Desejo

Poemas neste tema

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Dom Beeito, Home Duro

Dom Beeito, home duro,
foi beijar pelo oscuro
       a mia senhor.

Come home aventurado,
foi beijar pelo furado
       a mia senhor.

Vedes que gram desventura:
beijou pela fendedura
       a mia senhor.

Vedes que mui grand'abaco:
foi beijar polo buraco
       a mia senhor.
661
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Bom Grad'haja Deus

Amiga, bom grad'haja Deus
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
       que possa aquel dia veer
       que nunca vi maior prazer.

Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
       que possa aquel dia veer
       que nunca vi maior prazer.
743
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

ÚLTIMA TENTAÇÃO

E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
525
Renato Rezende

Renato Rezende

Luz

quero sangue, sangue, de ouro
quero bosta, bosta, de ouro
quero porra, porra, de ouro
quero corpo, corpo, de ouro
sangue bosta porra corpo
corpo corpo corpo corpo
corpo ouro corpo ouro
ouro ouro ouro ouro
ouro ouro ouro ouro
1 107
Renato Rezende

Renato Rezende

Solta

Quando a música mais doce chegar,
o murmúrio do gozo
da amada
a se contorcer contra o seu corpo,
não faça nada
que de cor já saiba.
A mente calada
colada no calor do outro
abre a porta
para o salto.

AGORA: SALTA!
996
Renato Rezende

Renato Rezende

A Boca

Quando, deitada na cama, me inclino
para beijar
suspirando
minha almofada;
o quê, quem, que boca
(delicadamente
delicadamente beijada)
estou beijando?


Boston, novembro 1990
895
Renato Rezende

Renato Rezende

A Mão

...
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados

por esta mão

(qual?)

que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
939
Renato Rezende

Renato Rezende

Desejo

Um anjo desejou outro anjo.
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.


Nova York, agôsto 1993
1 078
Renato Rezende

Renato Rezende

Asas de Papel

Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir


São Paulo, março 1996
977
Renato Rezende

Renato Rezende

Recordo

Cada desejo do teu coração
Eu quero responder.

Te levo à Ibéria,
Te faço bela.

Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)

És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
953
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Até perder

Meus 5 sentidos querem
                       olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
                                                          5 sentidos tocar os seus 5
                                          sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
                                                          os sentidos
730
Simone Brantes

Simone Brantes

Pote

Você acha que sexo é isso:
três
ou quatro
posições
e executá-las?
Você quer
muito
muito mesmo
que eu goze?
Então vamos por partes –
não se vai com tanta sede ao pote –
Primeiro: fabricar a sede
Segundo: fabricar o pote
Terceiro: deixar que a água jorre
769
Maria Lúcia Dal Farra

Maria Lúcia Dal Farra

Fruto proibido

Com suas nádegas lascivas de mulher
a maçã se deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.

Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim de delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.
670
Simone Brantes

Simone Brantes

Lapso

Um homem tira um grito das tripas,
do seu flautim medonho,
enquanto esfrega seu sexo contra a porta
do carro — pau e porra lhe pesando,
terríveis como poderíamos sentir se
por um acaso se tornasse
de um dolorido espanto este lapso:
não saber o que fazer com o que cai
de repente em nossas mãos.
509
Simone Brantes

Simone Brantes

O sol na cama

O dedo na rama e o sol na cama:
quanto vale o dia de quem ama?,
quanto? passá-lo em sua faina de
amor lado a lado, moita, mão, e
o sol derramado?
779
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Skin deep

Adorei a cor do teu vestido
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
837
Daniel Jonas

Daniel Jonas

DENTE-DE-LEÃO

A juba encanecida do dente-de-leão.
Eu soprei-a como velas
de aniversários
e ele envelheceu anos.

Ali, tão calvo agora, o ancião,
um leão glabro
entupido de testosterona,
um Sanção

com a sua cerviz rente
descravando
dos quadris da fêmea
a fome de uma semente.
680
José Bento

José Bento

2. OITAVA

Entre magra y gordinha é a figura
que deve ter a dama se é formosa;
e a meio entre a alvura e a negrura
é a cor de todas mais graciosa;
a meio entre a dureza e a brandura
é a carne de fêmea mais gostosa.
Enfim, há-de ter em tudo o meio,
pois o melhor de tudo é o do meio.
1 068
António Borges Coelho

António Borges Coelho

Quando a noite curva os ombros

Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre

Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol
676
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

PEDIDO

Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:

o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije

todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída

da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
747
Saúl Dias

Saúl Dias

Amo-te Tanto

Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?

Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!

Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...

Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
666
Halldór Laxness

Halldór Laxness

Assoma, ó Lua

Assoma, ó Lua,
Por trás das nuvens!
Brilhem no céu
estrelas nocturnas!
Luzes guiadoras,
levem-me junto do meu amor
para onde ele repousa, dormindo e só.

Silenciem um pouco
ventos rugidores,
silenciem torrentes velozes,
para que meus cantos
se oiçam nas colinas das tormentas
e me tragam o meu amado.


Gente Independente, edição Cavalo de Ferro
705
Everardo Norões

Everardo Norões

Corpo

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
586
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sapatos

quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 126