Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Tempo Dividido

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia

Pela sua mão levou-me o dia.
Aérea e dispersa eu dançava
Enquanto a luz azul se dividia.

Escuros e longos eram
Os corredores vazios
O chão brilhava e dormia.

E pela sua mão levou-me o dia.

O mapa na parede desenhava
Verde e cor-de-rosa a geografia:
Aérea e dispersa eu vivia
No colo das viagens que inventava.

Outro rosto nascia
No interior das horas
Prisioneiro e velado
Por incertas demoras.

Das páginas dos livros escorriam
Antigas e solenes histórias
Como um rio meu coração descia
O curso das memórias.

E pela sua mão levou-me o dia.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Apaixonada

Por um instante detém, ó noite, o gesto.
Suspende o cálice do seu rosto
Antes que ela o entorne
Na vida sem memória.

Mas já ela inclina o seu pescoço
Como uma onda que se vai quebrar
Sem que nenhum intervalo detivesse o tempo.
Espadas de morte bebem no seu peito.
Jaz branca fria e nua no seu leito.
Ninguém a deteve. Ficou a ressoar
Interminavelmente a sua queixa
Na desordem do ar.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tempo

Tempo
Tempo sem amor e sem demora
Que de mim me despe pelos caminhos fora
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Assim Em Suas Mãos Nos Troca a Vida

E quem já nem em sonhos conhecemos
Longe se perde nos confins extremos
Da grande madrugada prometida

Assim em suas mãos nos troca a vida.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Liberdade Que Dos Deuses Eu Esperava

Quebrou-se. As rosas que eu colhia,
Transparentes no tempo luminoso,
Morreram com o tempo que as abria.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando Brilhou a Aurora, Dissolveram-Se

Entre a luz as florestas encantadas.
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.

E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.

Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.

Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.

Era um lago entre calmos arvoredos.

Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.

E ao encontro da noite caminhei.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim

Alguém diz:
«Aqui antigamente houve roseiras» —
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.
1 200
Adélia Prado

Adélia Prado

Tentação Em Maio

Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
Do que é mesmo que falávamos?
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.
1 254
Adélia Prado

Adélia Prado

Aura

Em maio a tarde não arde
em maio a tarde não dura
em maio a tarde fulgura.
1 483
Adélia Prado

Adélia Prado

Mulher Ao Cair da Tarde

Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
1 463
Adélia Prado

Adélia Prado

A Vida Eterna

Meio século.
O peso desta palavra ia me deixar de cama.
Não vai mais. Aprendo sabedorias.
Os alquimistas não são contraventores,
cândidos, sim, às vezes, como os santos,
acreditando em pedra, em peixe de sonho,
em sinal escrito no céu.
Onde está Deus?
Abril renasce é do cosmos,
no mais perfeito silêncio.
É dentro e fora de mim.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Fragmento

Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.
846
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Moinho

A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
1 620
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Qualquer

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.
1 160
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ontem

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
côr ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim.
que por minha vez
escrevo, dissipo.
1 336
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Poeta Escolhe Seu Túmulo

Onde foi Tróia,
onde foi Helena,
onde a erva cresce,
onde te despi,

onde pastam coelhos
a roer o tempo,
e um rio molha
roupas largadas,

onde houve, não
há mais agora
o ramo inclinado,

eu me sinto bem
e aí me sepulto
para sempre e um dia.
1 540
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cota Zero

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?
2 045
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fora de Hora

Entrega fora de hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora,
você apressar a hora,
você aceitar a hora
não madurada
ou demasiado madura?

O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar a escada.
1 284
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Duração

Fortuna, ó Glória, se evapora,
e a glória se esvanece, Glória.
Não assim o cisco da hora
— nossa —, que desdenhou a História.

Há de restar, Glória — ossatura
desfeita embora em linha espúria —
de modo, Glória, que a criatura,
morta, de amor ostente a fúria.
1 056
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Abgar Renault

A contagem de tempo
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
1 358
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sussurro

Se não erro
ao decifrar a voz dos vegetais,
eis que suspira a muda de pau-ferro
no silêncio do ser:
— Eu sei que fui plantada
com música, discurso e tudo mais,
para a alguém, no futuro, oferecer
sem discurso e sem música o prazer
da derrubada.
1 154
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Inscrição Tumular

O instante de corola o instante de vida
o instante de sentimento o instante de conclusão
o instante de memória
e muitos outros instantes sem razão e sem verso.
1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Perguntas Em Forma de Cavalo-Marinho

Que metro serve
para medir-nos?
Que forma é nossa
e que conteúdo?

Contemos algo?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?

A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?

(Nunca se finda
nem se criara.
Mistério é o tempo,
inigualável.)
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