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Poemas neste tema

Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

ABC da Flor

Flor-abelha
Flor-alegria
Flor-alimento
Flor-amor
Flor-beleza
Flor-borboleta
Flor-colibri
Flor-orvalho
Flor-perfume
Flor-silêncio
Flor-sonho
Flor-vida,
Vida de flor.

1 755
Chico Buarque

Chico Buarque

Choro bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

1 557
Chico Buarque

Chico Buarque

Até pensei

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

2 431
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

Viu só, meu anjo?

Viu só, meu anjo.
Eu não disse
que não ia doer?

Eu disse
que ia doer.

Eu: dói

806
Geraldo Carneiro

Geraldo Carneiro

neoplatônica

a boca é o lugar onde se engendra
o silêncio e se proferem sentenças
de morte e colhem blasfêmias
e serpenteiam sortilégios
e se enfunam as flores da fala
até forjar a ficção de outra boca
de onde se extrai a idéia do beijo

979
Geraldo Carneiro

Geraldo Carneiro

à flor da língua

uma palavra não é uma flor
uma flor é sue perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestigio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra não: é só floriléfio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor

1 091
Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

A Valsa

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Coas faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
Pra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

2 090
Afonso Cautela

Afonso Cautela

Ponto Final

Não, não estou doente,
não preciso de escolta,
os rins funcionam, felizmente,
ou por morrer também se paga multa?

Não preciso de nada,
estou em ordem,
despeçam-se de mim à bofetada
e passem muito bem.

Deixem-me dormir que tenho fome
e sede e sono,
o meu corpo bebe e come
dor e abandono.

Já tenho fato,
metam-no na caixa,
não esqueçam de pôr luto
e nos sapatos, graixa.

773
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Ester

Gosto de sentir sua pele
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.

Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer

Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render

Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.

1 143
Carla Bianca

Carla Bianca

Ventos Vulcânicos

Contemplo imagem do espelho, reflexo tão belo como há muito não vislumbrava. Vulto luminoso emoldurado por negros cabelos e morenas faces. Dentes mais brancos, boca rosada e delatora, dançando teu nome sem escorrer um único som.
Imagem confiante que resplandece, bafejada por ventos vulcânicos, advindos da grande erupção da tua presença.

911
Geraldo Carneiro

Geraldo Carneiro

romântica

o poeta se enfastia da lua
e a compara à amada
depois se enfastia da amada
e vice-versa

1 218
Carla Bianca

Carla Bianca

Alheio

Sofro,
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.

897
Olympia Mahu

Olympia Mahu

Espera

A porta se abrirá...
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.

Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.

Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...

Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...

Olimpya Mahu, nov/91

854
Castro Alves

Castro Alves

Exortação

DONZELA BELA, que me inspira à lira.
Um canto santo de fervente amor,
Ao bardo o cardo da tremenda senda
Estanca, arranca-lhe a terrível dor.

O triste existe qual a pedra medra,
Rosa saudosa do gentil jardim,
Qual monge ao longe já no claustro exausto
Qual ampla campa a proteger-lhe o fim.

O triste existe em sofrimento lento,
Vive, revive pra morrer depois...
Morre — assim corre a atribulada estrada
Da vida qurida, soluçando a sós.

Fada encantada, em teu regaço lasso,
Viajante errante, deixa-me pousar;
Lírio ou martírio, abre teu seio a meio,
Estrela bela, vem-me enfim guiar.

Ao mundo imundo, não entrega, nega
Tantos encantos dos amores teus,
Compreende, entende-te a vertigem, virgem,
Somente a mente do poeta e Deus.

Desta alma a palma de risonhos sonhos,
Da mente ardente a inspiração do céu
O vate abate às tuas plantas santas,
Altivo e vivo, sendo escravo teu.

3 228
Castro Alves

Castro Alves

Não Sabes

QUANTA ALTA noite namplidão flutua
Pálida a lua com fatal palor,
Não sabes, virgem, que eu por ti suspiro
E que deliro a suspirar de amor.

Quando no leito entre sutis cortinas
Tu te reclinas indolente aí,
Ai! Tu não sabes que sozinho e triste
Um ser existe que só pensa em ti.

Lírio destalma, sensitiva bela,
És minha estrela, meu viver, meu Deus.
Se olhas — me rio, se sorris — me inspiro,
Choras — deliro por martírios teus.

E tu não sabes deste meu segredo
Ah! tenho medo do teu rir cruel!...
Pois se o desprezo fosse a minha sorte
Bebera a morte neste amargo fel.

