Transcendência
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Aqui
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não por aquilo que só atravessei,
Não p’lo meu rumor que só perdi,
Não p’los incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nos Últimos Terraços Dos Espaços
Sobre os ventos imóveis e calados
Dorme.
Nem a Primavera derramada
Nem o terror e o caos que a terra gera
Nem a sombra vermelha dos corpos mutilados
Atravessam
As barreiras de silêncio que o separam.
Tem o rosto voltado ao infinito
Um rosto perfeito de traços imutáveis.
Nem frio, nem calor, nem ar, nem água
O alimentam.
Respiram unicamente o seu segredo
O seu segredo secreto para sempre
E duas fontes correm dos seus olhos fechados.
Raquel Nobre Guerra
Trapézio
e chamar deus à vontade
de subir
Manuel António Pina
Pura coincidência
[...]
Estares; ou seres;
a palavra ou a frase,
a dúvida ou o sentido,
para isso terias, no entanto, que reaprender tudo,
reaprender a chorar, a perceber,
reaprender a reaprender;
porque talvez, afinal, seja tudo simples,
o efeito suceda à causa e a vida
encare apenas a sua própria face
(embora verdadeiramente isso não tenha
[demasiada importância);
terias que saber (e não o saber)
que dias e esperança,
incredulidade e medo,
tempo e lugar, carne e espírito
são sombras que nenhum
corpo e nenhuma luz consomem;
reaprender a ironia;
por fim, como uma imagem desfocada
recentrando-se, estarias tão perto ou tão longe
que a tua existência coincidiria,
transparente e pura coincidência
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 285 | Assírio & Alvim, 2012
Sophia de Mello Breyner Andresen
Madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada
Manuel António Pina
Relatório
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.
Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.
Em certas noites, porém
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.
Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 352 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
O que temos
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar
com o azul do céu à saída,
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a supresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso,
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
Nuno Júdice
Nuno Júdice espera do leitor
Nuno Júdice | Resposta ao "DN Artes" a propósito da questão colocada a sete poetas portugueses sobre a sua relação com os leitores.
Esperam alguma ligação ou desprezam essa possibilidade? Escrevem para quem compra livros ou o lado de lá não tem importância? As respostas diferiram, tal como são diferentes os poemas de cada um.
21 Março 2016
Fernando Pessoa
Vendo passar amantes
Nem propriamente inveja ou ódio sinto,
Mas um rancor e uma aversão imensa
Ao universo inteiro, por cobri-los.
Fernando Pessoa
MARIA: Onde vais? onde vais? ah volta, volta!
Onde vais? onde vais? ah volta, volta!
Parece-me sentir que (...) por onde vais.
FAUSTO:
Na noite, para o Mal, como o Universo
Mas mais Deus do que ele.
Adeus.
Adeus.
Adeus.
E para sempre.
(A voz de Maria crescendo em tom e em angústia)
Fausto!
Fausto!
Fausto!
(Cai desmaiado. Ouve-se, apenas, na noite, o sussurro do vento nos pinheirais.)
Fernando Pessoa
Em Mim
Abismo... E nesse abismo o Universo
Com seu Tempo e seu Espaço é um astro e nesse
Abismo há outros universos, outras
Formas de Ser com outros Tempos, Espaços
E outras vidas diversas desta vida...
O espírito é antes estrela... O Deus pensado
É um sol... E há mais Deuses, mais espíritos
Doutras maneiras de Realidade...
E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim... E nunca desço... E fecho os olhos
E sonho — e acordo para a Natureza...
Assim eu volto a Mim e à Vida...
Inclino o meu ouvido para mim
E escuto... Um Deus Real e Verdadeiro
Criou nosso universo em sua dupla
Unidade divina de corpo e alma... E esse
Deus, com seu Universo real e eterno,
É um átomo num mundo de universos.
Inextricavelmente
Há outras realidades.
É saber isto que me faz alheio
À vida e pálido entre a humanidade...
Deus a si próprio não se compreende.
Sua origem é mais divina que ele,
E ele não tem origem que as palavras
Possam fazer pensar...
Fecha as portas da Alma! Faze ruído!
Agita, grito, o teu externo Ser,
Encobre-me a Presença do Mistério!
Pode ser que mundo possuamos
Um paraíso eterno, e vida divina
Seja (ó relâmpago do pensamento!)
A realidade! A ilusão talvez
Dure pra sempre... Quem criou um átomo
Ainda por criar
Pode criar uma ilusão eterna...
Altitude! Altitude! Não respiro!
Passei além da Realidade, ergui-me
Acima da Verdade... Deus... O Ser
O abstracto ser em sua abstracta ideia
Esse próprio, o mesmo sonho divino (?(
Apagou-se e eu fiquei na noite eterna
Eu e o Mistério face a face...
Fernando Pessoa
Minha imaginação é um Arco de Triunfo.
Por baixo passa roda a Vida.
Passa a vida comercial de hoje, automóveis, camiões,
Passa a vida tradicional nos trajes de alguns regimentos,
Passam todas as classes sociais, passam todas as formas de vida,
E no momento em que passam na sombra do Arco de Triunfo
Qualquer coisa de triunfal cai sobre eles,
E eles são, um momento, pequenos e grandes.
