Amor
Poemas neste tema
Tamara Baroni
Cobiça
O ventre morbido
frémito na garganta
nos olhos em relampagos
fogos cintilam as facas e
eu, confundida de medo, alegria,
ainda de vida..., conheço a cobiça
entendo o aperto do corpo meu
cumplice, amigo. Não posso.
Em lava de ardente flash back
me abro a torrentes celestes:
te quero.Não devo. Me tenta mais
o desejo que o fato. O sexo
que me queima: te quero. Te agarro. Não
posso... que absurdo! Jogamos entre
nós un jogo de olhos. Tua pele
me tenta. Me tenta
o respiro. Me dobro ao desejo
ao violento sabor meu novo
mestre de amor mais novo
meu cúmplice amigo.
frémito na garganta
nos olhos em relampagos
fogos cintilam as facas e
eu, confundida de medo, alegria,
ainda de vida..., conheço a cobiça
entendo o aperto do corpo meu
cumplice, amigo. Não posso.
Em lava de ardente flash back
me abro a torrentes celestes:
te quero.Não devo. Me tenta mais
o desejo que o fato. O sexo
que me queima: te quero. Te agarro. Não
posso... que absurdo! Jogamos entre
nós un jogo de olhos. Tua pele
me tenta. Me tenta
o respiro. Me dobro ao desejo
ao violento sabor meu novo
mestre de amor mais novo
meu cúmplice amigo.
693
António Arnaut
Gloria Efémera
O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
1 188
Manuel Apolinario
Duas Panças de Respeito
Vinha a Rosa da igreja
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.
- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.
- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.
- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.
- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!
901
Artur Eduardo Benevides
Dos Caminhos e Descaminhos da Solidão
I
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
1 484
Anízio Vianna
leitmotiv
a seda do luar na veia
o sedativo
onde pousei meu desejo
tua mão varreu o piso
deixo
no AR
como
que por alívio
o perfume desse filme
não cessa de passar
lento
na tela
da música
meu leitmotiv
falo:
- é feminino cantar
o sedativo
onde pousei meu desejo
tua mão varreu o piso
deixo
no AR
como
que por alívio
o perfume desse filme
não cessa de passar
lento
na tela
da música
meu leitmotiv
falo:
- é feminino cantar
1 118
António Arnaut
O Comicio
Da tribuna envergonhada
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
1 327
Arthur Fortes
Esfinge
Fico-me só, horas mais horas, triste,
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
707
Anísio Melhor
O Tempo e a Memória
Fica-te aí, parado na memória,
Reveste de outono a luz de tua face
Oh Sempre Adormecida, que a Vitória
Do Amor é conservar consigo a face.
E, assim, vencer o tempo na memória
E atingir o eterno no traspasse
Fatal. Trazendo adiante na Memória,
A visão emblemática da face.
Na ilha de agosto, faze tua morada
E em setembro hás de surgir do Nada
Se estática ficares na memória.
Que nunca apareceste na jornada,
Ou houveres sido, existirás Amada
Se ficares presente na memória.
(Sanatório Bahia — 22.3.1960)
Reveste de outono a luz de tua face
Oh Sempre Adormecida, que a Vitória
Do Amor é conservar consigo a face.
E, assim, vencer o tempo na memória
E atingir o eterno no traspasse
Fatal. Trazendo adiante na Memória,
A visão emblemática da face.
Na ilha de agosto, faze tua morada
E em setembro hás de surgir do Nada
Se estática ficares na memória.
Que nunca apareceste na jornada,
Ou houveres sido, existirás Amada
Se ficares presente na memória.
(Sanatório Bahia — 22.3.1960)
945
Anderson Braga Horta
Poeminha Súbito
Mas que sabemos nós de toda essência?
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.
1 201
Antônio Massa
Cartesianos
Cartesianos
desabados entre as fórmulas
confeccionadas sob encomenda
emendas nas vielas nossas
invadidas pelo prático ímpeto
de desnudar da vida
uma satisfação qualquer
Conhecemos os quadrantes
mas não vemos antes
de toda a metria
nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto
e não para preenchê-lo
com formulações técnicas
étnicas
ásperas
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos
deveras quadrados
sem contornos nas arestas
sem astúcia para contornar
situações pontudas
oferecendo apenas
respostas pontiaguadas
aos ponteiros da vida
que ao acaso giram,
não para marcar hora
a outrora
ou demora
mas para manifestar
que avançam
dançam enquanto vivos
enquanto ventos
enquanto corpos
enquanto bichos
Cartesianos...
destituídos da vontade de crescer
almejando desvendar a vida
com o conhecimento obsoleto
por demais lógico e tétrico
objético
Queremos resgatar o saber
do monstro do Desconhecido
mas quem irá salvaguardar
nossas almas
se não concedemos
se não concebemos
se não compreendemos
se não empreendemos
o caminho para o Ninho
para nos entendermos
para nos perdoarmos
para nos conhecermos
ao invés de esquecermos
de nós
os homens
os lobisomens
os meta homens
os meio homens
Cartesianos...