Mas dá-me a esprança num olhar quebrado,
Num ai magoado, num sorrir dó céu,
Ver-me-ás dizer-te na febril vertigem
"Não sabes, virgem? Meu futuro é teu"!

3 106
Castro Alves

Castro Alves

Recordações

(RECITATIVO PARA O PIANO)

LEMBRAS-TE ainda dessa noite bela
Em que, donzela, te chegaste a mim?
Lembras-te? Dize... mas não tenhas pejo...
Que vai um beijo pra corar assim?...
........................................

Que linda noite! da montanha o vento
Tênue lamento suspirava então.
E nos teus lábios, no tremor, no medo
Lia o segredo de febril paixão.

Passava a lua pelo azul do espaço
Do teu regaço a namorar o alvor.
Como era terna no seu brando lume.
...Tive ciúme de ver tanto amor ...

Como dum cisne alvinitentes plumas
Iam de brumas a vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando-a a rosa —
Terna, queixosa nos cabelos teus.

Que noite santa!... Sempre o lábio mudo
A dizer tudo, a respirar paixão;
De espaço a espaço um fervoroso beijo,
E após o pejo... e algum frouxo não.

Eu fui a brisa — tu me foste a rosa,
Fui mariposa — tu me foste a luz,
— Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me.
E hoje me oprime do martírio a cruz.

E agora quando da montanha o vento
Geme um lamento de infinito amor,
Busco debalde tescutar as juras...
Não mais venturas... só me resta a dor.

Seria um sonho aquela noite bela?
Dize, donzela... Foi real... bem sei!...
Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento,
Diz-mo o tormento que por ti penei!...

1 885
Castro Alves

Castro Alves

Pesadelo

(POEMETO)

I

O RENDEZ-VOUS

ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.

E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.

Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.

Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.

Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.

Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...

Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...

E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...

II

O ASSASSINO

Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.

Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.

De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —

Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.

Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.

Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...

E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.

Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.

Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.

III

A LOUCA

Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.

Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...

E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.

E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...

............................................

IV

A ENTREVISTA NO TÚMULO

Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.

E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.

E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.

Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.

E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.

Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.

"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...

............................................

V

OS DOIS CADÁVERES

E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...

3 168
Castro Alves

Castro Alves

Fados Contrários

A José Jorge.
NUM ÁLBUM

DIZ À FLOR a borboleta:
"Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz...
Tuas pétalas são asas...
Das nuvens nas tênues gazas,
Daurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes...
Vamos boiar, entre lumes
Desses páramos azúis".

A linda filha dos ares,
Responde a silvestre flor:
"Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor...
Se és do céu a violeta,
Sigo um destino menor.
Buscas o céu — eu a alfombra,
Queres a luz — quero a sombra,
Pedes glória — eu peço amor.

1 897
Castro Alves

Castro Alves

Boa Noite

Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné:
Cétait le rossignol et non pas lalouette,
Dont le chant a frappé ton oreílle inquiète;
Il chante Ia nuit sur les branches de ce granadier
Crois-moi, cher ami, cétait le rossignol.

Shakespeare

Boa noite, Maria! Eu vou,me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde. .
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite! ... E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos!

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti? ... pois foi mentira...
Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-dalva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo dalvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua. . .

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores.
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora. . .
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa noite! — formosa Consuelo.

São Paulo 27 de agosto de 1868

2 022
Castro Alves

Castro Alves

A UMA ESTRANGEIRA

lembrança de uma noite no mar

Sens-tu mon coeur, comme tl palpite?
Le tien comme il battait gaiement!
Je men vais pourtant, ma petite,
Bien loin, bien vite,
Toujours taimant.
(Chanson)

Inês! nas terras distantes,
Aonde vives talvez,
Inda lembram-te os instantes
Daquela noite divina?...
Estrangeira, peregrina,
Quem sabes? — Lembras-te, Inês?

Branda noite! A noite imensa
Não era um ninho? — Talvez!...
Do Atlântico a vaga extensa
Não era um berço? — Oh! Se o era...
Berço e ninho... ai, primavera!
O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...
Era de febre? Talvez...
Eu pegava-te as mãos frias
Pra aquentá-las em meus beijos...
Oh! palidez! Oh! desejos!
Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;
Eram saudades?... Talvez!
Nossos beijos estalavam
Como estala a castanhola...
Lembras-te acaso, espanhola?
Acaso lembras-te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam. . .
Seria vida? — Talvez!
E meus prantos te diziam:
"Tu levas minhalma, ó filha,
Nas rendas desta mantilha...
Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda
Tinhas no seio. . . — Talvez!
De Buenos Aires a linda,
Volvendo aos lares, trazia
As rosas de Andaluzia
Nas lisas faces de Inês!

