Animais e Natureza
Poemas neste tema
Orides Fontela
Cisne
Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?
Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.
E
resta
não o cisne: a
palavra
- a palavra mesmo
cisne.
do livro Alba (1983)
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?
Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.
E
resta
não o cisne: a
palavra
- a palavra mesmo
cisne.
do livro Alba (1983)
1 736
Pedro Xisto
abro após as sombras
abro após as sombras
de par em par as vidraças:
alçam vôo as pombas
808
Pedro Xisto
ao lado da lua
ao lado da lua
neste pinheiro vetusto
uma ave noturna
861
Bronisława Wajs
Historinha cigana
Ela molda uma andorinha
sob minha janela o ninho,
andorinha negra
como a Ciganinha.
Ela nos apontou bons caminhos.
Ela viveu em estábulos e casas.
Ela morreu num pântano.
710
Isabel Câmara
ninguém morre ao travesseiro
ninguém morre ao travesseiro
só os sonhos
isto quando há travesseiro
ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...
essas ervas que socorrem
a Santa Mãe Natureza
só os sonhos
isto quando há travesseiro
ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...
essas ervas que socorrem
a Santa Mãe Natureza
689
Xue Tao
Lavadas em orvalho notas puras
Lavadas em orvalho notas puras
levadas pelo vento folhas juntas
somam chilro mais chilro em uníssono
e cada qual a um galho solitária
508
Erich Fried
Falta de humor
Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
805
Pedro Oom
Idade sem razão
Os animais
cuja vivência
são as visitas
que todos temos feito
às girafas
ou o crocodilo
bastam para romper
a fascinação
idade
cartesiana
tanto
do direito
como do avesso
1 062
Luís Filipe Castro Mendes
Bichos da terra tão pequenos
Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
976
Luís Filipe Castro Mendes
Os Argonautas
Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:
só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
1 369
Sebastião Uchoa Leite
Numa Incerta Noite
Calculo as ruas que atravesso
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla
1991
Poema integrante da série Incertezas.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla
1991
Poema integrante da série Incertezas.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 236
Marcus Accioly
21 [Quase uma cobra com pés
Quase uma cobra com pés
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
1 211
Marcus Accioly
4 [Antes de pintar as pintas
Antes de pintar as pintas
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
1 368
Neide Archanjo
A gota
A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 081
Max Martins
Uma Tela de Dina Oliveira
Meu olho
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 459
Afrânio Peixoto
Crítica à Criação
O boi come a grama
E nós o boi. Deus não teve
Imaginação.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
E nós o boi. Deus não teve
Imaginação.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 272
Capinan
Bandeira de Brasil
Terra
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.
Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.
Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.
Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.
In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.
Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.
Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.
Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.
In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
1 340
Zuca Sardan
Veludosa Cantilena
"E você
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 434
Paulo Leminski
KAWÁSU
"Kawásu" é "sapo", em japonês.
Imagino ter relação original com
"kawa", "rio". O batráquio é o animal
totêmico do haikai, desde aquele
memorável momento em que Mestre
Bashô flagrou que, quando um sapo
"tobikômu" ("salta-entra") no velho
tanque, o som da água.
Imagino ter relação original com
"kawa", "rio". O batráquio é o animal
totêmico do haikai, desde aquele
memorável momento em que Mestre
Bashô flagrou que, quando um sapo
"tobikômu" ("salta-entra") no velho
tanque, o som da água.
1 767
Edgar Allan Poe
A Campaign Song
See the White Eagle soaring aloft to the sky,
Wakening the broad welkin with his loud battle cry;
Then here's the White Eagle, full daring is he,
As he sails on his pinions o'er valley and sea.
(probably written early in 1844)
Wakening the broad welkin with his loud battle cry;
Then here's the White Eagle, full daring is he,
As he sails on his pinions o'er valley and sea.
(probably written early in 1844)
1 217
Luís Vianna
COBRAS
Que interessante
Esta criatura extressante.
Por uns cultuada,
Por outros odiada.
Bicho comprido, fino,
Sem braço nem pé;
Sobe em árvore, anda e nada, pois é,
Este interessante animal roliço.
Interessante,
Ouve sem ouvido
O bastante
Para te deixar oprimido.
Com dois pênis e um pulmão,
Deve cansar muito,
Mas no sexo não.
20/06/2001
Esta criatura extressante.
Por uns cultuada,
Por outros odiada.
Bicho comprido, fino,
Sem braço nem pé;
Sobe em árvore, anda e nada, pois é,
Este interessante animal roliço.
Interessante,
Ouve sem ouvido
O bastante
Para te deixar oprimido.
Com dois pênis e um pulmão,
Deve cansar muito,
Mas no sexo não.
20/06/2001
836
Manuel Machado
Verão
Frutíferos
carregados.
Dourados
trigais...
Cristais
enfumaçados.
Queimados
arbusto
Sombria,
seca,
Vento do oriente
Paleta
completa:
verão.
carregados.
Dourados
trigais...
Cristais
enfumaçados.
Queimados
arbusto
Sombria,
seca,
Vento do oriente
Paleta
completa:
verão.
995
Carlos Seabra
Haicais
areia quente
pés descalços
corrida para o mar
espuma do mar
adensa o vôo das
gaivotas no ar
rochedo no mar
barco afundado
olhos a chorar
estrela do mar
abraça a areia
para a beijar
as ondas beijam
os lábios da praia -
bocas do mar
musa sereia -
marinheiro bêbado
ouve baleia
pés descalços
corrida para o mar
espuma do mar
adensa o vôo das
gaivotas no ar
rochedo no mar
barco afundado
olhos a chorar
estrela do mar
abraça a areia
para a beijar
as ondas beijam
os lábios da praia -
bocas do mar
musa sereia -
marinheiro bêbado
ouve baleia
1 457
Yeda Prates Bernis
Hai-kais
Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.
Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.
Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.
Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.
Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.
No porta-retrato
um tempo respira,
morto.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.
Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.
Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.
Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.
Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.
No porta-retrato
um tempo respira,
morto.
996
Português
English
Español