Sol amanhecer e pôr do sol

Poemas neste tema

Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - o Rio

Belo deslizava o rio no seu leito, e melhor seria nele mergulhar a boca
do que mergulhá-la numa boca de mulher.
curvado como uma pulseira, rodeado pelas flores como uma Via-Láctea.

Estreitava-se às vezes até parecer um pesponto de prata numa túnica
verde.

Cercavam-no os ramos como pestanas em volta de uma pupila garça.

O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do crepúsculo sobre a prata da
água.

Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado cujo reflexo mordia as
mãos dos convivas.
984
Herberto Helder

Herberto Helder

Cinco Poemas Esquimós

Levanto-me da cama com gestos
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia.
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.

O grande fluxo do oceano põe-me em movimento,
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.

Os mortos que sobem ao céu
por degraus sobem ao céu,
por velhos degraus já gastos.
Todos os mortos que sobem ao céu
por degraus gastos,
gastos ao contrário,
gastos por dentro,
sobem ao céu.

Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
— Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!

I
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
O invocador te chama.
Vem, e purifica esta terra.
Espírito do ar, vem,
vem depressa.

Levanto-me:
é no meio dos espíritos que eu me levanto.
Os invocadores me protegem,
conduzem-me por entre os espíritos.

Criança, criança, grande criança,
levanta-te e vem,
grande criança, pequena criança,
aparece entre nós.

II
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.

Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.

Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.

E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
1 091
Herberto Helder

Herberto Helder

O Mistério de Ameigen

(Irlanda)
Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e que anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.
1 035
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii A

Guelras por onde respira toda a luz desabrochada,
rosa,
a primeira.
1 140
Herberto Helder

Herberto Helder

I F

Olha a minha sombra natural exactamente amarela, diz,
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
1 016
Herberto Helder

Herberto Helder

22

e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
515
Fernando Fitas

Fernando Fitas

As vozes e os corpos

Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.

Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.

E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.

E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
667
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Crepúsculo

Crepúsculo

Os pássaros em bando
pousavam no arvoredo
cansados do céu.

Incendiava-se
a lenha na lareira.

A noite
vestia devagar
a vastidão dos campos.
683
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Pelo Souto de Crexente

Pelo souto de Crexente
ũa pastor vi andar,
muit'alongada da gente,
alçando voz a cantar,
apertando-se na saia,
quando saía la raia
do sol, nas ribas do Sar.

E as aves que voavam,
quando saía l'alvor,
todas d'amores cantavam
pelos ramos d'arredor;
mais nom sei tal qu'i 'stevesse,
que em al cuidar podesse
senom todo em amor.

Ali 'stivi eu mui quedo,
quis falar e nom ousei,
empero dix'a gram medo:
- Mia senhor, falar-vos-ei
um pouco, se mi ascuitardes,
e ir-m'hei quando mandardes,
mais aqui nom [e]starei.

- Senhor, por Santa Maria,
nom estedes mais aqui,
mais ide-vos vossa via,
faredes mesura i;
ca os que aqui chegarem,
pois que vos aqui acharem,
bem dirám que mais houv'i.
305
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

A Bebida Branca

A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.

Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.

Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.

Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento

corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.

O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino

Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 081
Renato Rezende

Renato Rezende

O Sono

Sob o azul escurecendo
e as nuvens que correm o ar
como se fossem finalmente
voltar
à casa
a tarde no Rio
passa rápida
levando do dia
o que ele teve de fácil e claro.
Numa janela,
dentro de um quarto
(vamos dizer, em Botafogo
ou no Leblon
de frente ao mar),
alheios à tarde que se faz rosa e ouro,
dois corpos dormem
um sobre o outro,
no descanso
depois do amor.
(Esse ato gera novos corpos).
Um corpo sobre outro
carne sobre carne
ossos sobre ossos
no sono
que é prenúncio da morte.
Um dia estaremos mortos,
mas por enquanto
estamos aqui
estamos aqui, presentes
e o mundo é ainda nosso.


Rio de Janeiro, 8 de abril 1997
921
Renato Rezende

Renato Rezende

Álbum de Roma

Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.


Nova York, dezembro 1995
940
Zulmira Ribeiro Tavares

Zulmira Ribeiro Tavares

A mancha de cor

Se com o passar dos anos vamos perdendo os pelos que nos faziam orgulhosos por sua fricção animal e sua vizinhança dos capinzais na boa estação, 
         E, ainda, se vamos perdendo a água que nos deixava luminosos como sinaleiras, como elas atentos e úteis — isso ainda não é sério. 
             Podemos avançar nas perdas. 
           Mas, quando os dias se excedem, espichamo-nos como as sombras do poente, somos ginastas rastejadores, as sombras são nossos pijamas de elástico e fumo, elas nos levam estirados na direção do sol desaparecido dentro de sua mancha de cor. 
             Nossas sombras são sombras estradeiras. 
             Somos estradeiros com as sombras e corremos para nada  dentro da mancha de cor.
679
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

o sol anestesia

o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
634
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

VILEGIATURA

Munidos de maçãs, lápis e fósforos,
conquistaremos Nínive amanhã,
se não der praia e a noite for de sono.
Porque afinal os dias são dourados
e tudo é matinal nessa estação
de água fresca, madrigais e cópulas.