demais para aceitarmos
Amor numa relação homossexual
demais para aceitarmos
o Amor que de cima nos é oferecido
nos ferimos
não podemos computar o Sentimento
então erguemos os muros
as fronhas
as frontes
os horizontes
separamos o homem
do bicho
do corpo
do vento
da vida
mas não separamos
o homem
do homem
lobisomem
meta homem
meio homens
mulheres
crianças
que não justificam nosso fim
nosso início
nosso concerto
nosso desconcerto
nossa cartesianidade
que é o precipício
a precipitação
a prece para a ação
desnutrida
desdentada
exaurida
Cartesianos...
nossas questões fúteis
inúteis
indagam quantos raios emite o sol
quantos pelos há na púbis
quantas vidas há na morte
mas não nos preocupamos
em tomar a quentura
da luz
do corpo
em viver esta vida
como se ela fosse única
como se ela fosse virgem
e fôssemos penetrando calor adentro
noite adentro
suspirando cada ponto de aurora
gemendo cada agora
germinando
curtindo
cultivando
cultuando
Cegos frente às cordas bambas
bombas para quem não as sente
com os dedos
o corpo
a alma
a calma
estamos caindo em nossos mapas
arquitetônicos
astrais
geométricos
geográficos
e os leões nos esperam no picadeiro
depois da queda
depois da morte
e sabe-se lá qual a sorte
de quem despenca
flácido
ácido
nas gargantas do felino
Cartesianos, infelizmente,
esperamos o Artesão
que venha cobrar os juros
construir os muros
edificar os matadouros
Arrancar de nós o couro
o ouro
os cofres
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta?
desabados entre as fórmulas
confeccionadas sob encomenda
emendas nas vielas nossas
invadidas pelo prático ímpeto
de desnudar da vida
uma satisfação qualquer
Conhecemos os quadrantes
mas não vemos antes
de toda a metria
nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto
e não para preenchê-lo
com formulações técnicas
étnicas
ásperas
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos
deveras quadrados
sem contornos nas arestas
sem astúcia para contornar
situações pontudas
oferecendo apenas
respostas pontiaguadas
aos ponteiros da vida
que ao acaso giram,
não para marcar hora
a outrora
ou demora
mas para manifestar
que avançam
dançam enquanto vivos
enquanto ventos
enquanto corpos
enquanto bichos
Cartesianos...
destituídos da vontade de crescer
almejando desvendar a vida
com o conhecimento obsoleto
por demais lógico e tétrico
objético
Queremos resgatar o saber
do monstro do Desconhecido
mas quem irá salvaguardar
nossas almas
se não concedemos
se não concebemos
se não compreendemos
se não empreendemos
o caminho para o Ninho
para nos entendermos
para nos perdoarmos
para nos conhecermos
ao invés de esquecermos
de nós
os homens
os lobisomens
os meta homens
os meio homens
Cartesianos...
demais para aceitarmos
Amor numa relação homossexual
demais para aceitarmos
o Amor que de cima nos é oferecido
nos ferimos
não podemos computar o Sentimento
então erguemos os muros
as fronhas
as frontes
os horizontes
separamos o homem
do bicho
do corpo
do vento
da vida
mas não separamos
o homem
do homem
lobisomem
meta homem
meio homens
mulheres
crianças
que não justificam nosso fim
nosso início
nosso concerto
nosso desconcerto
nossa cartesianidade
que é o precipício
a precipitação
a prece para a ação
desnutrida
desdentada
exaurida
Cartesianos...
nossas questões fúteis
inúteis
indagam quantos raios emite o sol
quantos pelos há na púbis
quantas vidas há na morte
mas não nos preocupamos
em tomar a quentura
da luz
do corpo
em viver esta vida
como se ela fosse única
como se ela fosse virgem
e fôssemos penetrando calor adentro
noite adentro
suspirando cada ponto de aurora
gemendo cada agora
germinando
curtindo
cultivando
cultuando
Cegos frente às cordas bambas
bombas para quem não as sente
com os dedos
o corpo
a alma
a calma
estamos caindo em nossos mapas
arquitetônicos
astrais
geométricos
geográficos
e os leões nos esperam no picadeiro
depois da queda
depois da morte
e sabe-se lá qual a sorte
de quem despenca
flácido
ácido
nas gargantas do felino
Cartesianos, infelizmente,
esperamos o Artesão
que venha cobrar os juros
construir os muros
edificar os matadouros
Arrancar de nós o couro
o ouro
os cofres
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta?
