Animais e Natureza

Poemas neste tema

Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

A gata

(A meu filho Carlos)

A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.

1 140
Zezé Pina

Zezé Pina

Haikais

chuva na praia
o céu beija o mar
– gaivota espera

neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila

velho castelo
menina à janela
sonho de infância

lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance

vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.

noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.

1 034
Angela Santos

Angela Santos

Casual

É
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical

Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja

E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?

1 084
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

A Abóbora Menina

Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa

acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.

1 040
Marcelo Ribeiro

Marcelo Ribeiro

Pássaro Ferido

Ferido
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade

Ferido o pássaro que voa
Porém livre
1 149
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Quanto mistério na semente

Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!

1 687
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Elegia do Coentro

o canteiro não o faz mais verde
namoram-lhe as sementes os pássaros
cuidado de mulher o ajeita
do vento que o entortou

vegetal de vida útil e breve
que nasce verde e verde morre
não lhe será longa a vida
as folhas amarelecendo

coentro, tempero de alguns
destempero de si próprio
utilidade verde da vida
brevidade verde de si mesmo.

1 538
Cândido Rolim

Cândido Rolim

Minúcia

o vento
arranca sussurros da erva

livre de sombra
e ritmo
a gota
cárcere de luz
parte-se ao meio

1 010
Zuleika dos Reis

Zuleika dos Reis

Primavera

Margaridas brancas.
No jardim do meu vizinho,
a primavera.

Rãzinha verde. Entre
as folhas, brinca de
esconde-esconde.

Pétala a pétala
com delícia se desfolha
a alcachofra.

900
Zuleika dos Reis

Zuleika dos Reis

Outono

Gotas de orvalho
molhando a flor e a avezinha.
Fresca madrugada.

Gotas de orvalho.
Sobre a folha escorregadia
saltita o grilo.

Horizonte rubro.
Ave branca atravessando
branco do luar.

978
Adriana Abdenur

Adriana Abdenur

Passarinho

Miro,
atiro,
acerto.

Chego
correndo
mais perto.

Pequena docura
caida no mato --
tamanha tragedia
em tao breve ato.

927
Waldomiro Siqueira Jr.

Waldomiro Siqueira Jr.

Haicai

O Sentenciado

Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.

Restos

Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.

1 735
Sérgio de Mesquita Serra

Sérgio de Mesquita Serra

Haicai

A lua aparece.
Semeia de brilho a teia
que a aranha tece.

A gota de orvalho,
airosa, conquista a rosa
sem muito trabalho.

1 507
Roberto Saito

Roberto Saito

Verão

Súbita tontura.
Ainda mal desperto ouço
o som das cigarras.

Verão. Meio-dia.
Queimando as patas dos gatos —
paralelepípedos.

903
Roberto Saito

Roberto Saito

Outono

Milharal ao vento.
E súbito um seco estalo —
milhares de pássaros.

836
Saulo Mendonça

Saulo Mendonça

Haicai

Sob o sol poente
engolindo as suas sombras:
camponeses retornam.

Cai a tarde em Tambaú.
Restos de nuvens
são bailados de andorinhas.

2 024
Roberto Saito

Roberto Saito

Primavera

Imóvel a rã.
Em sua cabeça pousa
uma borboleta.

967
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

MaracuJá!

Subitamente olho para cima e Vejo:
Pendes todo verde e perfeitamente esférico sobre minha cabeça
Amadureces e transformas
Carbono morto em células vivas.

Calmante
Verdeamarelo
Passiflora
Flor da paixão.

Quase na barca do Mordomia. 9/9/1996 AD.

873
Sá Júnior

Sá Júnior

Partes

As asas partem
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.

O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...

934
Rui Bueti

Rui Bueti

Caçada

Olhos oblíquos de bochímane
em mirada de través

baque no peito
corrida
ziguezague
estertor
e trás!

(três dias
nos capins
pela extenuação)

pega a presa nos cornos
põe nas costas
leva embora então

1 309
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Impressão

Havia um lago,
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?

671
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Colóquio

A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.

(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)

900
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Astral

Energia incandescente
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.

O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.

E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.

Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.

920
Ricardo Silvestrin

Ricardo Silvestrin

Haicai

fiapos de sol
o cachorro se espreguiça
depois fica pensando

céu escuro
lua branca
apago todas as lâmpadas

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