E volvia a Americana
Do Plata às vagas... Talvez?
E a brisa amorosa, insana
Misturava os meus cabelos
Aos cachos escuros, belos,
Aos negros cachos de Inês!

As estrelas acordavam
Do fundo do mar... Talvez!
Na proa as ondas cantavam,
E a serenata divina
Tu, com a ponta da botina,
Marcavas no chão... Inês!

Não era cumplicidade
Do céu, dos mares? Talvez!
Dir-se-ia que a imensidade
— Conspiradora mimosa —
Dizia à vaga amorosa:
"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,
Um véu de noiva... talvez,
Da lua o raio tremente
Te enchia de casto brilho...
E a rastos no tombadilho
Caía a teus pés... Inês!

E essa noite delirante
Pudeste esquecer? — TaIvez...
Ou talvez que neste instante,
Lembrando-te inda saudosa,
Suspires, moça formosa!...
Talvez te lembres... Inês!

2 426
Castro Alves

Castro Alves

O Canto de Bug Jargal

(Traduzido de V. Hugo)
Por que foges de mim? Por que, Maria?
E gelas-te de medo, se me escutas?
Ah! sou bem formidável na verdade,
Sei ter amor, ter dores e ter cantos!
Quando, através das palmas dos coqueiros
Tua forma desliza aérea e pura,
Ó Maria, meus olhos se deslumbram,
Julgo ver um espírito que passa.
E se escuto os acentos encantados,
Que em melodia escapam de teus lábios,
Meu coração palpita em meu ouvido
Misturando um queixoso murmurio
De tua voz à lânguida harmonia.
Ai! tua voz é mais doce do que o canto
Das aves que no céu vibram as asas,
E que vem no horizonte lá da pátria.
Da pátria onde era rei, onde era livre!
Rei e livre, Maria! e esqueceria
Tudo por ti... esqueceria tudo
— A família, o dever, reino e vingança
Sim, até a vingança! ... ainda que cedo
Tenha enfim de colher este acre fruto,
Acre e doce que tarde amadurece.

...................................................................

Ó Maria, pareces a palmeira
Bela, esvelta, embalada pelas auras.
E te miras no olhar de teu amante
Como a palmeira nágua transparente.
Porém ... sabes? Às vezes há no fundo
Do deserto o uragã que tem ciúmes
Da fonte amada... e arroja-se e galopa.
O ar e a areia misturando turvos
Sob o vôo pesado de suas asas.
Num turbilhão de fogo, árvore e fonte
Envolve... e seca a límpida vertente,
Sente a palmeira a um hálito de morte
Crespar-se o verde circlo da folhagem,
Que tinha a majestade de uma croa
E a graça de uma solta cabeleira.

...................................................................

Oh! treme, branca filha de Espanhola,
Treme, breve talvez tenhas em torno
O uragã e o deserto. Então, Maria,
Lamentarás o amor que hoje pudera
Te conduzir a mim, bem como o kata
— Da salvação o pássaro ditoso —
Através das areias africanas
Guia o viajante lânguido à cisterna.
E por que enjeitas meu amor? Escuta:
Eu sou rei, minha fronte se levanta
Sobre as frontes de todos. Ó Maria,
Eu sei que és branca e eu negro, mas precisa
O dia unir-se à noite feia, escura,
Para criar as tardes e as auroras,
Mais belas do que a luz, mais do que as trevas!

1 669
Castro Alves

Castro Alves

MURMÚRIOS DA TARDE

Êcoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée,
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux;
Ce soir, tout va fleurir: limmortelle nature
Se remplit de parfums, damour et de murmure,
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.

A. de Musset.

Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
Garret.

Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.

Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirclo douro,
Do céu azul na profundeza escura.

Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.

Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!

"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio. . . "
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"

E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.

Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto! ...

E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minhalma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentfi Maria!..."

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Castro Alves

Castro Alves

O HÓSPEDE

Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga

Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...

"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.

"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.

"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!

"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.

"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.

"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!

"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.

"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?

"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...

"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?

"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...

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Castro Alves

Castro Alves

O Gondoleiro do Amor

BARCAROLA

DAMA NEGRA

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!? ...

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

Recife, janeiro de 1867.

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