Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo
1 094
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão profundamente triste

tão profundamente triste
fiquei depois daquele beijo
que já não era desejo e sim hábito
de todos os nossos encontros


era verão e eu não sabia
que certas coisas não têm fim
passei noites em claro procurando entender


o que enfim não se explica
chamam vida e é assim
985
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ainda que eu não tenha idade

ainda que eu não tenha idade
para sofrer por filhos que se foram
por doenças que vieram
por perdas e danos que sofremos
ainda que eu não precise
temer a morte que me espreita
os amigos que ficaram para trás
os desejos reprimidos para sempre
ainda que eu tenha tempo de sobra
não me resta mais sombra de dúvida
1 113
Martha Medeiros

Martha Medeiros

antes me adorava

antes me adorava
depois me suportou
antes de me enlouquecer
você voltou
depois de muito papo
antes de amanhecer
você me amou
depois de muitos beijos
durante a madrugada
antes do nada que ficou
1 006
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tenho urgência de tudo

tenho urgência de tudo
que deixei pra amanhã
1 099
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
975
Martha Medeiros

Martha Medeiros

strip-tease

strip-tease
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia


strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite


strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
1 506
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foi então que ela viu no calendário

foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês


foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
1 059
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um

quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
1 561
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Mortas

Tudo foi breve e apenas começado.
Era grande demais para vir inteiro
Nos dias apressados e medidos
E adormeceram mal adormecidas.

Quem as via não via que eram elas
E elas não sabiam que era o tempo
Esse tocar ausente e inseguro
Por onde a sua vida lhes fugia.

Atentamente como se voltassem
Para ouvir as palavras nunca ouvidas
Encostam-se ao rumor familiar
Do vento nas janelas e das chuvas.

Nas suas campas cresce mais a erva
E as roseiras dão flor antes do tempo.
A brisa que partiu inquieta volta
E as ramagens no céu pairam, alheias.
1 500
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a força de um ato

a força de um ato
dura o tempo exato
para ser compreendida


depois disso é bobagem
vira longa-metragem
por acaso estendida


fora o essencial
nada mais é natural
vira apenas suporte


pena a vida não ter corte
1 065
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Deus Recebe Em Seu Silêncio Puro

O sonho do arquitecto

E dá-te a plenitude da morada
De que foste projecto

Para tudo se tornou tarde
Até para o mar e para o vento
A tua morte tudo invade
Com desalento
1 102
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Perca

Ainda há luz e já o rumor da tarde
me separa da sombra do pinhal

como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei

só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
1 151
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Minha Vida Está Vivida

Já minha morte prepara
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível

Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga

Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida

Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
1 210
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui As Sombras Se Misturam Com As Luzes

Cavas roucas recônditas as vozes
Do interior do tempo os rostos surgem
1 Dezembro 1991
1 089
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Turistas No Museu

Parecem acabrunhados
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam

(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)

Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
793
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estações do Ano

Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas

A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga

O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente

Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
1 943
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Orpheu E Eurydice

Juntos passavam no cair da tarde
Jovens luminosos muito antigos
1 175
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vila Adriana

A ânfora cria à sua roda um espaço de silêncio
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana

Tempo da fina areia agudamente medido
Os séculos derrubaram estátuas e paredes
Eu destruída serei por breves anos

Mas de repente recupero a antiga
Divindade do ar entre as colunas
1 289
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Fotografias

Era quase no inverno aquele dia
Tempo de grandes passeios
Confusamente agora recordados —
A estrada atravessava a serra pelo meio
Em rugosos muros de pedra e musgo a mão deslizava —
Tempo de retratos tirados
De olhos franzidos sob um sol de frente
Retratos que guardam para sempre
O perfume de pinhal das tardes
E o perfume de lenha e mosto das aldeias
1 316
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pompeia — Casa de Menandro

A serenidade de um verso latino
Claro e medido
Povoa o tempo de clepsidra — ou o escorrido
Tempo de areia fina

Paira — apesar da morte e da ruína —
Uma ciência tão atenta do vivido
Que a alegria do penúltimo momento
Ergue na jovem luz a sua taça

E toco na sombra uma frescura de vinha
1 052
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm

Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
1 118
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Primavera

As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
— Sangue feroz do tempo possuído
1 443
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Poeta

O poeta é igual ao jardim das estátuas
Ao perfume do Verão que se perde no vento
Veio sem que os outros nunca o vissem
E as suas palavras devoraram o tempo.
1 253