São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,
tantas razões de se riscar um fósforo,
é tão horizontal essa estação,
que é puro engodo a idéia do amanhã.
E por que não beber o sol dourado
enquanto não nos sobrevém o sono?

Idéias sussurradas pelo sono,
pela sofreguidão de muitas cópulas.
Enquanto isso, Nínive dourada
aguarda a combustão de nossos fósforos
ao primeiro suspiro da manhã.
Rechacemos o torpor da estação

(e como é modorrenta essa estação,
tempo de bandolins, maçãs e sono!)
e vamos nus, na bruma da manhã,
buscar a glória, traduzida em cópulas,
claustros, tributos, castiçais e fósforos,
caixas de música e ídolos dourados.

Tomaremos a cidade dourada
na hora derradeira da estação,
quando já não restar nem mais um fósforo,
uma gota de sol, de céu, de sono.
A entrada triunfal será uma cópula
na imensidão da última manhã.

Quando acordarmos, já será amanhã,
os olhos turvos de sonhos dourados,
as peles mornas recendendo a cópulas,
bagagens esquecidas na estação,
jornais, explicações, ressaca e sono,
um alvoroço de café e fósforos.

Os fósforos primeiros da manhã
riscam o sono e o sonho do Eldorado.
Dessa estação só vão restar as cópulas.
699
Domingos Pellegrini

Domingos Pellegrini

Manhã

Os galos disputando a alvorada
o retorno dos pés para as sandálias
o espelho que me olha e sempre cala
a pia minha mais gentil criada

Fogão com seu milagre que não falha
armário com modéstia tão calada
perto da geladeira dedicada
a resmungar tanto quanto trabalha

O céu a me espiar pelas janelas
novidades florindo no jardim
formigas a cuidar da vida delas

Sangrando sol varrendo as amarguras
sem pesadelos nem sonhos enfim
cada manhã me pare e inaugura
613
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO

para maria josé oiticica


o sol se põe em são paulo

a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala

o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
                     espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair

o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
                     grito
teu nome de ateu

são paulo anda à margem

à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós

são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
754
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

fim de verão - XIV

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.
502
Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

Penhasco

assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
560
Daniel Jonas

Daniel Jonas

OPEN

OPEN

Estes dois gigantes
com suas fundas
de David
trocando entre si

a pedra
amarelo-óptico
rabidamente

até falharem
finalmente

o outro.


OPEN 2

Homens nobres
acertando as suas diferenças
no court.

Por vezes sobem à
rede
mas nenhum pode transpor

o arame farpado
entre os acianos.

O sol arde
no duelo.

Um deles cairá no cobalto
traído pela bola de jogo.

O sol arderá nele;
anjo caído,
magnífica bola de fogo.


OPEN 3

O peixe fluorescente dá
à pequena rede

mas esta rebate-o
devolvendo-o
ao profundo azul ciano

esperando que se
perca
péla tragada na voragem
616
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Cidade ao nascer da lua

A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.

O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
597
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Música lenta

A casa hoje por abrir. O sol entra a jorros pelas janelas
e aquece o tampo da secretária
que é sólida capaz de carregar com o destino dos outros.

Andamos hoje ao ar livre pela longa e larga encosta.
Há quem se vista de negro. Se ficares ao sol e fechares os olhos
vais sentir o vento a levar-te lentamente.

É raríssimo vir até junto ao mar. Vim agora
entre enormes pedras com um lado tranquilo.
Pedras que passo a passo recuam para fora do mar
677
Nelly Sachs

Nelly Sachs

CORO DAS SOMBRAS

Nós, sombras, oh, nós, sombras!
Sombras de carrascos
Presas ao pó de vossos crimes –
Sombras de vítimas
Desenhando o drama do vosso sangue numa parede.
Oh, nós, desamparadas borboletas do luto
Aprisionadas numa estrela, que segue queimando em paz,
Enquanto temos de dançar em infernos.
Nossos titereiros sabem tão somente a morte.
Tu, ama dourada que nos alimenta
Para tamanho desespero,
Ó Sol, afasta a tua face
Para que também mergulhemos –
Ou deixa-nos espelhar um júbilo infantil
Dedos erguidos
E a leve alegria de uma libélula
Sobre a borda do poço.
438
Mauro Mota

Mauro Mota

SÓROR FELICIDADE

Sob o outono sem luz, nesta tarde amarela,
Uma rosa de Deus lentamente fenece
e se estorce de dor e agoniza na cela…
Lusco-fusco. Tristeza. O sol morre. Anoitece…

Tem quinze anos somente! é tão moça! é tão bela!
Com seus lábios sem cor balbucia uma prece.
Atira o último olhar através da janela:
vê a Vida lá fora e a lua que aparece.

Eis meus olhos ciriais velando-lhe a agonia,
Lentamente fenece e, assim, lívida e calma,
é uma santa do céu! Santa Melancolia!

Mas, súbito, na cela, um frêmito de ânsia corre,
E, no Claustro da Dor Imensa de Minh’alma,
Sóror Felicidade abre os braços e morre.
670