Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Dedicatória

Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha

Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.
653
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Onda

A O N D A
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

1 728
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Paulo Gomide

- À poesia é o teu vôo
Repletando a tua alma de alegrias,
Maravilhamentos e espantos.
Atrás de ti caminha um anjo
— “Todo anjo é terrível!” —
E este te vai guiando para Deus
Pelo caminho mais difícil.
1 191
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Algum vibrar

A borboleta parda
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
916
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Pontos de vista

Quando Nero queria ver
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.

Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
1 161
Marina Colasanti

Marina Colasanti

De encrespado dorso

Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.


Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 017
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Uma maçã

Há uma maçã pousada
no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.
1 163
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Fino sangue

Gosto de poema
que fala de ovo
frito latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.
1 474
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Na tumba da senhora Dai

Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 011
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Pitigrilli proibido

O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
 a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.


Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 016
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Outras palavras

Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que nascem com
aquilo que dizem
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.
1 226
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Diálogo Com Os Mortos

Começo a conversar com os mortos amiúde
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
1 026
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Cão Poeta

Já urinei em várias partes do mundo:
nas ruínas gregas do palácio de Agamenon,
na ilha Comacina – lá em Como,
em Machu Pichu.
Urinava como um cão
marcando o território.
Às vezes, não urinava, escrevia.
Escrevia, não em árvores e pedras
como ostensivo turista.
Escrevia
como um cão
marcando na história alheia
– meu imponderável território.
1 095
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Se Eu Dissesse

Se eu dissesse que o crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
1 125
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Com Dante

Neste Castelo de Gargonza
Dante esteve um pouco antes de mim.
Escapava de inimigos (os gibelinos).
Pisava nestas pedras
ouvia o mesmo sino que na torre ainda há pouco batia.
Isto foi há oito séculos.
O que não é nada
diante das pedras
– e da poesia.
1 202
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Significados

Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
1 048
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Iluminando

Que fulgurante a vida face ao entardecer.
Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.
1 217
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Linguística

Diz o linguista:
– “a palavra cão não morde”.
Morde.
Saí com a perna sangrando após a aula.
Diz o linguista
– “a palavra cão não late”.
Late
e não me deixa dormir
com seus latidos.
Diz o linguista
“a palavra cão não come”.
Come
e se alimenta de minha carne.
1 163
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Ninfa

Diz um crítico
que desde o tempo de Alexander Pope
as ninfas partiram
sem deixar seu endereço.
Se assim é
como explicar que junto àquela fonte
por trás daquele ramo, ao meu encontro
vem sorrindo a mulher que amo?
1 005
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Enquete

– O que estás lendo?
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
1 013
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Unhas No Papel

Às vezes, as unhas dos pés, em devaneio,
e as da mão, silente, corto,
entre um poema e outro de permeio.
Corto unhas quando escrevo,
corto inconsciente
e aflito corto.
Quando me ergo da mesa
deixo no chão vestígios
do que podei.
E no papel,
a ilusão que semeei.
1 017
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Villa Serbelloni, Peônias

Estas peônias floriram
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
838
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Que Sei Dos Etruscos

Quase tudo o que se sabe dos etruscos
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
519
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XII

Para quem sorri o arroz
com infinitos dentes brancos?

Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?

Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?

Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
1 054