Arte

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Volume

Um volume
que adere ao espaço nulo
mais alto do que os ramos
retrai-se dilata-se percorre-se
numa chama solitária breve
quase o fascínio da sombra quase a leve
delicadeza de uma íris.
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Saborear a Alteridade Na Múltipla

Saborear a alteridade na múltipla
divagação de formas silenciosas.
Textura plural a partir da ruptura
donde nasce o movimento inicial.
569
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Um Lugar Para As Hordas

É um lugar para as hordas
para os cavalos     Para algo
que se designa aqui
na evidência

Contanto que o ardor os nomeie
essa paixão árida que não canta
mas vibra seca no papel incerta

Quem detém os olhos? Quem vê o curso
do vento nas palavras?
E as flechas que por vezes se desfazem?
947
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Conta As Letras

O que conta as letras
esquece o viscoso e o obscuro
não vai mais longe que
o dicionário

O que ouve a música das sílabas
não se perde no prazer
a fugitiva luz está presente
em algo simples inacessível

Tocaste o lábio desse monstro
abre-se a ferida de uma estátua
um mugido ondula
e é ele próprio o sopro da brancura
972
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Com o Instrumento Frágil

Com o instrumento frágil
tudo se ordenaria
concêntrico

Perímetro de luzes
à volta do olhar         Crescem
num início
e disseminam-se

Irisações irrompem
de brisas e de estrume
até à corda nula que apaga o instrumento
969
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Verde a Lentidão

Verde        A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia

Nuvem cintilante        ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre

É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
1 087
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Dizer a Outra Face Num Vislumbre

Como dizer a outra face num vislumbre
uma figura respirando
na transparência
e a face transposta no suplício ou no prazer
das linhas
no branco     o novo solo
Lê-las ou pisá-las com o estrume
tremendo no temor de estarem vivas
com raízes inextricáveis e vivazes
520
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Fogo Sob Os Passos Vibra Verde

O fogo sob os passos vibra verde
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
1 081
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Trave do Sol Pisada Entre Ramos

A trave do sol pisada entre ramos
A noite perto respira
Fragmentos de luz formam um pólen
sob os passos em branco
O sopro imóvel nas letras
sobre o solo
imóvel a palavra
o espaço alto de árvores negras
a nitidez da página     o vento
que limpa e desloca estas palavras
1 130
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nervuras Nítidas

Nervuras Nítidas
Tal é a língua que não soçobra quando
se perde noutro sulco branco
Vertical e verde
não já aqui ou quando
mas
transposta exactamente
noutro espaço inflectido
onde a branco e negro
outro objecto se refaz numa outra língua
759
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Decisão Inteira

A decisão inteira
mas imprevista a cada espaço
Pleno vazio vazio sempre

A coerência de um todo incoerente
entre uma rede opaca
atravessada por uma luz branca e lívida
E algo único sobre o branco
e no branco que respira
nulo e pleno
a trama solta cerrada
na obscura evidência dos vocábulos
934
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada Se Transcreve Quando

Nada se transcreve quando
simplesmente se passa
num lugar Mas tudo vai transpor-se num silêncio de
passos sobre o chão feliz ou uma terra a descer em
cada linha
e cai no papel em chão deserto
ou um eco de um princípio
inacessível

Escrever é perder     perder para respirar
489
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Anel do Insecto Luxúria Mínima

O anel do insecto     luxúria mínima

do poema     os dentes descerrados à frescura do vento

a figura viva     em fragmentos     na fragrância verde

as sílabas     o sol das sílabas sob as sílabas

a pedra escrita

entre a pedra e o silêncio

do nascimento

último

água     ó minha mão na terra
1 005
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

79. a Abstracta Figura Concretiza-Se

79
A abstracta figura concretiza-se
em pedras e pedras sucessivas
num sincopado fluxo de água e de detritos.

Vejam a lâmpada negra da aranha
que entre paredes busca a sintaxe inversa
busquem a pedra essencial a pedra.

Mas o esforço é abandono rouco
às pulsões da terra branca desta escrita
que é animal para ser animal livre.
1 014
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

76. Linha E Sóbria, Desesperada Pedra

76
Linha e sóbria, desesperada pedra
contida em sua linha de água e dança
vertida na palavra que não dança.

Ela a retida, livre — na cidade —
desocupada na página ou no lancil
lançada à vertigem viva de uma escrita.

Por ela a terra roda a vila pesa
a pedra é pedra e sol e água e
entre o lugar e a ausência o nome é branco.
491
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

75. a Pedra, o Corpo E a Escrita

75
A pedra, o corpo e a escrita
das árvores: cinza cinza que arde
quando o fogo da escrita arde sobre

o mineral negro, a ponta escura escreve
talvez uma laranja lancinante
talvez a simples mesa do pão branco.

Seja qual for o fim não há o fim
da aventura dessa pedra escrita
nesse escrever da pedra cinza negra.
1 170
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

50. o Claro Rumor Do

50
O claro rumor do
anúncio de altitude a forma
do fragmento (de)

Que a mão repercutindo
a mão e a mão de
novo ilumine o espaço deste espaço.

Que terra em terra da palavra
fragmente o frio o bloco
branco
e a forma seja a mão da forma.
915
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

53. Lâmina — Dirá, E Escrita

53
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.

E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.

E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
987
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

51. Pedaço Inteiro do Frio Verde

51
Pedaço inteiro do frio verde
e mão do gelo iluminado
quebre
a unidade de pedra ou harmonia.

Beleza brusca no azul opaco
negação do acaso negando o acaso
por uma coisa graciosa
corça perdida no bosque das palavras.

No preciso atalho mas tão simples
como a clareza do pulso
quebrando a pedra do nome o nome-pedra.
953
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

13. Palavra, Planta Activa, Trepadeira

13
Palavra, planta activa, trepadeira
que se entrelaça no muro da imagem — lâmina
lâmina de laços na verdura.

Ó árvore ó palavra ó árvore
no jardim porque é jardim folhagem espaço
e o melro negro é duplo em duplos saltos.

É esta a aragem da palavra e é este o rosto
da figura
palavra que aviva o verde da folhagem.
1 100
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

19. o Desenlace (Aqui) Petrificado

19
O desenlace (aqui) petrificado
isto de istmo, era de hera
a qualidade em resultado absoluto

aqui reverdecendo — o jorro e a perna
na só imagem que unifica a frase
no extremo sopro da velocidade.

— Verbo de pedra em profecia, sem
a pedra — substância, no não do sopro
que ilumina a terra no interior da terra.
1 055
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

6. Aquela Linha Ou Esta ——

6
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.

Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.

Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
934
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

12. Por Ela, o Qual: Por Ela

12
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.

Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.

Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
1 022
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ponto — Traço

Um ponto negro — um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
975