Angústia

Poemas neste tema

Herberto Helder

Herberto Helder

Saio Hoje Ao Mundo

saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
1 059
Herberto Helder

Herberto Helder

Dos Trabalhos do Mundo Corrompida

dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
1 078
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Duramente aprendemos

Duramente aprendemos.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
597
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

A noite toda a selva

A noite toda a selva
dissolvendo-se em sândalo
e esquecimento.

Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.

Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.
530
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Os inquisidores silêncios

Os inquisidores silêncios
emergem
do mais fundo
como duas lâminas
dilacerando o tempo

Limitando o espaço
só o sonho
resta.
560
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Sagetrieb

Inverno que queres matar-me ao chapadão
encher-me a cabeça de domingos
e alinhar meu olho aos escaparates
desenhados pelo maldito imperador
que abandonou os sorvetes e os 5 sóis
Vais ver se eu não dou cabo te ti primeiro
1 079
Martim Soares

Martim Soares

Meu Coraçom Senhor Atal

Meu coraçom senhor atal
me faz amar de que eu hei
todo quant'eu haver cuidei
des aquel dia em que a vi:
ca sempr'eu dela atendi
desej'e coita, ca nom al.
[...]
312
D. Dinis

D. Dinis

Valer-Vos-Ia, Amig'e

Valer-vos-ia, amig'e [meu bem],
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe daquest'e nom al:
mia madre, que vos há mortal
desamor; e, com este mal,
de morrer nom mi pesa[ria].

Valer-vos-ia, par Deus, meu bem,
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe de vos nom valer:
mia madre, que end'há poder
e vos sabe gram mal querer;
e por en mia morte queria.
622
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Cativ'! E Sempre Cuidarei?

Cativ'! E sempre cuidarei?
E cuido, se Deus mi perdom!
Ar cuido no meu coraçom
que já per cuidar morrerei;
e cuido muit'em mia senhor,
ar cuid'em haver seu amor.
[...]
577
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

POEMA

eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos

973
Renato Rezende

Renato Rezende

Mudo

A linguagem é tudo
para o homem, não há mundo
fora dela, a linguagem
me recobre, e quando forço
a passagem, quando forço
o que em mim diz “não posso
mais”/ caio
fundo
poço
de silêncio murro:

MUDO
1 041
Renato Rezende

Renato Rezende

Ruínas

Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
1 074
Renato Rezende

Renato Rezende

O Bicho

Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.

Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.

No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?

Sou uma alma em sua jaula.


Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
603
Renato Rezende

Renato Rezende

Corte

[ ]

La vraie vie
est absente.

] [

Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?

[EU NÃO VOLTO!]
898
Renato Rezende

Renato Rezende

Olho

De repente,
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
928
Renato Rezende

Renato Rezende

Desprendimentos

...
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
690
Renato Rezende

Renato Rezende

Fim da Trilha

Não faça nada:
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.

Faca
in-su-por-tá-vel.

Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.

– ABRE!
921
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
793
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MEMENTO MORI I

Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.

Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
453
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

TREVA

vazio até o
fundo

crispado na
treva

mais um
día des

liza para
dentro

de um
dos tres

caminhos
sem volta
419
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MEMENTO MORI II

Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,

luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,

luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
780
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

ilha na névoa

cercada pela tempestade que ameaça
          sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
          em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
          a mesma meta
          correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
          é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
          entregue à queda
680
Simone Brantes

Simone Brantes

Lapso

Um homem tira um grito das tripas,
do seu flautim medonho,
enquanto esfrega seu sexo contra a porta
do carro — pau e porra lhe pesando,
terríveis como poderíamos sentir se
por um acaso se tornasse
de um dolorido espanto este lapso:
não saber o que fazer com o que cai
de repente em nossas mãos.
512
Simone Brantes

Simone Brantes

Pastilhas brancas

Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
704