Amor
Poemas neste tema
Flávio Villa-Lobos
Mistério
Uma só palavra tua
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.
843
Gilberto Gil
Domingo no parque
O rei da brincadeira
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
2 047
Gilberto Diener
Rio bagagem
Agreste, agreste canção
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
937
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 301
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
846
Flávio Villa-Lobos
Separação
Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
731
Fabio Valor Caldas
Tudo Que For Pecado
Sinta a minha presença
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.
Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.
Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?
A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.
Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.
A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.
Dentro da sua vida,
Dentro do seu corpo,
E seguiremos juntos, sem destino,
Viveremos milhares de loucuras,
Sem um dia certo para acabar.
Eu quero te conhecer,
Em todos os sentidos.
O que é que te excita?
O que te faz feliz?
Seremos capazes de fazer
Tudo que for proibido,
Tudo que for censurado,
Tudo que for pecado.
Você chegou para
Mudar a minha vida.
Vamos mudar o mundo,
Junto poderemos mudar tudo,
E se não formos nós
Quem mais poderá mudar?
A vida termina
Onde começa o amor,
E o nosso amor
Está no limite de tudo.
Um dia o mundo acaba,
A vida acaba sem razão,
Tudo se destrói com o tempo,
Tudo que for pecado.
Eu gosto de olhar
Para os seus olhos,
E sentir toda a sua presença,
Todo o seu carinho,
Como se fosse um mundo
Para se conquistar.
A vida não teria o mesmo sentido
Sem a tua presença.
747
Flávio Villa-Lobos
Relume
Pedra, sólida rocha
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.
Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.
Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.
Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.
Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.
Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.
Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.
823
Flávio Villa-Lobos
Sobressalto
Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
867
Ana Garrett
Quem se esconde
Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
808
Flávio Villa-Lobos
À Espreita
Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.
Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.
Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.
Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.
Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.
Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.
Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.
Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.
Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.
824
Almeida Garrett
Rosa e Lírio
A rosaÉ formosaPor que lhe chamam — florDamorNão sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
3 752
Francisco Orban
Só o deserto
Só o deserto
meu amor
sabe do meu amor
por você,
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer
Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar nas guelras
sabem
meu amor
sabe do meu amor
por você,
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer
Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar nas guelras
sabem
840
Fernanda dos Santos
Bruços
Caminha o olhar sobre
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
772
Francisco Carvalho
Domingo
É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos
ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos
e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio
O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.
É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos
ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos
e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio
O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.
É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.
1 036
Fernando Pessoa
V - Como se cada beijo
Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
2 988
Francisco Moniz Barreto
Improviso
Ver... e do que se vê logo abrasado,
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
509
Francisco Carvalho
Canção da Oferta
Te ofereço um búzio
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.
Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.
Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.
Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.
Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.
Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.
Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.
Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.
Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.
1 033
Fernando Mendes Vianna
Iniciação
Teu fígado certo
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.
No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.
Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.
Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.
E me adorarás.
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.
No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.
Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.
Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.
E me adorarás.
1 008
Francisco Pereira do Lago Barreto
Soneto
Em cuidados de afeto desvelada,
Clície o Amante adora mais luzido,
e quanto este mais dela distraído,
tanto ela em seu amor mais inflamada.
Ama Endimião a Ninfa mais nevada
em delíquios de amor adormecido
e porque só então correspondido
por isso a mágoa então mais afinada.
Vê Clície desprezados seus amores
perde Endimião no sono a vista, e tino
para gozar da Lua altos favores.
Qualquer se ostenta amante peregrino,
pois apostar finezas com rigores
é fineza a maior de um amor fino.
Clície o Amante adora mais luzido,
e quanto este mais dela distraído,
tanto ela em seu amor mais inflamada.
Ama Endimião a Ninfa mais nevada
em delíquios de amor adormecido
e porque só então correspondido
por isso a mágoa então mais afinada.
Vê Clície desprezados seus amores
perde Endimião no sono a vista, e tino
para gozar da Lua altos favores.
Qualquer se ostenta amante peregrino,
pois apostar finezas com rigores
é fineza a maior de um amor fino.
843
Francisco Carvalho
Testamento Real
Fui nascido rei
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
968
Flávio Sátiro Fernandes
Rei do mar
Mar.
Mar de areia.
Areia do mar.
Sereia do mar.
Dois seres
na areia do mar.
(Ou no mar de areia?)
Sou eu a amar
a sereia do mar.
Serei rei do mar.
Mar de areia.
Areia do mar.
Sereia do mar.
Dois seres
na areia do mar.
(Ou no mar de areia?)
Sou eu a amar
a sereia do mar.
Serei rei do mar.
1 060
Fernando José dos Santos Oliveira
Sou alguém comum
Sou alguém comum
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
927
Filinto de Almeida
Misteriosa
— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?
— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.
De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.
Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.
Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.
Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.
Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.
De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...
Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.
É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.
Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.
Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?
— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.
De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.
Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.
Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.
Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.
Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.
De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...
Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.
É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.
Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.
Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
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