Tristeza e Melancolia

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que grande tristeza

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
1 284
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Toda a noite ouvi no tanque

Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar.
1 291
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que tenho o coração preto

Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.
1 782
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Era já de madrugada

Era já de madrugada
E eu acordei sem razão.
Senti a vida pesada,
Pesado era o coração.
4 781
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE PICTURE

In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
        And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.

The name of the painter is ignored
        And his purpose none do know.
1 320
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei que desgosta

Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói‑me realmente.

Como um barco absorto
Em se naufragar
1 341
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora

A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
806
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseste a mantilha negra

Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
1 315
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WHEN THE LAMP IS BROKEN...

When the lamp is broken and the shaking
        Light is for ever fled,
There is more memory of its breaking
        Than of the light it shed.
This may common be, but 'tis not glad;
It means many things and all are sad.
1 188
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tarda o verão. No campo tributário

Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
        Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
        Do moribundo tudo.
1 299
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O teu lenço foi mal posto

O teu lenço foi mal posto
Pela pressa que to pôs.
Mais mal posto é o meu desgosto
Do que não há entre nós.
1 215
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 449
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Traz-me um copo com água

Traze-me um copo com água
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.
1 731
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entornaram-me o cabaz

Entornaram-me o cabaz
Quando eu vinha pela estrada.
Como ele estava vazio,
Não houve loiça quebrada.
684
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando passas pela rua

Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.
2 172
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O moinho que mói trigo

O moinho que mói trigo
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.
2 275
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nunca houve romaria

Nunca houve romaria
Que se lembrassem de mim...
Também quem se lembraria
De quem se lamenta assim?
1 264
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,

No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
1 318
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os ranchos das raparigas

Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.
1 194
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O ribeiro bate, bate

O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
1 357
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há cortejos, pompas, discursos,

Há cortejos, pompas, discursos,
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
942
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O ar do campo vem brando,

O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 480
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.

Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
1 280
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Temo a verdade.

Temo a verdade.
Ignorar é amar. Toda esta terra,
Estes montes (...) não os amara tanto
Se soubera o que são, e enfim os vira
Como os não vejo. Pudesse eu sem termo
Gozar, sofrendo embora a ilusão
Sem que a quebrasse. Como são tristes
Os sonhos meus, inda que lhes pese,
Só porque sonhos são, que não a vida,
Assim serem.  [?]
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