Amor
Poemas neste tema
Lêdo Ivo
Planta de Maceió
O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
3 226
Gláucia Lemos
Poema para um instante
Surpreendente é amor
brincando no olhar
brisa tremulando em canteiro
de miosótis.
Xale de luar de lua cheia
estremecendo nas águas.
Lúdico mesmo é o olhar
brincando de amor
aventura de criança jogando
um jogo de armar.
Mágico tirando da cartola
pombos e flores de papel crepom.
Encantamento é a presença
iluminando a porta
é alguém à espera
com um sol entre os lábios.
05.06.96
brincando no olhar
brisa tremulando em canteiro
de miosótis.
Xale de luar de lua cheia
estremecendo nas águas.
Lúdico mesmo é o olhar
brincando de amor
aventura de criança jogando
um jogo de armar.
Mágico tirando da cartola
pombos e flores de papel crepom.
Encantamento é a presença
iluminando a porta
é alguém à espera
com um sol entre os lábios.
05.06.96
1 156
Gláucia Lemos
Soneto á Fala
ou
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
1 178
Lêdo Ivo
De teef
Aangeirokken door de geur van bloed uit haar ingewanden
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
1 125
Lígia Diniz
O que foi amor (não é mais)
Hoje preciso me lembrar de mim para penar em ti
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
982
Gláucia Lemos
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
966
Lêdo Ivo
Perdas e Danos
Losses and Privations
Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.
Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.
Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.
Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.
He who sleeps forfeits the night.
He shuns eternity,
a captive candelabrum
in the darkness of the sky.
He who sleeps forfeits love,
the mature vigil
of the fiesh that dreams itself
awakened.
He who sleeps forfeits death
that breathes unseen
like the hare in the forest.
He who sleeps forfeits everything
that fortune places
on the table of the universe.
Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.
Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.
Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.
Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.
He who sleeps forfeits the night.
He shuns eternity,
a captive candelabrum
in the darkness of the sky.
He who sleeps forfeits love,
the mature vigil
of the fiesh that dreams itself
awakened.
He who sleeps forfeits death
that breathes unseen
like the hare in the forest.
He who sleeps forfeits everything
that fortune places
on the table of the universe.
1 333
Luís Delfino
Que Vos Daria?
Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
1 286
Lêdo Ivo
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
1 841
Laura Amélia Damous
Oferenda
Venho te oferecer meu coração
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
como o cansaço se oferece aos amantes
o suor aos corpos exaustos
depois de definitivo abraço
Venho te oferecer meu coração
como a lua se oferece à noite
e o vento à tempestade
Venho te oferecer meu coração
como o peixe se oferece à captura
no engano do anzol
1 244
Luís António Cajazeira Ramos
Quo Vadis?
Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.
O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.
Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...
Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.
O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.
Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...
Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
715
Luís António Cajazeira Ramos
Na Véspera
... rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa
Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia
da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.
Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.
No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa
Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia
da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.
Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.
No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.
873
Luiz Augusto Kehl
O Fantasma
Olhar branco que teu ficara numa cara sem fundo
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.
545
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
901
Laura Amélia Damous
Ânfora
Nem percebeste a leve brisa.
Eu
que sou tormenta
fúria e vento.
Só tu
cabes em mim.
Eu
que sou tormenta
fúria e vento.
Só tu
cabes em mim.
867
Laura Amélia Damous
Autópsia
e ficou atestado que quando rasgaram
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME
966
João Ribeiro
Simples Balada
"Tu vais partir, Dom Gil! Sus! Cavaleiro!
"Essa tristeza de tua alma espanca.
"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,
Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,
Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.
Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.
Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!
E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...
Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"
Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?
Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.
"Essa tristeza de tua alma espanca.
"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,
Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,
Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.
Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.
Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!
E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...
Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"
Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?
Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.
1 267
Jorge Nascimento
Auto-retrato
Cresce dentro de mim, doloroso, humilde pranto;
Alma surda e esquizofrênica, inútil de tristezas,
Desertei da vida pela aspiração do amargo canto
E mesmo assim ainda tive que banhar-me de torpezas;
Quem agora irá prover a insanidade do meu sonho,
Eu, que sempre tive o bem ajustado e negro desvario
De nunca permanecer nas proporções onde me ponho,
Errante e só, comandado pela minha bússola de desvio
Sempre a refulgir, nos oceanos de uma sinistra paz;
Meu reino imbecil, descoberto por defeituoso impostor,
Repetente de todas as classes da infâmia sempre audaz;
Minha terra sombria de obscenidade, na voz de um homem
A quem determinaram inteira sujeição ao destino opressor,
Abençoado, enquanto vida tiver, as horas que me consomem!
