda, Soledade, eu não sei do tristonho
carinho - último toque, a modo desse orvalho,
pelo vazio olhar de mármore que talho.
E, insone e vago, em vão a mim me recomponho:
Os braços abre o rio e se perde no estuário;
A despedida face, inclina o girassol;
Ao pé do mastro a vela hesita; o leme é vário;
e tão alheia a espuma; em névoas cego, o sol;
de longe cai o vento — o gratuito sudário.
(Sobre nós dois, que fria estendes teu lençol...)
1 185
Hilda Hilst
Trecho de Qadós (1973)
Difícil de explicar, ia dizendo aos borbotões que essas coisas senhora são para fazer uma limpeza na minha alma devo começar por aí não sei se a senhora entende mas o branco é demais importante para começar as orações e acendendo as velas fica visível para a Excelência que sou eu mesmo que me acendo, matéria de amor etc. etc. A maioria revirava os olhos, torcia a boca, umas coçavam os cotovelos, a cintura, diziam: homem, se queres comida eu entendo mas não tenho, o resto é confusão, despacha-te. Às vezes davam-me panos pretos, ou alaranjados ou com listas ou vermelho com florzinhas, nunca o branco, Excelência, e como último recurso para conseguir os círios eu entrava numa loja aos solavancos, o olho girassol e gritava: duas velas por favor, a mãe agoniza, em nome do vosso nosso Deus duas velas para as duas mãos de mamãe. E saía como o raio, como o cão danado, como Tu mesmo que te evolas quando Te procuro, ai Sacrossanto por que me enganaste repetindo: hic est filius meus dilectos, in quo mihi bene complacui? Nudez e pobreza, humildade e mortificação, muito bem, Grande Obscuro, e alegria, é o que dizem os textos, humilde e mortificado tenho sido, mas alegre, mas alegre como posso? Se continuas a dar voltas à minha frente, estou quase chegando e já não estás e de repente Te ouço, bramindo: mata o rei, Qadós, o inteiro de carne e de pergunta, pára de andar atrás de mim como um filho imbecil. Como queres que eu não pergunte se tudo se faz pergunta? Como queres o meu ser humilde e mortificado se antes, muito antes do meu reconhecimento em humildade e mortificação, Tu mesmo e os outros me obrigam a ser humilde e mortificado? Como queres que eu me proponha ser alguma coisa se a Tua voracidade Tua garganta de fogo já engoliu o melhor de mim e cuspiu as escórias, um amontoado de vazios, um nada vidrilhado, um broche de rameira diante de Ti, dentro de mim? E as gentes, Máscara do Nojo, como pensas que é possível viver entre as gentes e Te esquecer? O som sempre rugido da garganta, as mãos sempre fechadas, se pedes com brandura no meio da noite que te indiquem o caminho roubam-te tudo, te assaltam, e se não pedes te perseguem, se ficas parado te empurram mais para frente, pensas que vais a caminho da água, que todos vão, que mais adiante refrescarás pelo menos os pés e ali não há nada, apenas se comprimem um instante, bocejam, grunhem, olham ao redor, depois saem em disparada. Andei no meio desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros embaixo do braço, e se via alguém mais louco do que os outros, mais aflito, abria um dos livros ao acaso, depois deixava o vento virar as folhas e aguardava. O vento parou, eis o recado para o outro: sê fiel a ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós. Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão. Não tenho não senhor, só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos. Sou quase sempre esse, matéria de vileza e confusão para os outros, para os Teus olhos um nada que te persegue, um nada que se agarra às tuas babas, e como é difícil te perseguir, nem o rasto, nem a estria brilhante (aquela que os caracóis deixam depois da chuva) eu vejo, pois é pois é, seria fácil para o teu inteiro gosma e fereza, o teu inteiro amoldável, me dar umas pequeninas alegrias e te mostrares um dia Grande Caracol baboso aguado brilhante, te mostrares um dia intimidade, vê Cão de Pedra, agora não sei, fui íntimo para um uma ou dois, nem me lembro, e a princípio como me trataram bem, cuidado na fala, langor no olhar, a minha palavra era véu dourado que pouco a pouco pousava, translúcido, luminosidade delicada, eu Qadós falava e o espaço era pérola, leite fresco, pistilo, um ou três relinchos para aquecer ainda mais tanta mornura, sorriam, lábio frouxo encantado, gula de me possuir inteiro, se era mulher ela me dizia isso mesmo gula de te possuir inteiro, Qadós, se era homem também, aí eu me escondia, dias e dias sobre Plotino, outros dias apenas flutuava sobre o verde dos parques, de longe me seguiam, eu de névoa transfixado, melindre dissolvência, Qadós O Inteiro Desejado.
1 098
Gabriel Ferrater
Ócio
Ela dorme. A hora em que os homens
já estão despertos, e pouca luz
entra por ora a feri-los.
Com tão pouco temos tanto. Apenas
o sentimento de duas coisas:
a terra gira, mulheres dormem.
