Angústia
Poemas neste tema
Simone Brantes
Die Aufgabe
Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
642
António Carlos Cortez
Argila do sono
A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
603
Daniel Jonas
UMA SAISON NOS INFERNOS
Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
688
Luís Quintais
Ave
Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
773
Luís Quintais
Homenagem à adjectivação
Turbulento e caótico é o mundo, dear.
Meteorologias são bichos
de irrmediável fulgurante rápida incivilidade.
Meteorologias são bichos
de irrmediável fulgurante rápida incivilidade.
660
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
707
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
674
Nelly Sachs
ESTOU NO ESTRANGEIRO
Estou no estrangeiro
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
534
Nelly Sachs
QUEM CHAMA?
Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
641
Nelly Sachs
QUEM CHAMA?
Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
646
Tomas Tranströmer
VIAGEM NOCTURNA
Fervilha sob os nossos pés. Os comboios partem.
O hotel “ Astoria “estremece.
Um copo de água ao lado da cama
brilha nos Túneis.
Ele sonhou que estava preso em Salvbard.
O planeta girou com rancor.
Olhos brilhantes caminhavam sobre o gelo.
A beleza da ferida estava ali.
O hotel “ Astoria “estremece.
Um copo de água ao lado da cama
brilha nos Túneis.
Ele sonhou que estava preso em Salvbard.
O planeta girou com rancor.
Olhos brilhantes caminhavam sobre o gelo.
A beleza da ferida estava ali.
321
Eucanaã Ferraz
O SÓ
Na longa alameda a luz aos pedaços cai
mole do alto dos postes. Ele olha.
Para que não doa, apenas olha.
E não dói.
mole do alto dos postes. Ele olha.
Para que não doa, apenas olha.
E não dói.
716
Joaquim Manuel Magalhães
Sirene
Sirene, bigorna deficiente,
o cansaço do poente tritura.
Um neutro fulminante.
O ramal do comboio.
Um acorde agita-se.
Modela uma caldeira
o agulheiro, no sapal.
A manivela desafia
a planície.
Flutua na semelhança
o apuro do semeador.
Equimose de demolição.
Alguém, nu.
o cansaço do poente tritura.
Um neutro fulminante.
O ramal do comboio.
Um acorde agita-se.
Modela uma caldeira
o agulheiro, no sapal.
A manivela desafia
a planície.
Flutua na semelhança
o apuro do semeador.
Equimose de demolição.
Alguém, nu.
1 159
Carlito Azevedo
RÓI
Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
685
Joaquim Manuel Magalhães
O balneário
O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.
Eco, fivela, gume.
toalha revolta.
Tensa na súplica.
Eco, fivela, gume.
1 095
Manuel de Freitas
5 602543 0300515
Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
963
Manuel de Freitas
MERDAFÍSICA
A poesia não é um tema importante (há quinze dias
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.
Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.
Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
1 043
Ademir Assunção
Sol Negro
tenho gritado raios elétricos, chuvas
que não passam, maremotos, tremores e ruínas
grito: e meu grito ilumina
toda a cidade de campinas
grito: e meu grito desespera
todos os torcedores da ponte preta
grito: e o sol rola em slow motion
como uma cabeça tarahumara, em direção ao gol,
deixando um rastro de incêndio no gramado
que não passam, maremotos, tremores e ruínas
grito: e meu grito ilumina
toda a cidade de campinas
grito: e meu grito desespera
todos os torcedores da ponte preta
grito: e o sol rola em slow motion
como uma cabeça tarahumara, em direção ao gol,
deixando um rastro de incêndio no gramado
717
Ademir Assunção
MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI
numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 214
Ademir Assunção
BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS
quanto abismo cabe
na palavra abismo,
quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,
quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,
quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos
para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul
chamado névoa, vulcão,
solitude?
na palavra abismo,
quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,
quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,
quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos
para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul
chamado névoa, vulcão,
solitude?
1 036
Everardo Norões
pampas
Para Hildebrando Pérez Grande
São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
668
José Paulo Paes
O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE
o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
543
Salgado Maranhão
Do Raio
Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
716
Salgado Maranhão
Ladainha
Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.
Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
744
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