Amor Romântico

Poemas neste tema

Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sobre a cama

Disjecta membra diz
o meu amado
batendo com a palma no lençol
e rimos amplos os dois
como crianças
e tudo é pena ao ar
e amor ao vento
desmembrados os membros
sobre a cama
aberto o corpo ao tempo
de brincar.
955
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Cuidando de comida

Na sala de cima
meu marido escreve.
Embaixo
na cozinha
faço tinir as louças.
Ponho-me em seu lugar
ouvindo sem ouvir
este bater de prato
contra prato
acalanto que encobre o ronronar macio
do laptop.
Ponho-me em meu lugar
nesta cozinha
e escorro
e enxugo
e pico sobre a tábua
palavras e verduras
com que depois
à mesa
darei comida
à alma.
1 109
Marina Colasanti

Marina Colasanti

AINDA ASSIM

Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
903
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Como é Gentil

Os pelos da tua mão
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
1 315
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Além do Entendimento

A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
1 019
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Pedes Explicação

Pedes explicações, que não sei dar,
sobre meu jeito de amar.
Soubesse das razões porque te amo
deste modo
poderia também me apaziguar.
Sou assim:
um gato na poltrona aos teus pés
ou um tigre que, faminto,
carinhosamente
– vem te devorar.
955
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Ninfa

Diz um crítico
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
1 006
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

A Maravilha do Mundo

Quem disse
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
995
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Austin, 1976

E como caminhássemos à beira-rio no entardecer
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
1 092
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXII - A ilha

Amor, amor, oh separada minha
por tantas vezes mar como neve e distância,
mínima e misteriosa, rodeada
de eternidade, agradeço
não só teu olhar de donzela,
tua brancura oculta, rosa secreta, mas
o esplendor moral de teus estátuas,
a paz abandonada que me confiasse nas mãos:
o dia detido em tua garganta.
1 031
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Amor de Ostra

Nunca soube como as ostras amam.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
1 258
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Amor

Oh amor, oh vitória de tua cabeleira agregando a minha vida
a velocidade da música que se eletrizou na tormenta
e fora do âmbito puro que se desenvolve queimando
aquelas raízes cobertas pela poeira do tempo
contigo, amorosa, viveram o dia de chuva remota
e meu coração recebeu teu palpitar palpitando.
962
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXIX

Caem pensamentos de amor
dentro dos vulcões extintos?

A cratera é uma vingança
ou um castigo da terra?

Com que estrelas seguem falando
os rios que não desembocam?
974
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

sala

na sala decorada
pela noite
e pelo imenso desejo,
nossas xícaras
lascadas


Da série “Arquitetura de interiores”
750
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

guarda-roupa

seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você


Da série “Arquitetura de interiores”
1 119
José Saramago

José Saramago

Medusas

Tentaculada e branca, morta já,
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.

O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
1 022
José Saramago

José Saramago

Água Que À Água Torna

Água que à água torna, de luz franjada,
Abre-se a vaga em espuma.
Movimento perpétuo, arco perfeito,
Que se ergue, retomba e reflui,
Onda do mar que o mesmo mar sustenta,
Amor que de si próprio se alimenta.
1 519
José Saramago

José Saramago

Romeu a Julieta

Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.
1 167
José Saramago

José Saramago

Craveira

Não deixa amor que o meçam, antes mede,
Incorrupto juiz que tudo afere
Na craveira da sua desmedida.
Chamados todos somos: só elege
Quantos de nós soubermos converter
Em chama vertical a hora consumida,
Em mãos de dar os dedos de reter.
498
José Saramago

José Saramago

Até Ao Fim do Mundo

É tempo já, Inês, o mundo acaba
Em que amor foi possível e urgente;
A promessa talhada nessa pedra,
Ou é cumprida hoje, ou tudo mente.
1 068
José Saramago

José Saramago

West Side Story

Os jardins de Verona redivivos
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
888
José Saramago

José Saramago

Julieta a Romeu

É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
1 094
José Saramago

José Saramago

Sarcasmo de D. João No Inferno

Contra mim, D. João, que pode o inferno,
Que pode o céu e todo o mais que houver?
Nem Deus nem o Diabo amaram nunca
Desse amor que junta homem a mulher:
De pura inveja premeiam ou castigam,
Acredite, no resto, quem quiser.
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José Saramago

José Saramago

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
1 352