Reconciliados, seguimos
direto ao fim do mundo, que não
requer nossa ajuda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
386
Jorge de Sena
Conheço o sal
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
1 827
Frank O'Hara
Canção (Estará sujo)
Estará sujo
como se parece sujo
é o que você pensa na cidade
será que só parece sujo
é o que você pensa na cidade
você não se recusa a respirar recusa
alguém chega com um belo dum mau caráter
parece atraente. será mesmo. sim muito
ele é tão atraente quanto mau caráter. será. sim
é o que você pensa na cidade
passe seus dedos por sua mente sem musgo
isto não é um pensamento é fuligem
e você tira muita sujeira das pessoas
será menos mau o caráter. não. melhora constantemente.
você não se recusa a respirar recusa
Is it dirty
does it look dirty
that's what you think of in the city
does it just seem dirty
that's what you think of in the city
you don't refuse to breathe do you
someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes very
he's attractive as his character is bad. is it. yes
that's what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that's not a thought that's soot
and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don't refuse to breathe do you
(tradução de Ricardo Domeneck)
773
Rui Knopfli
Uniforme de poeta
Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.
1 584
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 127
Abd al-Wahhab Al-Bayati
Sobre a felicidade
mentiram: a felicidade,
Mohammad,
não se vende.
e então os jornais
escreveram que do céu
choveram rãs ontem à noite.
amigo, roubaram-te a felicidade
enganaram-te
torturaram-te
crucificaram-te
nos laços das palavras
para dizerem de ti: morreu
para te venderem um lugar no céu.
ai como é inútil chorar.
eu tenho vergonha, Mohammad
e então as rãs
roubaram-nos a felicidade.
e eu apesar do sofrimento
continuo a caminho do Sol.
plantaram a noite com adagas
e cães
o céu da noite desaba sobre eles.
então revolta-te!
Mohammad!
então revolta-te!
e cuidado, não sejas traidor.
(tradução de André Simões)
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624
al-Khansa
28.
Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de
te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda,
em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção
nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado
o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse
puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e
transborde, como da vasilha carregada pela
mão esquerda.
314
Juan Gelman
Limites
Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(tradução de Antonio Miranda)
:
Límites
¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
(tradução de Antonio Miranda)
:
Límites
¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.
1 853
Affonso Ávila
Advertência da gerontóloga
rosto composto mosto decomposto em cara-
quadro vegetal de arcimboldo
retro old man maquiado de fimbrias desfibradas
do diabo guisado requentado em rescaldo ou
rescoldo
(sabe-se aqui o que de culinária quando muito de
azia e suas carquejadas)
de rabanete nabo quiabo em babas mal
temperadas
mas vá lá vadio pé-de-valsa goliardo goliold(o)
young old man without gold or god oficial de
ofício das madrugadas
o dia foi duro irmão durão as favas a fatiota de
dom Bertoldo
quadro vegetal de arcimboldo
retro old man maquiado de fimbrias desfibradas
do diabo guisado requentado em rescaldo ou
rescoldo
(sabe-se aqui o que de culinária quando muito de
azia e suas carquejadas)
de rabanete nabo quiabo em babas mal
temperadas
mas vá lá vadio pé-de-valsa goliardo goliold(o)
young old man without gold or god oficial de
ofício das madrugadas
o dia foi duro irmão durão as favas a fatiota de
dom Bertoldo
974
Isabel Câmara
Hora sagrada
Te espero.
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.
831
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 110
Gerard Manley Hopkins
Lanterna Externa
Uma lanterna move-se na noite escura,
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?
Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.
Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos
Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.
(tradução de Augusto de Campos)
:
The Lantern out of Doors
Gerard Manley Hopkins
SOMETIMES a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?
Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.
Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.
Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?
Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.
Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos
Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.
(tradução de Augusto de Campos)
:
The Lantern out of Doors
Gerard Manley Hopkins
SOMETIMES a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?
Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.
Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.
Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.
838
Kenneth Rexroth
Carta do pão com manteiga
Embora não fosse minha a casa
As primeiras frutas florescendo na
Janela tinham o mesmo cheiro.
A BREAD AND BUTTER LETTER
Although it was not my home
The first cold plum blossom by
The window smelled just the same.
As primeiras frutas florescendo na
Janela tinham o mesmo cheiro.
A BREAD AND BUTTER LETTER
Although it was not my home
The first cold plum blossom by
The window smelled just the same.
880
Jaroslav Seifert
Vi apenas uma vez
Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.
O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.
(tradução de Aleksandar Jovanovic)
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Bertran de Born
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1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.
2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p"ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d"arma a perseguir,
e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.
3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais -
somente entre golpes mortais.
4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
fugirão sem fardagem,
co"odono morto, os animais.
Ena batalha, o homem vivaz
só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.
5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
dos corcéis na pilhagem
e homens gritando "Atrás! Atrás!"
e vê-los na fossa voraz,
junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.
6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.
7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
Beatriz de alta linhagem,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.
8
Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
ela me dá coragem -
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.
9
Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.
10
Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz
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