Solidão
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema Perdido
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão
E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Náufrago Acordando
Tão esquecido de si, que tudo o envolve
Em halos de silêncio e nevoeiro.
Um homem de olhos fechados, procurando
Dentro de si memória do seu nome.
Um homem na memória caminhando,
De silêncio em silêncio derivando,
E a onda
Ora o abandonava, ora o cobria.
Com vagos olhos contemplava o dia.
Em seus ouvidos
Como um longínquo búzio o mar zunia.
Líquida e fria,
Uma mão sobre os seus membros escorria:
Era a onda,
Que ora o abandonava, ora o cobria.
Um homem só na areia lisa, inerte,
Na orla dançada do mar.
Nos seus cinco sentidos, devagar,
A presença das coisas principia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Activista Cultural
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fernando Pessoa
Embiocado afastado
No lugar mais escuro do café escrevia
O múltiplo poema o canto inumerável
Arrancado ao desejo à paixão à memória
Às lucidissímas fúrias da renúncia
Julho de 1994
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xiii. Canção Rente Ao Nada
No silêncio quieto
Da noite parada
Como quem buscasse
Seu rosto e o errasse
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Pálido Inverno
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quadrado
Pensada na parede
Deixai-me com a luz
Medida no meu ombro
Em frente do quadrado
Nocturno da janela
Sophia de Mello Breyner Andresen
Palmeiras Geometria
São meu alimento
Secura silêncio
São minha bebida
E a infinita ausência
É a minha vida
A funda a secreta
Com sabor a pedra
E perfume de vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Memória de Ti Calma E Antiga
Enquanto o acaso vão me oferece os vários
Rostos da hora inimiga
Nem terror nem lágrimas nem tempo
Me separarão de ti
Que moras para além do vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Semi-Rimbaud
Onde frios ventos cantam
Passa rasgando o luar
E desesperando a noite
Pelas ruas oblíquas da cidade
Em madrugadas duvidosas
Constrói o mal com gestos cautelosos
E sonha a inversão total das coisas
Constrói o mal com gestos rigorosos
Lúcido de vício e de noitada
Íntegro como um poema
Completo lógico sem falha
A aurora desenha o seu rosto com os dedos
As suas órbitas iguais às das caveiras
Seu rosto voluntário e inventado
Magro de solidão verde de intensa
Vontade de negar e não ceder
De caminhar de mão dada com o nojo
De ser um espectro para terror dos vivos
E uma acusação escrita nas paredes.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Puro Espírito do Êxtase E do Vento
Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. o Encontro
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nevoeiro
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esgotei o Meu Mal, Agora
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.
Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando Brilhou a Aurora, Dissolveram-Se
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. Na Minha Vida Há Sempre Um Silêncio Morto
Uma parte de mim que não se pode
Nem desligar nem partir nem regressar
Aonde as coisas eram uma intimamente
Como no seio morno de uma noite
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Por Que Será Que Não Há Ninguém No Mundo
Só encontrei distância e mar
Sempre sem corpo os nomes ao soar
E todos a contarem o futuro
Como se fosse o único presente
Olhos criavam outras as imagens
Quebrando em dois o amor insuficiente
Eu nunca pedi nada porque era
Completa a minha esperança
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Inverno
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noites Sem Nome, do Tempo Desligadas
Silêncio altíssimo e brilhante.
As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Não Procures Verdade No Que Sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viii. Não Te Chamo Para Te Conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
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