Beleza

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Água-Cor

O país da cor é líquido e revela-se
na anilina dos vasos da farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do-verde.

E o azul é uma enseada na redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna do ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.
1 613
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Memória de Alphonsus de Guimaraens

I

Na violeta do entardecer,
flutua, evanescente, o poema
daquele poeta cujo ser
era só poesia — e suprema.


II

Um poeta, entre muitos, me fascina
por ser mineiro e do País do Sonho.
O luar pousa em seu verso alto e tristonho
e a alma de quem o lê já se ilumina.
1 203
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Plenitude

Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
1 063
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Em Todo o Corpo Lúcido

Em todo o corpo lúcido
a luz e a música
com o brilho da brisa
e os véus vegetais.
851
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Irrevelada

Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.

Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.

Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 044
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Acaso

Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,

hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso

subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 006
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Sonâmbula

Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.

Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência

tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
992
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Terrestre

A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!

Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
941
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 146
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Num Ponto Qualquer

Num ponto qualquer
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa.
1 059
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nela Se Curva a Luz

Nela se curva a luz
como se um feixe de músculos tocássemos
sob a pele.
1 065
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Generosidade Nos Flancos Lisos

Generosidade nos flancos lisos
do que dura num voo firme.
Sinuosidades de um insondável estar
na contínua corrente iniciando
o sabor de um abrigo imponderável.
1 019
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Por Encanto de Nuvem

Por encanto de nuvem
no favorável silêncio voluptuoso
a forma afluiu com as cabeças
rompendo a água do azul.
551
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É o Lugar. As Cores Rodam

É o lugar. As cores rodam
no silêncio, um leque branco.
Não mais nomes que não se reinventem,
sentindo a delicadeza do ar,
o dorso fascinante tão próximo e longínquo.
987
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Delícia Intacta É o Seu Corpo

Uma delícia intacta é o seu corpo
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
1 008
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Volume

Um volume
que adere ao espaço nulo
mais alto do que os ramos
retrai-se dilata-se percorre-se
numa chama solitária breve
quase o fascínio da sombra quase a leve
delicadeza de uma íris.
1 051
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nasce E É Uma Sombra E Arde

Nasce e é uma sombra e arde
na frescura de ser a dilatada folha
exacta e branca.
1 183
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Descida Oblíqua Leve

Descida oblíqua         leve
iluminação do corpo

Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
938
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Secreta a Amadurecer E Abrindo-Se

Secreta a amadurecer e abrindo-se
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento

São linhas ou corpos     indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
977
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Verde a Lentidão

Verde        A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia

Nuvem cintilante        ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre

É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
1 089
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Até À Pedra Que

Até à pedra que
resvala
na terra e no silêncio

o espaço obscuro     estranho
e algo cintilando lá no fundo
nada se diz
porque se vê
não sei o quê ou só o escuro azul
512
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Pedra Rente Ao Muro

Uma pedra rente ao muro

mais pequena

que um pássaro
988
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Nudez da Duna

A nudez da duna

esplendor deserto
1 196
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Consonância do Intacto

Consonância do intacto

com o corpo

nudez

de pedra

exacta
997