Vida

Poemas neste tema

Renato Castelo Branco

Renato Castelo Branco

Retorno

Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

1 639
Nana Corrêa de Lima

Nana Corrêa de Lima

Andarilho

Andarilho

Apenas dois pés
verdes de vivência.
Numa ânsia infantil
de andar sempre mais rápido.

843
Moranno Portela

Moranno Portela

Maturidade

Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.

Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.

Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.

904
Ieda Estergilda

Ieda Estergilda

Apresentação

Como viva, aos vivos me apresento:
visível aos olhos, sensível ao tato.
Todos concordam, é a viva
diferente só dos animais, plantas e pedras
a quem chamo seres de outras espécies.
A quem falo? Ao vivo.
Quem me responde igual? O vivo.
Qualquer som ou movimento revelam
minha condição
até a morte me denunciará:
era a viva.

841
Francisco Tribuzi

Francisco Tribuzi

Sina

A gente grita, corre, sufoca e morre.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.

885
Ieda Estergilda

Ieda Estergilda

Brincadeira

O ovo alvo, calvo, ainda na galinha
nada sabia do exterior, se com ou sem dor.
Pinto em formação, não tinha idéia da concepção
do amor em questão
um ovo sem as implicações do ser ou não ser
cozido ou frito
um ovo só, um ovo O
que já cansado de não ser
pôs-se.

955
Cândido Rolim

Cândido Rolim

Resíduos

a lágrima é um ápice
a réstia um âmbito

a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda

o beijo é uma núpcia
efêmera

919
Yolandino Maia

Yolandino Maia

Haicai

Simplicidade

Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.

No teatro

Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha

764
Waldemar Zweiter

Waldemar Zweiter

Vida

A luz do sol
é forte
e brilhante
como a vida
Porém, cuidado:
pode apagar-se
com o passar de
uma simples nuvem.

752
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Fim, de Noite

Copos cheios.
Garrafas nem tanto
Mesas?
Por todos os cantos.
Não faz sentido
O seu espanto...

É noite
O tempo passa
A fumaça sobe
Pessoas falam
Outras escutam
A música

Não há nada
De mal nisso
Escolha a sua dose
A vida continua assim
Começo, meio
E fim.

952
Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto

3 X 4

entro na fotografia
como quem do mundo
se homizia.

sem livrar o flagrante.

(instantâneo eu sei que sou
neste mundo lambe-lambe).

1 035
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Tu me aprontas cada uma

Tu me aprontas cada uma...

Vida,
minha vida,
tu me aprontas cada uma...
Já não sei se sou
que te faço acontecer
ou se és tu que
de repente,
do nada,
com novas cartografias,
novos acontecimentos,
me fazes acontecer neles.

1 314
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

MaracuJá!

Subitamente olho para cima e Vejo:
Pendes todo verde e perfeitamente esférico sobre minha cabeça
Amadureces e transformas
Carbono morto em células vivas.

Calmante
Verdeamarelo
Passiflora
Flor da paixão.

Quase na barca do Mordomia. 9/9/1996 AD.

870
Raul Seixas

Raul Seixas

Apesar dos Pesares

Vou gostar de você
Como gosto do mar
Mergulhar em você
Me perder
Me encontrar

Ai, como é linda essa vida
Apesar da miséria
Apesar dessa fome
Aquele beijo com gosto de coca
O meu coração bate e toca
Vale a pena viver.

1 896
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Ode à Cama

Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.

Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.

1 112
Ona Gaia

Ona Gaia

Água

Água
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.

873
Olinda Marques de Azevedo

Olinda Marques de Azevedo

Primavera

Profusão de flores
desfile de primavera.
Também passa um féretro.

846
Ona Gaia

Ona Gaia

A vida alada borboleta

A vida alada borboleta
vive dourada no vento
alisa e cheira a rosa e o tempo
· descuidada e breve
· me leve.

986
Nilto Maciel

Nilto Maciel

Possessão

Nada é meu,

nem a vida,

que é minha.

745
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Reflexão No 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
1 053
Mônica Banderas

Mônica Banderas

Apelo

A voz do mundo é oca

como é oca a voz do útero

na hora do parto.

913
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Mãos

As mãos não falam
por si,
mas pelos gestos;

mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.

As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,

aridez de sentimentos
a povoar o mundo

Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.

942
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Trilogia

nascimento

— nasceu nas horas
que precedem
a fome

vida

— cresceu com fome

morte

— morreu de fome

756
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

A voz do louco II

Não sou louco não,
mas assumo
o gosto amargo da vida.

Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.

Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.

847