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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na quinta que nunca houve

Na quinta que nunca houve
Há um poço que não há
Onde há-de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.
967
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é pouco aos bocados.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.
798
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

POEMA PIAL

Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)

Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
2 041
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Crer é errar. Não crer de nada serve.

Crer é errar. Não crer de nada serve.
1 525
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Seldom have I so inly comprehended

Seldom have I so inly comprehended
With a deep sense so awful and so rude
My complete being's complete solitude
In all its arid loneliness extended

So wholly solitude, so much unblended
With aught else, good or ill, that might intrude
Upon its horror limitless and nude
Whereat my reason reels, not by (...) defended.
And save it from itself (…)
1 090
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lá vem o homem da capa

Lá vem o homem da capa
Que ninguém sabe quem é...
Se o lenço os olhos te tapa
Vejo os teus olhos por fé.
2 555
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

7 - I feel pale and I shiver

I feel pale and I shiver.
        What power of the moonlight
Tremulous under the river
        Thus pains me with delight?

What spell told by the moon
        Unlooses all my soul?
O speak to me! I swoon!
        I fade from life's control!

I am a far spirit, e'en
        In the felt place of me.
O river too serene
        For my tranquillity!

O ache somehow of living!
        O sorrow for something!
O moon‑pain the sense‑giving
        That I am vainly king

In some spell‑bound realm mute,
        In a lunar land lone!
O ache as of a dying flute
        When we would have't play on!
1 033
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tiraste o linho da arca,

Tiraste o linho da arca,
Da arca tiraste o linho.
Meu coração tem a marca
Que lhe puseste mansinho.
1 215
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Oh for a less meaningless horizon than the land and the sea!

Oh for a less meaningless horizon than the land and the sea!
Oh for a rest from places and a lapse from the sense of times!
Waves, ever waves, to and fro … Ever waves roll, and we
What do we wait, what do we seek, what do we pause for and flee?
What in us lusts for more round us than the strech of minutes and climes?

Ah, and no bark to bear us towards Impossible, and that a real place,
An attainable place, full of the depths and rests of the Unattainable!
But ever the sea, the sea, like the passing of many a face...
Ever the sea, and the sea runs a restless and half-hearted race
Towards not the shore, nor the land, but what? Who can measure or tell?

No ship to bear us homeward, past earth and sea and the sky!
None to spread sails to a breeze blowing but not with a whither!
And ever, like a lost meaning, the sea never passing by,
Ever the measurable sea, sad as a formless cry,
And the most hearts can be is (to) be two and sorrow together!

To-morrow will tire us of all! But we lack heart to be tired indeed
The purpose our souls came for is lost and never stared at...
Let us at least by the shore construe our aches for a deed
Into a meaningless ache and a desolate and purposeless greed...
Become we one with the sea's lost purpose and dream and wish nothing
                                                                                                but that...
1 512
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tarda o verão. No campo tributário

Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
        Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
        Do moribundo tudo.
1 293
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 440
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sometimes in the middle of life a change

Sometimes in the middle of life a change
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.

A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
1 297
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I - Soam vãos, dolorido epicurista,

I

Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria ideia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia de Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.
1 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que flores te dar

Não sei que flores te dar
Para os dias da semana.
Tens tanta sombra no olhar
Que o teu olhar sempre engana.
1 397
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Corre a água pelas calhas

Corre a água pelas calhas
Lá segundo a sua lei.
Pareces, vista de lado,
Aquela que te julguei.
812
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flores amo, não busco. Se aparecem

Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
        O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
        Não são nossas, mas mortas.
1 251
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se eu te pudesse dizer

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
2 453
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
        Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
        Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
        No inútil infinito.
4 569
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

1. Little flower that wert on the hill,

1.
Little flower that wert on the hill,
Where art thou to-day?
Thou that saw'st thyself in the rill
Art thou gone away?
Ah, now I see that thou art dead
And that thy charm from us is fled.
1 351
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olha o teu leque esquecido!

Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!
1 365
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Descasquei o camarão,

Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
2 376
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Esse xaile que arranjaste,

Esse xaile que arranjaste,
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.
1 355
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

33 - THE LOST KEY

Set out from sight of shore!
                Grow tired of every sea!
        All things are ever more
                Than most they seem to be.
What steps are those that pass outside my door?

        Fail out from shape and thought!
                Let sense and feeling fade!
        O sadness overwrought
                With joy till bliss is strayed!
What birds are those that my swift window shade?

        But be those steps no steps,
                And be those birds dreamed wings,
        Still one ache oversteps
                The life to which it clings,
Though to know what ache no step in me helps
And what this pang is no bird in me sings.
1 418
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O pescador do mar alto

O pescador do mar alto
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.
2 370