Saudade e Ausência
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Poeta Clássico
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos
Fará da ausência uma parte do seu jogo:
Prumo esteio coluna
Combate esculpido nas métopas do templo
Una e múltipla
Cada encontro a recomeça:
Agudo gume quando a música ressoa
Venenosa rosa do Junho mais antigo
Um poeta clássico
Fará da ausência uma parte do seu jogo
Nem integrada nem assumida
Apenas companheira
Segunda mão poisada sobre a mesa
Mão esquerda
Companheira serena
Das coisas serenas:
Parede livro fruto
E fogosa condutora dos desastres
Que nos esperam em seus pátios lisos
2 405
Sophia de Mello Breyner Andresen
Passam Os Carros E Fazem Tremer a Casa
Passam os carros e fazem tremer a casa
A casa em que estou só.
As coisas há muito já foram vividas:
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.
E as minhas mãos não podem prender nada.
Porém eu olho para a noite
E preciso de cada folha.
Rola, gira no ar a tua vida,
Longe de mim…
Mesmo para sofrer este tormento de não ser
Preciso de estar só.
Antes a solidão de eternas partidas
De planos e perguntas,
De combates com o inextinguível
Peso de mortes e lamentações
Antes a solidão porque é completa.
Creio na nudez da minha vida.
Tudo quanto me acontece é dispensável.
Só tenho o sentimento suspenso de tudo
Com a eternidade a boiar sobre as montanhas.
Jardim, jardim perdido
Os nossos membros cercando a tua ausência…
As folhas dizem uma à outra o teu segredo,
E o meu amor é oculto como o medo.
A casa em que estou só.
As coisas há muito já foram vividas:
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.
E as minhas mãos não podem prender nada.
Porém eu olho para a noite
E preciso de cada folha.
Rola, gira no ar a tua vida,
Longe de mim…
Mesmo para sofrer este tormento de não ser
Preciso de estar só.
Antes a solidão de eternas partidas
De planos e perguntas,
De combates com o inextinguível
Peso de mortes e lamentações
Antes a solidão porque é completa.
Creio na nudez da minha vida.
Tudo quanto me acontece é dispensável.
Só tenho o sentimento suspenso de tudo
Com a eternidade a boiar sobre as montanhas.
Jardim, jardim perdido
Os nossos membros cercando a tua ausência…
As folhas dizem uma à outra o teu segredo,
E o meu amor é oculto como o medo.
2 606
Susana Thénon
Poema
É inútil que a amada se arraste
em busca da mão que desenha sombras
sob sua pele.
É inútil que voe
perseguindo a nuvem de pedra que a feriu.
Em vão saltará de folha em folha
perguntando pelo rosto
que se afogou
no ar.
em busca da mão que desenha sombras
sob sua pele.
É inútil que voe
perseguindo a nuvem de pedra que a feriu.
Em vão saltará de folha em folha
perguntando pelo rosto
que se afogou
no ar.
890
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Amigos
Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
4 782
Fernando Pessoa
Diana através dos ramos
Diana através dos ramos
Espreita a vinda de Endymion
Endymion que nunca vem,
Endymion, Endymion,
Lá longe na floresta…
E a sua voz chamando
Exclama através dos ramos
Endymion, Endymion…
Assim choram os deuses…
Espreita a vinda de Endymion
Endymion que nunca vem,
Endymion, Endymion,
Lá longe na floresta…
E a sua voz chamando
Exclama através dos ramos
Endymion, Endymion…
Assim choram os deuses…
1 054
Fernando Pessoa
Dias são dias, e noites
Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.
1 836
Fernando Pessoa
O sol doirava-te a cabeça loura.
O sol doirava-te a cabeça loura.
És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora.
És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora.
1 350
Fernando Pessoa
Quando a manhã aparece
Quando a manhã aparece
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.
1 920
Fernando Pessoa
Todos os dias que passam
Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
1 704
Fernando Pessoa
Saudades, só portugueses
Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
3 435
Fernando Pessoa
Tenho um lenço que esqueceu
Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.
1 238
Fernando Pessoa
Duas horas vão passadas
Duas horas vão passadas
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!
1 478
Fernando Pessoa
Nuvem alta, nuvem alta,
Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
1 444
Fernando Pessoa
Por muito que pense e pense
Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.
1 315
Fernando Pessoa
Puseste a mantilha negra
Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
1 315
Fernando Pessoa
Trazes os brincos compridos,
Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
1 830
Fernando Pessoa
No grande espaço de não haver nada
No grande espaço de não haver nada
Que a noite finge, brilham mal os astros.
Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
Na alma. Não existes.
Que a noite finge, brilham mal os astros.
Não há lua, e ainda bem.
Neste momento, Lídia, considero
Tudo, e um frio que não há me entra
Na alma. Não existes.
1 318
Fernando Pessoa
Deixaste o dedal na mesa
Deixaste o dedal na mesa
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.
752
Fernando Pessoa
Tenho ainda na lembrança
Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 635
Fernando Pessoa
Quando ela pôs o chapéu
Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
2 664
Fernando Pessoa
Olhas para mim às vezes
Olhas para mim às vezes
Como quem sabe quem sou.
Depois passam dias, meses,
Sem que vás por onde vou.
Como quem sabe quem sou.
Depois passam dias, meses,
Sem que vás por onde vou.
1 295
Fernando Pessoa
Velha cadeira deixada
Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
2 590
Fernando Pessoa
Tão linda e finda a memoro!
Tão linda e finda a memoro!
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
1 291
Fernando Pessoa
Deixa que um momento pense
Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
1 323
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