Alma surda e esquizofrênica, inútil de tristezas,
Desertei da vida pela aspiração do amargo canto
E mesmo assim ainda tive que banhar-me de torpezas;
Quem agora irá prover a insanidade do meu sonho,
Eu, que sempre tive o bem ajustado e negro desvario
De nunca permanecer nas proporções onde me ponho,
Errante e só, comandado pela minha bússola de desvio
Sempre a refulgir, nos oceanos de uma sinistra paz;
Meu reino imbecil, descoberto por defeituoso impostor,
Repetente de todas as classes da infâmia sempre audaz;
Minha terra sombria de obscenidade, na voz de um homem
A quem determinaram inteira sujeição ao destino opressor,
Abençoado, enquanto vida tiver, as horas que me consomem!
980
João das Neves
Haicai
Nuvens de arco-íris
traspassam as montanhas
árvores e céus
Gota a gota o sol
pousa o entardecer
nas flores da noite
traspassam as montanhas
árvores e céus
Gota a gota o sol
pousa o entardecer
nas flores da noite
1 018
J. Ribamar Matos
Ressurreição
Se eu falecer, querida, bem distante,
e não vires, sequer, meu corpo frio,
ao meu sepulcro leva, a cada instante,
a dor cristalizada, fio a fio...
Reza ao teu morto uma oração constante:
deixa cair do triste olhar vazio,
do teu, então, já pálido semblante
o pranto que te torna o olhar sombrio...
Vai derramar em minha sepultura
chuva eterna de lágrima sentida
de tua alma, diluída na amargura;
que, se molhar a minha face ungida,
então me erguendo lá da cova escura,
eu chamarei por ti, mulher querida!
e não vires, sequer, meu corpo frio,
ao meu sepulcro leva, a cada instante,
a dor cristalizada, fio a fio...
Reza ao teu morto uma oração constante:
deixa cair do triste olhar vazio,
do teu, então, já pálido semblante
o pranto que te torna o olhar sombrio...
Vai derramar em minha sepultura
chuva eterna de lágrima sentida
de tua alma, diluída na amargura;
que, se molhar a minha face ungida,
então me erguendo lá da cova escura,
eu chamarei por ti, mulher querida!
1 076
José Eustáquio da Silva
Quem sou?
Meu nome é José Eustáquio da Silva (Taquinho), natural de Bela Vista de Minas-MG, pequena cidade da zona da mata mineira, situada a 100 Km da capital Belo Horizonte.
Há aproximadamente 15 anos me identifiquei com a literatura, e hoje a tenho como minha melhor companheira.
Minhas primeiras ( e únicas ) investidas no ramo das letras, deram-se em meados da década de 80, onde atrevi-me a inscrever meus incautos e pueris poemas em alguns concursos literários da escola na qual estudei (sou formado em Metalurgia ).
Também nesta época, atiçado por alguns amigos, andei musicalizando alguns poemas, fazendo-os participar de alguns (bons) festivais de música da minha cidade, chegando, inclusive, talvez mais por insistência do que competência, a ganhar alguns prêmios.
Hoje, prismando-me em uma cosmovisão bem diferente, talvez menos inteligente e menos inocente , daquela de alguns anos atrás, sigo observando tudo, como se fosse tudo tão estranho e buscando um novo significado para o que, para muitos, parece óbvio.
Há aproximadamente 15 anos me identifiquei com a literatura, e hoje a tenho como minha melhor companheira.
Minhas primeiras ( e únicas ) investidas no ramo das letras, deram-se em meados da década de 80, onde atrevi-me a inscrever meus incautos e pueris poemas em alguns concursos literários da escola na qual estudei (sou formado em Metalurgia ).
Também nesta época, atiçado por alguns amigos, andei musicalizando alguns poemas, fazendo-os participar de alguns (bons) festivais de música da minha cidade, chegando, inclusive, talvez mais por insistência do que competência, a ganhar alguns prêmios.
Hoje, prismando-me em uma cosmovisão bem diferente, talvez menos inteligente e menos inocente , daquela de alguns anos atrás, sigo observando tudo, como se fosse tudo tão estranho e buscando um novo significado para o que, para muitos, parece óbvio.
1 072
Jerônimo Rodrigues de Castro
Soneto
Clície ao Sol que os seus íntimos amores
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
884
José Eustáquio da Silva
Pessoa
me toque assim calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
abra-me teu peito
feito janela do meu windows
eclético e cibernético
vou te amando em canções
sorriso armstrong
este mundo é maravilhoso
bom dia vietnã
há flores nos canhões
e eu te amo aqui
contrariando multidões
me toque assim tão calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
"o poeta é um fingidor
finge tão completamente"
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente"
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
abra-me teu peito
feito janela do meu windows
eclético e cibernético
vou te amando em canções
sorriso armstrong
este mundo é maravilhoso
bom dia vietnã
há flores nos canhões
e eu te amo aqui
contrariando multidões
me toque assim tão calma
me beije fundo a alma
e grite um verso pessoa
quando o prazer chegar
"o poeta é um fingidor
finge tão completamente"
que chega a fingir que é amor
o amor que deveras sente"
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João Nepomuceno Kubitschek
Eurico
Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
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