Natureza
Poemas neste tema
Al Berto
Os dias sem ninguém
os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos
foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida
pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço
luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho
restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos
foi bela a madressilva
subindo pela noite da morada esquecida
pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço
luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho
restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar
1 720
Fernando Pessoa
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 324
Fernando Pessoa
Um Deus cansado [de] ser Deus em vão
Um Deus cansado [de] ser Deus em vão
Farto da gente em cuja companhia
Ia da suja noite ao porco dia,
Para não ser obscuro — o Deus cristão,
O Deus do Cristianismo, esse, uma vez
Quebrando essa apatia em que repousa,
Ou repousava, (…), fez …
Mas fez ele alguma vez alguma coisa?
Para fazer alguma coisa
E não passar a eternidade em branco
Fez o João Franco.
Depois, como a paciência não lhe sobra,
(Que o Cristianismo não o deixa em paz)
Deu um golpe de vista à sua obra,
E zangou-se; já tenho água salobra
Na cabeça: de criar sou afinal capaz.
O último que criei foi Adão
Deixei ao tempo o resto e foi mau para mim.
Em lugar de criar qualquer novo João,
Lá fui ressuscitar Caim.
Farto da gente em cuja companhia
Ia da suja noite ao porco dia,
Para não ser obscuro — o Deus cristão,
O Deus do Cristianismo, esse, uma vez
Quebrando essa apatia em que repousa,
Ou repousava, (…), fez …
Mas fez ele alguma vez alguma coisa?
Para fazer alguma coisa
E não passar a eternidade em branco
Fez o João Franco.
Depois, como a paciência não lhe sobra,
(Que o Cristianismo não o deixa em paz)
Deu um golpe de vista à sua obra,
E zangou-se; já tenho água salobra
Na cabeça: de criar sou afinal capaz.
O último que criei foi Adão
Deixei ao tempo o resto e foi mau para mim.
Em lugar de criar qualquer novo João,
Lá fui ressuscitar Caim.
1 311
Nuno Júdice
O movimento do mundo
Às vezes, um verso transforma o modo como
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
1 869
Fernando Pessoa
O sorriso triste do ante-dia que começou
O sorriso triste do ante-dia que começou
Platina fria no engaste de negro azulando-se escuramente.
Platina fria no engaste de negro azulando-se escuramente.
917
Fernando Pessoa
O que pensando sofreu
O que pensando sofreu
Na loucura foi feliz.
Ah, vem comigo, que és meu.
Hei-de levar-te ao país
Do qual ninguém nada diz
E que ninguém concebeu.
Nem Deus, nem céu, nem inferno
Nem vidas ou morte
No incompreensível eterno
Que abriu teu pensar profundo.
Vem, dos teus olhos se esvaia
Bem e mal; e p'ra ti caia
Minha sombra sobre o mundo.
A opressão do mistério
Mancha-te a alma de luz;
Vem comigo que avanço
Além do vago sidério,
Transluz.
Vamos além do descanso,
Vamos para além da luz.
Triste que riu e chorou
E, além do rir e chorar,
Por pensamentos passou...
Vem a mim que eu sei amar.
FAUSTO:
Oh, Morte, vem-me levar!
MORTE:
Vem, oh meu filho, aqui estou.
Na loucura foi feliz.
Ah, vem comigo, que és meu.
Hei-de levar-te ao país
Do qual ninguém nada diz
E que ninguém concebeu.
Nem Deus, nem céu, nem inferno
Nem vidas ou morte
No incompreensível eterno
Que abriu teu pensar profundo.
Vem, dos teus olhos se esvaia
Bem e mal; e p'ra ti caia
Minha sombra sobre o mundo.
A opressão do mistério
Mancha-te a alma de luz;
Vem comigo que avanço
Além do vago sidério,
Transluz.
Vamos além do descanso,
Vamos para além da luz.
Triste que riu e chorou
E, além do rir e chorar,
Por pensamentos passou...
Vem a mim que eu sei amar.
FAUSTO:
Oh, Morte, vem-me levar!
MORTE:
Vem, oh meu filho, aqui estou.
1 235
Nuno Júdice
O amor eterno
E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
1 785
Fernando Pessoa
EPITÁFIO - Aqui jaz Alexander Search - T
Aqui jaz Alexander Search
Que Deus e os homens deixaram só,
Que sofreu e chorou ser escárneo da natureza.
