Tristeza e Melancolia
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
DOBRE
Peguei no meu coração
E pu‑lo na minha mão,
Olhei‑o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei‑o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
E pu‑lo na minha mão,
Olhei‑o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei‑o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
2 087
Fernando Pessoa
Deixa que um momento pense
Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
1 323
Fernando Pessoa
Ao teu seio irei beber
Ao teu seio irei beber
O conforto de sofrer.
O conforto de sofrer.
1 272
Fernando Pessoa
Lágrimas, chorar-vos-ei
Lágrimas, chorar-vos-ei
E a vida em vós, pouco a pouco,
E chorando ficarei
Num silêncio d'alma louco.
E a vida em vós, pouco a pouco,
E chorando ficarei
Num silêncio d'alma louco.
1 958
Fernando Pessoa
MEANINGLESS LlNES
I became good, and was despised.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
1 304
Fernando Pessoa
Ah as horas indecisas
Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 307
Fernando Pessoa
Diferentemente o mesmo
Diferentemente o mesmo
Ligado a um meu passado estranho e vago
Por um negrume e continuar de dor.
Ligado a um meu passado estranho e vago
Por um negrume e continuar de dor.
1 254
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [2]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
1 330
Fernando Pessoa
O som contínuo da chuva
O som contínuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
1 474
Fernando Pessoa
Tens vontade de comprar
Tens vontade de comprar
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.
1 151
Fernando Pessoa
Olhos tristes, grandes, pretos,
Olhos tristes, grandes, pretos,
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.
1 391
Fernando Pessoa
O coração é pequeno,
O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...
1 409
Fernando Pessoa
Fica o coração pesado
Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
1 452
Fernando Pessoa
Manjerico, manjerico,
Manjerico, manjerico,
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.
1 501
Fernando Pessoa
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
1 395
Fernando Pessoa
Toda a noite ouvi os cães
Toda a noite ouvi os cães
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
1 287
Fernando Pessoa
Dá-me um sorriso daqueles
Dá-me um sorriso daqueles
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.
953
Fernando Pessoa
Sorrow came and wept
Sorrow came and wept
By my side.
Slow and light she stept
As I walked towards God
By my side.
But I can never find that Great Abode,
And there is darkness in Descried.
By my side.
Slow and light she stept
As I walked towards God
By my side.
But I can never find that Great Abode,
And there is darkness in Descried.
1 207
Fernando Pessoa
Morena dos olhos baços
Morena dos olhos baços
Velados de não sei quê,
No mundo há falta de braços
Para o que o teu olhar vê.
Velados de não sei quê,
No mundo há falta de braços
Para o que o teu olhar vê.
1 929
Fernando Pessoa
NOCTURNO DE DIA
NOCTURNO DE DIA
...Não: o que tenho é sono.
O quê? Tanto cansaço por causa das responsabilidades,
Tanta amargura por causa de talvez se não ser célebre
Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade...
O que tenho é sono, meu velho, sono...
Deixem-me ao menos ter sono; quem sabe que mais terei?
...Não: o que tenho é sono.
O quê? Tanto cansaço por causa das responsabilidades,
Tanta amargura por causa de talvez se não ser célebre
Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade...
O que tenho é sono, meu velho, sono...
Deixem-me ao menos ter sono; quem sabe que mais terei?
1 377
Fernando Pessoa
Que fútil toda essa tristeza
Que fútil toda essa tristeza
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
898
Fernando Pessoa
O meu coração quebrou-se
O meu coração quebrou-se
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se...
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se...
1 474
Fernando Pessoa
Sinto esse frio coração eu mesmo
Sinto esse frio coração eu mesmo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
1 538
Fernando Pessoa
Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.
Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.
Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
1 524
Português
English
Español