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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

METEMPSICOSE

Quando a vi o outro dia longe passeando,
Formosa como nunca, a sua formosura
Traduziu-se em minh'alma em mística ternura,
Tirou da minha mente o que era vil, nefando.

Eu senti que m'estava logo dominando
Aquel' celeste olhar de suprema candura
E que d'esta minh'alma a noite sempre escura
Se tomou como o dia com o sol brilhando!

Aquele olhar tirou as ideias fatais
Da pobre minha mente que agora fremita
Sob impulsos mais puros, ardentes, leais;

E se só pelo bem meu coração palpita,
Se sonha minha mente sonhos ideais,
É a sua alma pura que em minha alma habita!!
875
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como varia

 Como varia
A sensualidade, a inteligência,
A vontade, o (...) de um a outro,
Assim varia em todos a intuição
Do universal mistério. Sentem todos
Uns vagamente, outros conscientemente
O mistério, mas eu mais do que todos.
1 397
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E quando o leito estiver quase ao pé do tecto

E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 090
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mais que a existência

Mais que a existência
É um mistério o existir, o ser, o haver
Um ser, uma existência, um existir —
Um qualquer, que não este, por ser este —
Este é o problema que perturba mais.
O que é existir — não nós ou o mundo —
Mas existir em si?
2 602
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [b]

A PARTIDA

Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!

Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.

Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!

Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.

Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
 (...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.

Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
1 090
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ON THE ROAD

In a cart.

Here we go while morning life burns
        In the sunlight's golden ocean,
And upon our faces a freshness comes,
        A freshness whose soul is motion.

Up the hills, up! Down to the vales!
        Now in the plains more slow!
Now in swift turns the shaken cart reels.
        Soundless in sand now we go!

But we must come to some village or town,
        And our eyes show sorrow at it.
Could we for ever and ever go on
        In the sun and air that we hit;

On an infinite road, at a mighty pace,
        With endless and free commotion,
With the sun eter round us and on our face
        A freshness whose soul is motion!
1 444
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando for a Grande Partida,

Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 281
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se ontem à tua porta

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...
1 491
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.

Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.
Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos.
Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos
Como se aquilo ainda fosse eles
E não o grande maillot interior que a nascença nos deu.
1 470
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Com teu gesto pintado e exagerado

Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir

Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.

Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...

Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
1 011
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah qualquer cousa,

(after useless discussion)

                Ah qualquer cousa,
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração!
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existo]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível,
Diferente e essencial...

Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dos lobos longe...
1 153
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos os mistérios do universo

Todos os mistérios do universo
São um só: o mistério do universo.
Um dia — nunca o sol me-lo trouxera! (
Vi-o esse mistério — claramente
Com completa visão e compreendendo
Em todo o mistério do mistério
Na sua infinidade e concisão!
E desde então nunca mais livre fui
Mas no horror vivo e (...)
Recordando em cada momento essa visão,
Desse horror ocupado eternamente
Como da vida o calor do sangue
Intimamente anseia.
1 144
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda.

Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...

Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...

Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...

Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
1 568
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O quê? Valho mais que uma flor

O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...

Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
1 518
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sempre que penso uma coisa, traio-a.

Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos.

Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.
878
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Toda a gente é interessante

Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente
Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe!
Que expressões em todas, em tudo!
Que maravilhosos perfis todos os perfis!
Vista de frente, que cara qualquer cara!
Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos!
1 187
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, não poder dormir (eu não sei como,

Ah, não poder dormir (eu não sei como,
Não na verdade o quero) eternamente,
Acabar não comigo, nem com isto,
Mas com tudo, causa, efeito, ser...
Ideias vãs que a imaginação
Vazia dum momento em quietude
Gera sem ilusão, como criança
Embriagando-se indolentemente
Do cheiro transitório duma flor.
1 350
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EXISTÊNCIA: Vaga noção abstracta,

Vaga noção abstracta,
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério     (...)      cru
Que mundo e vida têm.

Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
1 242
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu sou como um que entre o mar que lhe avança

Eu sou como um que entre o mar que lhe avança
Se vê e entre um rochedo alto e (...)
Mas com maior horror — ah, quão maior!
Perante a morte — aquilo que eu temo
Com horror que transcende todo o horror
Que os homens hão sentido — lhe aproxima...

Coroai-me de espinhos — sou aquele
Que mais no mundo tem sofrido.

P'ra resignar-se à morte é necessário
Não lhe compreender todo o horror,
Não lho medir. Perdi
A última ilusão que até agora
Ninguém perdera, nem o mais audaz
Cogitador metafísico — essa que faz
Com que o pavor não desça às nossas veias
Tornando-se um com a nossa vida.
1 186
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,

Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?

Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?

Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.

Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?

Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
1 065
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O som contínuo da chuva

O som contínuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.

[...]
1 465
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah que nunca a verdade definida

Ah que nunca a verdade definida
Mate a alma, que vive de não tê-la!

Talvez que nunca, ó negra sperança linda!,
A alma encontre o horror definitivo
Da verdade absoluta, onde se acabe
Que ser, que ter, que procurar.

Cada Deus seja falso e, onde é, supremo;
Sol centro dum sistema de verdades
E sistemas solares de ilusão
No espaço da verdade sem limite
E sem definição — inexistente
Para quanto é o sujeito.
787
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sim, talvez tenham razão.

Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 537
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pouco a pouco

Pouco a pouco
O mundo volta a ser do pensamento
Regressa a ser sentido.
E por onde subira,
Por esses degraus de mistério
Desceu o mundo, de mistério a etéreo
De etéreo a alma só perante a lira.
        Pouco a pouco,
        Lento e suave,
        Como o voo
        De uma ave
        Que se cansa
Regressa o mundo ao mundo
Orfeu, que se afasta, avança
Pouco a pouco, pelo (...) profundo.
1 651