Recusou o Estado, recusou a igreja,
Recusou Deus, a mulher, o homem e o amor,
Recusou a terra em volta e o céu além.
Resumiu assim o seu saber:
(...)e amor não há
Nada no mundo existe de sincero
Salvo a dor, o ódio, a luxúria e o medo
E mesmo estes são ainda suplantados
Pelos males que causam.
Andava pelos vinte anos quando morreu
Estas foram as suas últimas palavras:
Deus, a Natureza e o Homem, malditos sejam!
Que Deus e os homens deixaram só,
Que sofreu e chorou ser escárneo da natureza.
Recusou o Estado, recusou a igreja,
Recusou Deus, a mulher, o homem e o amor,
Recusou a terra em volta e o céu além.
Resumiu assim o seu saber:
(...)e amor não há
Nada no mundo existe de sincero
Salvo a dor, o ódio, a luxúria e o medo
E mesmo estes são ainda suplantados
Pelos males que causam.
Andava pelos vinte anos quando morreu
Estas foram as suas últimas palavras:
Deus, a Natureza e o Homem, malditos sejam!
1 270
Fernando Pessoa
NOTAS SOBRE TAVIRA
NOTAS SOBRE TAVIRA
Cheguei finalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.
(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).
Tudo é velho onde fui novo.
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios —
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.
Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?].
O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala...
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)
Sou forasteiro tourist, transeunte.
E claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.
Cheguei finalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.
(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).
Tudo é velho onde fui novo.
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios —
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.
Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?].
O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala...
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)
Sou forasteiro tourist, transeunte.
E claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.
996
Al Berto
Corpo
Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
(in "A Noite Progride Puxada à Sirga")
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
(in "A Noite Progride Puxada à Sirga")
2 656
Fernando Pessoa
O horror sórdido do que, a sós consigo,
O horror sórdido do que, a sós consigo,
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.
1 307
Fernando Pessoa
Para adorar a beleza
Para adorar a beleza
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
1 190
Fernando Pessoa
II - Na sombra Cleópatra jaz morta.
II
Na sombra Cleópatra jaz morta.
Chove.
Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.
Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.
E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.
O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?
Na sombra Cleópatra jaz morta.
Chove.
Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.
Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.
E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.
O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?
1 444
Fernando Pessoa
CEIFEIRA
Mas não, é abstracta, é uma ave
De som volteando no ar do ar,
E a alma canta sem entrave
Pois que o canto é que faz cantar.
De som volteando no ar do ar,
E a alma canta sem entrave
Pois que o canto é que faz cantar.
1 184
Fernando Pessoa
Hela hoho, helahoho!
[I]
Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma ,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha ,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
[Armas de Arras?].
E tudo é uma poeira incerta, uma nuvem de gente anónima
Que o vento da estratégia levanta em [formas divinas?],
E em ondas sopra entre os meus olhos atentos
E o Sol da verdade eterna, e a encobre sinistramente.
Marcha triunfal, onde a um tempo e não a um tempo,
Onde numa simultaneidade por transparências uns de outros,
Surgem, aparecem, aglomeram-se em minha consciência,
Os guerreiros de todos os tempos, os soldados de todas as raças,
As couraças de todas as origens,
As armas brancas de todas as forjas,
As hostes compostas de usos marciais de todos os exércitos.
Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma ,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha ,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
[Armas de Arras?].
E tudo é uma poeira incerta, uma nuvem de gente anónima
Que o vento da estratégia levanta em [formas divinas?],
E em ondas sopra entre os meus olhos atentos
E o Sol da verdade eterna, e a encobre sinistramente.
Marcha triunfal, onde a um tempo e não a um tempo,
Onde numa simultaneidade por transparências uns de outros,
Surgem, aparecem, aglomeram-se em minha consciência,
Os guerreiros de todos os tempos, os soldados de todas as raças,
As couraças de todas as origens,
As armas brancas de todas as forjas,
As hostes compostas de usos marciais de todos os exércitos.
912
Fernando Pessoa
Eu no tempo não choro que me leve
Eu no tempo não choro que me leve
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.
Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite fique, (...)
Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.
Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.
Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.
Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite fique, (...)
Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.
Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.
Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.
1 507
Fernando Pessoa
«Mau, Maria!» — tu disseste
«Mau, Maria!» — tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual «Mau, Maria», Maria!
«Má Maria!» «Má Maria!»
Quando a trança te caía.
Qual «Mau, Maria», Maria!
«Má Maria!» «Má Maria!»
1 387
Fernando Pessoa
Não digas mal de ninguém,
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
1 758
Fernando Pessoa
Ouvi-te cantar de dia.
Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
1 359
Fernando Pessoa
Ah o som de abanar o ferro da engomadeira
Ah o som de abanar o ferro da engomadeira
À janela ao lado da minha infância debruçada!
O som de estarem lavando a roupa no tanque!
Todas estas coisas são, de qualquer modo,
Parte do que sou.
(Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?)
Minha infância da altura da cara pouco acima da mesa...
Minha mão gordinha pousada na borda da toalha que se enrodilhava.
E eu olhava por cima do prato, nas pontas dos pés.
(Hoje se me puser nas pontas dos pés, é só intelectualmente.)
E a mesa que tenho não tem toalha, nem quem lhe ponha toalha...
Estudei o fermento da falência
Na demonologia da imaginação...
À janela ao lado da minha infância debruçada!
O som de estarem lavando a roupa no tanque!
Todas estas coisas são, de qualquer modo,
Parte do que sou.
(Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?)
Minha infância da altura da cara pouco acima da mesa...
Minha mão gordinha pousada na borda da toalha que se enrodilhava.
E eu olhava por cima do prato, nas pontas dos pés.
(Hoje se me puser nas pontas dos pés, é só intelectualmente.)
E a mesa que tenho não tem toalha, nem quem lhe ponha toalha...
Estudei o fermento da falência
Na demonologia da imaginação...
1 525
Fernando Pessoa
DILUENTE
DILUENTE
A vizinha do número quatorze ria hoje da porta
De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.
Ria naturalmente com a alma na cara.
Está certo: é a vida.
A dor não dura porque a dor não dura.
Está certo.
Repito: está certo.
Mas o meu coração não está certo.
O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.
Cá está a lição, ó alma da gente!
Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,
Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?
Estou só no mundo, como um peão de cair.
Posso morrer como o orvalho seca.
Por uma arte natural de natureza solar,
Posso morrer à vontade da deslembrança,
Posso morrer como ninguém...
Mas isto dói,
Isto é indecente para quem tem coração...
Isto...
Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...
Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?
Apoteose ás avessas...
Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!
A vizinha do número quatorze ria hoje da porta
De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.
Ria naturalmente com a alma na cara.
Está certo: é a vida.
A dor não dura porque a dor não dura.
Está certo.
Repito: está certo.
Mas o meu coração não está certo.
O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.
Cá está a lição, ó alma da gente!
Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,
Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?
Estou só no mundo, como um peão de cair.
Posso morrer como o orvalho seca.
Por uma arte natural de natureza solar,
Posso morrer à vontade da deslembrança,
Posso morrer como ninguém...
Mas isto dói,
Isto é indecente para quem tem coração...
Isto...
Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...
Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?
Apoteose ás avessas...
Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!
1 275
Fernando Pessoa
Não! Só quero a liberdade!
Não! Só quero a liberdade!
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes — ser o grande entendimento —
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível!
Não me matem em vida!
Quero saber atirar com essa bola alta à lua
E ouvi-la cair no quintal do lado!
Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
" Amanhã vou buscá-la ao quintal"
Buscá-la ao quintal
Ao quintal
ao lado...
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes — ser o grande entendimento —
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível!
Não me matem em vida!
Quero saber atirar com essa bola alta à lua
E ouvi-la cair no quintal do lado!
Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
" Amanhã vou buscá-la ao quintal"
Buscá-la ao quintal
Ao quintal
ao lado...
1 672
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - VIII
He asked me, half in his fine compassion,
To sketch in two strokes his portrait high;
'Tis done: a coat strikingly in fashion
And a red tie.
To sketch in two strokes his portrait high;
'Tis done: a coat strikingly in fashion
And a red tie.
1 184
Fernando Pessoa
O sol doirava-te a cabeça loura.
O sol doirava-te a cabeça loura.
És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora.
És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora.
1 341
Português
English
Español