Morte e Luto
Poemas neste tema
Manuel Bandeira
Poema de Finados
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemintério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
Vai ao cemintério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
2 383
Manuel Bandeira
Macumba de Pai Zusé
Na macumba do Encantado
Nego véio pai de santo fez mandinga
No palacete de Botafogo
Sangue de branca virou água
Foram vê estava morta!
Nego véio pai de santo fez mandinga
No palacete de Botafogo
Sangue de branca virou água
Foram vê estava morta!
1 516
Manuel Bandeira
O Major
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
1 548
Manuel Bandeira
Conto Cruel
A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
— Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando:
— Meu Jesus-Cristinho!
Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.
— Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando:
— Meu Jesus-Cristinho!
Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.
2 283
Marina Colasanti
Tão clara a água
Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
952
Manuel Bandeira
Flor de Todos Os Tempos
Dantes a tua pele sem rugas,
A tua saúde
Escondiam o que era
Tu mesma.
Aquela que balbuciava
Quase inconscientemente:
"Podem entrar."
A que me apertava os dedos
Desesperadamente
Com medo de morrer.
A menina.
O anjo.
A flor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.
A tua saúde
Escondiam o que era
Tu mesma.
Aquela que balbuciava
Quase inconscientemente:
"Podem entrar."
A que me apertava os dedos
Desesperadamente
Com medo de morrer.
A menina.
O anjo.
A flor de todos os tempos.
A que não morrerá nunca.
1 411
Marina Colasanti
Projeto póstumo
Se
quando morta
me fizerem busto
volto
pomba gentil
e
cago nele.
quando morta
me fizerem busto
volto
pomba gentil
e
cago nele.
1 208
Marina Colasanti
Como nada
No quinto degrau
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
1 119
Marina Colasanti
MULHERES SUICIDAS
Mulheres suicidas
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.
498
Marina Colasanti
CINCO MÁRTIRES E UM CALIFA
Duas cimitarras e cinco
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.
993
Marina Colasanti
MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO
Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
1 078
Marina Colasanti
PARA FOTO DE ANDRÉS SERRANO
O corpo do morto não sangra
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
na foto do corpo do morto
na foto do pé desse morto sem corpo
só pé
há um corte na pele
de faca navalha de caco
de vidro
de carro
um corte no pé desse morto
sem morte visivel
só corte
não drama
não sangue
a pele fendida
a morte
não vida.
1 017
Marina Colasanti
SOBRE A ESTRADA
Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 085
Marina Colasanti
MESSA AL DOM
L'antico gesto
la medesima lama
e la testa che vola
nella porta di bronzo
del Manzú.
Ruzzolano le teste
dalla storia
dai quadri
dagli affreschi
E mozze
ci raccontano chi siamo.
Salzburg 1995
la medesima lama
e la testa che vola
nella porta di bronzo
del Manzú.
Ruzzolano le teste
dalla storia
dai quadri
dagli affreschi
E mozze
ci raccontano chi siamo.
Salzburg 1995
956
Marina Colasanti
HORA DO EMBARQUE
Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
970
Affonso Romano de Sant'Anna
Arte Mortal
Anda me cercando a morte
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro da casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai e vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.
1 198
Affonso Romano de Sant'Anna
Jardinagem
Amadureço na morte alheia a minha morte.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
970
Affonso Romano de Sant'Anna
Diálogo Com Os Mortos
Começo a conversar com os mortos amiúde
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
e vejo que têm muito a me dizer.
Estão sempre à minha espera
numa página de livro ou na memória.
Converso com eles
como se o assunto com meus contemporâneos
já se tivesse esgotado,
como se só eles, os mortos,
tivessem algo novo a me dizer.
1 026
Affonso Romano de Sant'Anna
Sedução Mortal
Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
1 122
Affonso Romano de Sant'Anna
Viva Fera
Não me canso de estudar a morte.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
Como é fértil e reverbera novos ângulos
conforme a hora em que a entrevejo
na minha trajetória.
Preencho-a de significados vários.
Ela cresce, me fascina, me enriquece,
me habita viva feito fera
que parece domesticada e, no entanto,
soberana
– mansamente me devora.
999
Affonso Romano de Sant'Anna
Para Tigrão
Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
1 120
Affonso Romano de Sant'Anna
O Deus de Santa Fina
Santa Fina, aos 10 anos, doente,
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
1 105
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
943
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Tirado do Jornal El Espectador, Bogotá, 27.3.94
Cuando el Che Guevara dejó Cuba
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
pasó por Roma.
Disponía solo de una mañana
y se la pasó tumbado al suelo
de la Sixtina
contemplando sus pinturas.
De alli
salió hacia el aeropuerto
para un viaje sin retorno.
950
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