São momentaneamente um triunfo que eu os faço ser.
O Arco de Triunfo da minha Imaginação
Assenta de um lado sobre Deus e do outro
Sobre o quotidiano, sobre o mesquinho (segundo se julga),
Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos,
E as rápidas intenções que morrem antes do gesto.
Eu-próprio, aparte e fora da minha imaginação,
E contudo parte dela,
Sou a figura triunfal que olha do alto do arco,
Que sai do arco e lhe pertence,
E fita quem passa por baixo elevada e suspensa,
Monstruosa e bela.
Mas às grandes horas da minha sensação,
Quando em vez de rectilínea, ela é circular
E gira vertiginosamente sobre si-própria,
O Arco desaparece, funde-se com a gente que passa,
E eu sinto que sou o Arco, e o espaço que ele abrange,
E toda a gente que passa,
E todo o passado da gente que passa,
E todo o futuro da gente que passa,
E toda a gente que passará
E toda a gente que já passou.
Sinto isto, e ao senti-lo sou cada vez mais
A figura esculpida a sair do alto do arco
Que fita para baixo
O universo que passa.
Mas eu próprio sou o Universo,
Eu próprio sou sujeito e objecto,
Eu próprio sou Arco e Rua,
Eu próprio cinjo e deixo passar, abranjo e liberto,
Fito de alto, e de baixo fito-me fitando,
Passo por baixo, fico em cima, quedo-me dos lados,
Totalizo e transcendo,
Realizo Deus numa arquitectura triunfal
De arco de Triunfo posto sobre o universo,
De arco de triunfo construído
Sobre todas as sensações de todos que sentem
E sobre todas as sensações de todas as sensações...
Poesia do ímpeto e do giro,
Da vertigem e da explosão,
Poesia dinâmica, sensacionista, silvando
Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo,
Em grandes rios de chama, em grandes vulcões de lume.
Fernando Pessoa
O nosso mundo é real e o Deus que tem
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
Fernando Pessoa
Sim, é claro,
O Universo é negro, sobretudo de noite.
Mas eu sou como toda a gente,
Não tenha eu dores de dentes nem calos e as outras dores passam.
Com as outras dores fazem-se versos.
Com as que doem, grita-se.
A constituição íntima da poesia
Ajuda muito...
(Como analgésico serve para as dores da alma, que são fracas...)
Deixem-me dormir.
Florbela Espanca
Estrela Cadente
Do nosso amor me lembra a suavidade...
Da estrela não ficou nada no céu
Do nosso sonho em ti nem a saudade!
Pra onde iria a ’strela? Flor fugida
Ao ramalhete atado no infinito...
Que ilusão seguiria entontecida
A linda estrela de fulgir bendito?...
Aonde iria, aonde iria a flor?
(Talvez, quem sabe?... ai quem soubesse,
[amor!)Se tu o vires minha bendita estrela
Alguma noite... Deves conhecê-lo!
Falo-te tanto nele!... Pois ao vê-lo
Dize-lhe assim: “Por que não pensas nela?...”
Florbela Espanca
No Hospital
Na vasta enfermaria ela repoisa
Tão branca como a orla do lençol.
Gorjeia a sua voz ternos queixumes,
Como no bosque à noite o rouxinol.
É delicada e triste. O seu corpito
Tem o perfume casto da verbena.
Não são mais brancas as magnólias brancas
Que a sua boca tão branca e tão pequena.
Oiço dizer: Seu rosto faz sonhar!
Serão pétalas de rosa ou de luar?
Talvez a neve que chorou o Inverno...
Mas vendo-a assim tão branca, penso eu:
É um astro cansado, que do céu
Veio repoisar nas trevas dum inferno!
Florbela Espanca
Iv
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!
Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!
Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra? – Um astro morto que flutua...
Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!
Florbela Espanca
A Minha Morte
Ao pé do Oceano ingénuo e manso,
Que reze á meia-noite em voz magoada
As orações finais em meu descanso...
Há-de embalar-me o berço derradeiro
O mar amigo e bom para eu dormir!
Velei na vida o meu viver inteiro,
E nunca mais tive um sonho a que sorrir!
E tu hás-de lá ir... bem sei que vais...
E eu do brando sono hei-de acordar
Para os teus olhos ver urna vez mais!
E a luz há-de dizer-me em voz mansinha:
— Ai, Não te assustes... dorme... foi o Mar
Que gemeu... Não foi nada... ’stá quietinha...
Florbela Espanca
O Meu Desejo
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!
Nos altos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!
Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...
Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a morte me levar consigo...
Marquesa de Alorna
Se me aparto de ti
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!
Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!
À suave esperança me entregaste,
E o preço de teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.
Se, justo, castigar-me te é forçoso,
lembra-te que te amei, e me criaste
para habitar contigo o Céu lustroso!
Florbela Espanca
Passeio Ao Campo
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
– Vamos correr e rir por entre o trigo! –
Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...
E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...
Natália Correia
O Espírito
Emily Dickinson
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