Cidade e Cotidiano
Poemas neste tema
Vando Coutinho
Anal
Nesta transa sem igual,
agindo como animal,
mas sendo mais racional,
já sei o nosso final:
beijinhos mil e pau-pau!
Rotina muito normal
na vida a dois de um casal;
camisetas no varal,
camisinhas no quintal...
agindo como animal,
mas sendo mais racional,
já sei o nosso final:
beijinhos mil e pau-pau!
Rotina muito normal
na vida a dois de um casal;
camisetas no varal,
camisinhas no quintal...
1 348
Murillo Mendes
Vermeer de Delft
É manhã no copo:
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
1 070
José Augusto Seabra
Proust em Bucareste
Falávamos de Proust em Bucareste, por dentro da manhã, calafetados,
e a música escorria pela neve em camadas de tempo esfacelado.
Nas vidraças doridas do silêncio cicatrizavam lábios devorados por frases torneadas do avesso que ouvíamos por fora,
só do lado donde Proust se lia em Bucareste
e a música escorria pela neve em camadas de tempo esfacelado.
Nas vidraças doridas do silêncio cicatrizavam lábios devorados por frases torneadas do avesso que ouvíamos por fora,
só do lado donde Proust se lia em Bucareste
992
João José Cochofel
Os Dias Íntimos
Mói música um realejo,
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.
Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,
Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.
Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.
Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,
Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.
Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.
1 370
Glauco Mattoso
Haicai
Vervelho
De ré, contramão
vem um fuscão, lusco-fusco
sob o minhocão
Via Bela Vista
Em forma de ovo:
o povo estranha a janela
do tróleibus novo.
De ré, contramão
vem um fuscão, lusco-fusco
sob o minhocão
Via Bela Vista
Em forma de ovo:
o povo estranha a janela
do tróleibus novo.
1 391
João Gulart de Souza Gomos
dia
encher d’água os pratos
e descobrir o óbulo
(há baratas!)
lavar a latrina e arrumar
almofadas no sofá
- costume dos antigos -
dor, rotina
videos, games
eletrônicos
barbitúricos coloridos
oligofônicos
tempos idos de filosofia
é noite é dia é noite
de manhã chovia
Goulart Gomes, Salvador, BA
e descobrir o óbulo
(há baratas!)
lavar a latrina e arrumar
almofadas no sofá
- costume dos antigos -
dor, rotina
videos, games
eletrônicos
barbitúricos coloridos
oligofônicos
tempos idos de filosofia
é noite é dia é noite
de manhã chovia
Goulart Gomes, Salvador, BA
725
Anízio Vianna
via olhos d’água
ao invés de heróis ulisses
um grafiti sem autoria
num muro da rua outono
e sua mão disfarçando o crime na camisa
dentro do ônibus,
enquanto trago um poema,
você tem fogo?
um grafiti sem autoria
num muro da rua outono
e sua mão disfarçando o crime na camisa
dentro do ônibus,
enquanto trago um poema,
você tem fogo?
950
Levi Bucalem Ferrari
Desvairada 80
Na multidão
Bundobolinas trafegam
Na contramão
Bundobolinas trafegam
Na contramão
827
Leonardo Aires Araujo
Domingo
Domingo
Casas vazias
Ruas vazias
Lugares cheios
Cheios de pessoas vazias
Com ocupações vazias
Ruas cheias
Casas cheias
A atmosfera está cheia de uma alegria triste
Ô dia vazio!
Casas vazias
Ruas vazias
Lugares cheios
Cheios de pessoas vazias
Com ocupações vazias
Ruas cheias
Casas cheias
A atmosfera está cheia de uma alegria triste
Ô dia vazio!
1 043
Carlos Nogueira Fino
indicação do lugar
chegamos a uma página em branco atravessada por
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina
é o exacto lugar
indiciador dos músculos
quem ousa escancarar as portas à cidade
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina
é o exacto lugar
indiciador dos músculos
quem ousa escancarar as portas à cidade
939
Fernando Pessoa
É inda quente o fim do dia...
É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.
13/07/1928
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.
13/07/1928
4 279
Fernando Pessoa
Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
12/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
12/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
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