Animais e Natureza

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Órbita de Verão — 2

Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
976
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Fruto Verde-Amarelo

Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
556
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Neste Campo

Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.

A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
995
Louise Glück

Louise Glück

Parábola da fera

O gato anda em círculos na cozinha
com o passarinho morto,
sua nova possessão.

Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:

nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.

Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
1 041
Odysséas Elýtis

Odysséas Elýtis

O tempo é a sombra célere dos pássaros

Meus olhos escancarados em meio às suas imagens

Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias

Entrementes a inocência
Despe sua última mentira

Doce doce peripécia
A Vida.
832
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Fonte

Um fauno, à tarde, procura onde beber;
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 099
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Pátio

Onde te encontrei: pomba
que pousa por instantes, que procura
uma saída sobre os muros, e
se perde por entre varandas e cordas.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 20 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 819
Ruy Belo

Ruy Belo

A beringela

É ela
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 452
Ruy Belo

Ruy Belo

Requiem por um bicho

Está tudo muito certo mas a gata
que outro mundo trará a gata que morreu?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 128
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Gregos

Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante
Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz
Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga
A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo
O meandro do rio o fogo solene da montanha
E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre
Emergiam em consciência que se vê
Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia —
Esta existência desejávamos para nós próprios homens
Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem
O estar-ser-inteiro inicial das coisas —
Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece
E também à treva interior por que somos habitados
E dentro da qual navega indicível o brilho
3 068
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

I. (Friso Arcaico)

«Eu vos saúdo, ó filhas dos corcéis de pés de tempestade.»
Simónides de Keos

Patas dos corcéis da tempestade
Tão concisas tão duras e tão finas
Puro rigor de espigas — arquitrave
Medida amor e fúria se combinam
Delphos, Maio de 1970
1 903
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Grutas

O esplendor poisava solene sobre o mar. E — entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido — quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é só solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.
3 819
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Persona

Mitológica personagem — parece
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito

Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
1 653
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Descobrimento

Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados

Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam suas crinas nos alísios

O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
2 230
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Enigma ornitológico

Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.


Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 288
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó pastora, ó pastorinha,

Ó pastora, ó pastorinha,
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.
1 830
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rouxinol que não cantaste,

Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
931
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Para quê complicar inutilmente,

Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
        Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 416
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O ar do campo vem brando,

O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 480
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - I

I

The hen said «I can fly».
        Do you know why?
Over a fence she flew.

The eagle said «Can I fly?»
        Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
1 225
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A ÍBIS

A Íbis, a ave do Egipto
Pousa sempre sobre um pé
O que é
Esquisito.
É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.
2 865
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Andorinha que passaste,

Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.
1 594
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Baila o trigo quando há vento

Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
2 685
Orides Fontela

Orides Fontela

A um passo

A um passo
do pássaro
res
piro.

2 275