810
Álvares de Azevedo
Trindade
A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
3 605
Aureliano Lessa
Tu
Teus olhos são como a noite
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
1 356
Aída Godinho
Haicai
Sabiás não cantam
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
1 003
Almeida Garrett
A Tempestade (1828)
Virgílio,
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
2 289
Alberto de Lacerda
Ilha de Moçambique
Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.
Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!
Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.
Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.
Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!
Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.
Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.
1 617
Alex Bartalotti
Pensamentos esquecidos
Deixa eu poder te mostrar
os lindos castelos do lado de lá
os sonhos mais belos que o mar vai banhar
abraçados aos braços da luz do luar
Deixa eu poder lamentar
os pensamentos esquecidos que me fez faltar
os momentos deixados para o tempo gastar
os seus beijos derradeiros de tanto te amar
Deixa eu poder chorar
as lágrimas, harmonias e poesias
todas que um dia aspiravam te encantar
e que no dia você viu sem mesmo notar
Deixa eu poder reviver
aquele seu jeito mais lindo de ser
e quando no final mal pode se conter
as lágrimas que falam o que se vai sofrer
Mas vai garota, saibas esperar
fazes de tua beleza uma estrela a brilhar
enquanto esperas o mundo te mostrar
a constância do dia que você vai raiar
Vai, levante o rosto pois da vida é curto
o tempo de sorrir, e não há de chorar
A vida não perdoa e não olha pra trás
nos convence em destruir a nossa que jáz
Mas vai em frente, saiba se orgulhar
nossas águas já correram até o mais belo mar
nossas mágoas já merreram ao último olhar
mas nosso amor jamais merecia se separar
Pôr isso se um dia seu coração se emocionar
por alguma semente trazida pelo vento
anseies de um dia ela desabrochar
legado de meu contentamento.
os lindos castelos do lado de lá
os sonhos mais belos que o mar vai banhar
abraçados aos braços da luz do luar
Deixa eu poder lamentar
os pensamentos esquecidos que me fez faltar
os momentos deixados para o tempo gastar
os seus beijos derradeiros de tanto te amar
Deixa eu poder chorar
as lágrimas, harmonias e poesias
todas que um dia aspiravam te encantar
e que no dia você viu sem mesmo notar
Deixa eu poder reviver
aquele seu jeito mais lindo de ser
e quando no final mal pode se conter
as lágrimas que falam o que se vai sofrer
Mas vai garota, saibas esperar
fazes de tua beleza uma estrela a brilhar
enquanto esperas o mundo te mostrar
a constância do dia que você vai raiar
Vai, levante o rosto pois da vida é curto
o tempo de sorrir, e não há de chorar
A vida não perdoa e não olha pra trás
nos convence em destruir a nossa que jáz
Mas vai em frente, saiba se orgulhar
nossas águas já correram até o mais belo mar
nossas mágoas já merreram ao último olhar
mas nosso amor jamais merecia se separar
Pôr isso se um dia seu coração se emocionar
por alguma semente trazida pelo vento
anseies de um dia ela desabrochar
legado de meu contentamento.
874
Álvares de Azevedo
Pálida Inocência
Cette image du ciel - innocence et beauté!
Lamartine
Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?
E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?
Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!
Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!
Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!
Lamartine
Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?
E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?
Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!
Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!
Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!
1 963
Álvares de Azevedo
Passei ontem a noite
Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
3 734
André Ricardo Aguiar
Revisão
uma mão sempre escreve
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
820
Álvares de Azevedo
Perdoa-me, Visão dos meus Amores
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
2 438
Alberes Cunha
Dilema
Você passou por mim despercebida,
Levando em cada passo uma saudade.
E ao perceber tamanha realidade,
Fui definhando em toda a minha vida.
As ilusões, os sonhos, na verdade
Você levou em rápida corrida...
Restando uma lembrança dolorida,
Desse romance morto em tenra idade.
No mais, tudo passou rapidamente.
Você partiu precipitadamente,
Deixando esse vazio que ficou...
E ao relembrar o nosso antigo ninho,
Sinto esse medo de ficar sozinho,
Sem mesmo nem saber quem hoje sou!
Levando em cada passo uma saudade.
E ao perceber tamanha realidade,
Fui definhando em toda a minha vida.
As ilusões, os sonhos, na verdade
Você levou em rápida corrida...
Restando uma lembrança dolorida,
Desse romance morto em tenra idade.
No mais, tudo passou rapidamente.
Você partiu precipitadamente,
Deixando esse vazio que ficou...
E ao relembrar o nosso antigo ninho,
Sinto esse medo de ficar sozinho,
Sem mesmo nem saber quem hoje sou!
954
Alfredo José Assunção
Mais uma Abstração
Não quero música.Não quero amor.Não quero tempo, espaço ...
Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.
Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.
Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.
Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.
Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.
Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.
650
Adriana Lustosa
Tenho que esperar
Tenho que esperar
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
968
Antero Coelho Neto
De Novo A Vida
Depois de um sopro,
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
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