Vida

Poemas neste tema

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Céus Nossos

Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 088
Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

Crítica à Criação

O boi come a grama
E nós o boi. Deus não teve
Imaginação.


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 271
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Folclírica 3

O mundo tem
entrada e saída.

Eu:
estou de visita.

(Quem pôs
a vassoura
atrás da porta
do invisível?)

1975


Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.111. (Sélesis, 13
1 197
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

4 173
Paulo Leminski

Paulo Leminski

esta vida é uma viagem

esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem


3 168
Paulo Leminski

Paulo Leminski

LÁPIDE 2

epitáfio para a alma


aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces


2 516
Paulo Leminski

Paulo Leminski

um bom poema

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

4 728
Paulo Leminski

Paulo Leminski

ascenção apogeu e queda da vida paixão

ascenção apogeu e queda da vida paixão
e morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
horizonte
e o separam da aurora da sua vida

1 715
Anna Maria Feitosa

Anna Maria Feitosa

Iluminado

Ando em busca
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora

Perco os limites
do tempo
sigo lenta.

Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.

Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.

851
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Hai-kais

Árvore cortada
No tronco tão machucado -
O verde brotando.

Malas nas mãos.
Nos olhos tantas lágrimas.
Casa inundada.

Foi tão rica a safra!
Até os arrozais se curvam
Em reverência.

Estrela de inverno
Embora distante e fraca
Procura brilhar.

1 054
Anna Maria Feitosa

Anna Maria Feitosa

Instante

A vida é essa luz
No teu rosto
é esse brilho
Inconstante
Dos teus olhos
Na penumbra.

Essa paixão
Esse instante fugaz.

A vida é só isso
é só isso
Nada mais.

956
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.



1 991
Angela Santos

Angela Santos

Vibração

Toda
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está

As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.

1 061
Angela Santos

Angela Santos

Só Sentir

Livro-me
das palavras
verbos e conjugações
ah! como me fartam.....

Deixo-me levar como a corrente
livre de um riacho
e não saber para onde......

Viver,
saber que sinto me basta,
sem porquês......

912
Angela Santos

Angela Santos

Caminhos


caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.

Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos

Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer

Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.

1 058
Angela Santos

Angela Santos

Sentidos

Cheiro,
provo, toco

Terra,
sal,
fogo,
desejo e cismo
a indomável força
do cosmos em mim
vivo.

1 270
Angela Santos

Angela Santos

Instante

Fluir
com o tempo
inventar um tempo
colher esse instante
de ser.

O futuro é destino
e a viagem não dura senão
o momento do acontecer da vida.

1 038
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Poesia

Poesia
é feminino
poema não o é
quisera mais poesia
no universo do meu verso.

Mulher é feminino
macho não o é
quisera mais feminilidade
na minha vida masculina.

Ternura é feminino
masculino não o é
quisera mais doçura
no dia-a-dia com minha amiga.

Vida é feminino
morte também o é
vida só é vida
junto ao ventre de uma mulher

927
Adélia Prado

Adélia Prado

Homilia

Quem dentre vós
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
— aqueles simples —,
morreram os conquistadores,
os reis,
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
A vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a Deus e reparti a côdea,
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.
3 101
Odete Silva

Odete Silva

Tempo


razão para mudar o tempo
mas, há razão para querer pará-lo.

Há razão para matar o tempo
como há razão para sonhá-lo

Há razão para existir no tempo
razão também há para ele existir, somente

Porém, há uma razão maior:
a de tornar infinito
o pouco que resta do tempo.

611
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Na vida somos iguais

Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.

Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.

Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
1 778
Verónica Mendes

Verónica Mendes

Bebo

bebo,
das pedras salgadas
o cálice da vida...
das colinas bravias o seu calor,
procuro na dor o gosto da alegria,
e nos teus lindos olhos,
um grito de amor!

930
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Elegia do Coentro

o canteiro não o faz mais verde
namoram-lhe as sementes os pássaros
cuidado de mulher o ajeita
do vento que o entortou

vegetal de vida útil e breve
que nasce verde e verde morre
não lhe será longa a vida
as folhas amarelecendo

coentro, tempero de alguns
destempero de si próprio
utilidade verde da vida
brevidade verde de si mesmo.

1 535
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto III:

Onomatopéia e Cibernética; Orbitas do Homem:
Sua Aurora e Seu Ocaso

no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.

madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras

e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.

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