Desilusão e Desamor
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Puseste a chaleira ao lume
Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
1 364
Fernando Pessoa
Dizem que as flores são todas
Dizem que as flores são todas
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas.
Falas: sou menos feliz.
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas.
Falas: sou menos feliz.
4 230
Fernando Pessoa
Vai alta sobre a montanha
Vai alta sobre a montanha
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.
1 450
Fernando Pessoa
Esse frio cumprimento
Esse frio cumprimento
Tem ironia p’ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...
Tem ironia p’ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...
1 217
Fernando Pessoa
Entornaram-me o cabaz
Entornaram-me o cabaz
Quando eu vinha pela estrada.
Como ele estava vazio,
Não houve loiça quebrada.
Quando eu vinha pela estrada.
Como ele estava vazio,
Não houve loiça quebrada.
684
Fernando Pessoa
A esmola que te vi dar
A esmola que te vi dar
Não me deu crença nem fé,
Pois a que estou a esperar
Não é esmola que se dê.
Não me deu crença nem fé,
Pois a que estou a esperar
Não é esmola que se dê.
1 415
Fernando Pessoa
Ouves-me sem me entender.
Ouves-me sem me entender.
Sorris sem ser porque falo.
É assim muita mulher.
Mas nem por isso me calo.
Sorris sem ser porque falo.
É assim muita mulher.
Mas nem por isso me calo.
1 262
Fernando Pessoa
Tu és Maria das Dores,
Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
1 491
Fernando Pessoa
Dona Rosa, Dona Rosa,/Quando eras inda botão
Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De a flor não ter coração?
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De a flor não ter coração?
1 603
Fernando Pessoa
O ribeiro bate, bate
O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.
1 356
Fernando Pessoa
Quando tiraste da cesta
Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.
1 296
Fernando Pessoa
D'outra vida mais bela
D'outra vida mais bela
A esperança já desesperada,
A gélida e constante aspiração.
A esperança já desesperada,
A gélida e constante aspiração.
1 232
Fernando Pessoa
Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
1 223
Fernando Pessoa
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
1 344
Fernando Pessoa
Deixa que um momento pense
Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
1 323
Fernando Pessoa
MEANINGLESS LlNES
I became good, and was despised.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
1 301
Fernando Pessoa
Entreguei-te o coração,
Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
1 586
Fernando Pessoa
O malmequer que arrancaste
O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.
1 396
Fernando Pessoa
Teus olhos querem dizer
Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
823
Fernando Pessoa
Fiz estoirar um cartucho
Fiz estoirar um cartucho
Contra a parede do lado.
Assim farei eu à vida,
Que o sonhar fez-me assoprado.
Contra a parede do lado.
Assim farei eu à vida,
Que o sonhar fez-me assoprado.
1 380
Fernando Pessoa
Dás nós na linha que cose
Dás nós na linha que cose
Para que pare no fim.
Por muito que eu pense e ouse,
Nunca dás nó para mim.
Para que pare no fim.
Por muito que eu pense e ouse,
Nunca dás nó para mim.
1 214
Fernando Pessoa
Deste-me um adeus antigo
Deste-me um adeus antigo
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.
850
Fernando Pessoa
O malmequer que colheste
O malmequer que colheste
Deitaste-o fora a falar.
Nem quiseste ver a sorte
Que ele te podia dar.
Deitaste-o fora a falar.
Nem quiseste ver a sorte
Que ele te podia dar.
1 828
Fernando Pessoa
I cannot well deceive me that there was
I cannot well deceive me that there was
In my love nobleness, even though ill.
Now that the tunnel through which I did pass
Yields to the glaring day, I can instil
Into my thought a wonder how I could
Suppose that way to be a place of staying;
Thus being a fool in the way all men should,
Yet not the complete fool to take no naying (!!!)
In my love nobleness, even though ill.
Now that the tunnel through which I did pass
Yields to the glaring day, I can instil
Into my thought a wonder how I could
Suppose that way to be a place of staying;
Thus being a fool in the way all men should,
Yet not the complete fool to take no naying (!!!)
1 322
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