Corpo

Poemas neste tema

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Fina, a Doce Ferida...

A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.

Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!

Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
1 139
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Desde que

Desde que operou o nariz
essa mulher joga a cabeça para trás
e ri.
Livrou-se do perfil
que era dela e
das outras mulheres da família
apagou
do seu espelho
o espelho da sua mãe.
De leve rosto
inaugura sua dinastia
e seu passado
sem lembrar que
no escuro silêncio do sangue
sorri
vingativo
o dna.
1 053
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Pitigrilli proibido

O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
 a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.


Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 016
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PARA FOTO DE ANDRÉS SERRANO

O corpo do morto não sangra
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
1 015
Marina Colasanti

Marina Colasanti

TARDE E CASA VAZIA

O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
925
Marina Colasanti

Marina Colasanti

SIM, PODE-SE

Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
973
Marina Colasanti

Marina Colasanti

INSTRUMENTO SEM SOM

Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva 
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 174
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PROTESI

Tante invasioni
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi
ci saró abituata
e scorderó
che con quell' oro
in bocca
non sono nata.
1 005
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Como é Gentil

Os pelos da tua mão
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
1 309
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Coisas da Primavera

O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
1 090
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Cão Poeta

Já urinei em várias partes do mundo:
nas ruínas gregas do palácio de Agamenon,
na ilha Comacina – lá em Como,
em Machu Pichu.
Urinava como um cão
marcando o território.
Às vezes, não urinava, escrevia.
Escrevia, não em árvores e pedras
como ostensivo turista.
Escrevia
como um cão
marcando na história alheia
– meu imponderável território.
1 094
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Velhice Erótica

Estou vivendo a glória de meu sexo
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
1 163
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

A Maravilha do Mundo

Quem disse
que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?
993
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Amor de Ostra

Nunca soube como as ostras amam.
Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.
1 253
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXVI

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
962
José Saramago

José Saramago

Medusas

Tentaculada e branca, morta já,
A medusa apodrece,
Veio na onda maior que se espraiou.
Na areia, onde ficou,
A gelatinosa massa fosforesce.

O orgasmo funde dois corpos ali perto,
E do comum suor,
Do brilho fosco que da pele lhes irradia,
A noite faz, recria,
Medusa viva, renovado amor.
1 019
José Saramago

José Saramago

Sala de Baile

Cubo de luz vermelha onde se agitam,
O corpo não, o vulto recortado,
A cadência tenaz que rasa e foge
A imprecisa linha dos instintos.

Um pouco mais de som ou de alegria,
A ameaça da morte ou da esperança
Como vento salgado em ferida exposta:
Seria o vulto corpo, o corpo dança.
1 023
José Saramago

José Saramago

Fim E Recomeço

Não pode ser luar esta brancura,
Nem aves batem asas sobre o leito,
Onde caem os corpos fatigados:
Será, de mim, o sangue que murmura,
Serão, de ti, as luas do teu peito:
Onde vai o cansaço, renovados.
1 218
José Saramago

José Saramago

Outra Vez Frutos, Rosas Outra Vez

Mas se estas mãos em concha não moldarem
As rosas que levantas no teu seio,
Se a boca não morder na tua boca
O mel da flor, em fruto transformado,
Caiam as mãos, os lábiso se me preguem,
Que miragens de vida não as quero
Deste lado de cá do teu pomar,
Diante do jardim todo murado.
1 361
José Saramago

José Saramago

Viajo No Teu Corpo

Viajo no teu corpo. Só teu corpo?
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dele a alma nua
Não me desse do corpo a certa imagem.
1 254
José Saramago

José Saramago

Música

Grave som de alegria, o violoncelo
Passa lento na alma, em ela freme:
Murmuremos então ao corpo duplo,
Às bocas e às mãos, e aos desmaios,
Às secretas pesquisas que não temem
Nem vergonha, nem dor, nem a verdade:
É isto amor, um arco de alegria
Sobre a corda retensa do orgasmo.
1 131
José Saramago

José Saramago

Aspa

Sobre o leito desmanchado te derrubo,
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo:
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
1 138
José Saramago

José Saramago

Branco o Teu Peito

Branco o teu peito, ou sob a pele doirado?
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem nas dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
1 030
José Saramago

José Saramago

Corpo-Mundo

Que caminhos do teu corpo não conheço,
À sombra de que vales não dormi,
Que montanhas não escalei, que lonjuras
Não abarquei nos olhos dilatados,
Que torrentes não passei, que rios fundos
A nudez do meu corpo não transpôs,
Que praias perfumadas não pisei,
Que selvas e jardins, que descampados?
1 270