Flores e Jardins
Poemas neste tema
Cecília Meireles
No mistério do sem-fim
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta
52 133
86
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Rosas
Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.
21 589
77
Eugénio de Andrade
Foi para ti que criei as rosas
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.
22 076
63
Eugénio de Andrade
Hoje roubei todas as rosas dos jardins
Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
25 693
55
Carlos Drummond de Andrade
Rosa Rosae
Rosa
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada
e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada
8 980
34
Juan Ramón Jiménez
Todas as rosas são a mesma rosa
Todas as rosas são a mesma rosa,
amor!, a única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
amor!, a única rosa.
amor!, a única rosa;
e tudo está contido nela,
breve imagem do mundo,
amor!, a única rosa.
11 364
25
Eugénio de Andrade
Rosa do Mundo
Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.
Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.
Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.
Quase nada.
Queimada.
Suja de tanta palavra.
Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.
Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.
Quase nada.
9 710
12
Carlos Drummond de Andrade
O criador
A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.
8 924
12
Vinicius de Moraes
As Abelhas
A aaaaaaabelha-mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão toooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.
Num zune que zune
Lá vão pro jardim
Brincar com a cravina
Valsar com o jasmim.
Da rosa pro cravo
Do cravo pra rosa
Da rosa pro favo
V olta pro cravo.
Venham ver como dão mel
As abelhinhas do céu!
E aaaaaaas abelhinhas
Estão toooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.
Num zune que zune
Lá vão pro jardim
Brincar com a cravina
Valsar com o jasmim.
Da rosa pro cravo
Do cravo pra rosa
Da rosa pro favo
V olta pro cravo.
Venham ver como dão mel
As abelhinhas do céu!
10 354
10
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jardim Perdido
Jardim em flor, jardim da impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidade e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidade e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
9 332
10
Cecília Meireles
O canteiro está molhado
O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."
6 799
7
Érico Veríssimo
Haicai
Serviço Consular
Com cartas brancas,
senhor cônsul solta
Pombos de papel.
Gota de orvalho
na corola dum lírio:
Jóia do tempo.
Com cartas brancas,
senhor cônsul solta
Pombos de papel.
Gota de orvalho
na corola dum lírio:
Jóia do tempo.
3 737
5
Carlos Drummond de Andrade
São flores ou são nalgas
São flores ou são nalgas
estas flores
de lascivo arabesco?
São nalgas ou são flores
estas nalgas
de vegetal doçura e macieza?
estas flores
de lascivo arabesco?
São nalgas ou são flores
estas nalgas
de vegetal doçura e macieza?
6 933
5
Manuel Botelho de Oliveira
Rosa na Mão de Anarda Envergonhada
Na bela Anarda uma rosa,
brilhando desvanecida,
padeceu por atrevida
menoscabos de formosa:
porém não, que vergonhosa
com mais bela galhardia
do que era dantes, se via;
pois quando se envergonhava,
mais vermelha se jactava,
mais formosa se corria.
brilhando desvanecida,
padeceu por atrevida
menoscabos de formosa:
porém não, que vergonhosa
com mais bela galhardia
do que era dantes, se via;
pois quando se envergonhava,
mais vermelha se jactava,
mais formosa se corria.
4 823
5
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sonhei Com Lúcidos Delírios
Sonhei com lúcidos delírios
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
À luz de um puro amanhecer
Numa planície onde crescem lírios
E há regatos cantantes a correr.
2 063
4
Corsino Fortes
Girassol
Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.
Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.
Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.
Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.
Amanheceu!
Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.
Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.
Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.
Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.
Amanheceu!
Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
4 324
4
Castro Alves
O CORAÇÃO
O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
O outro — voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
O outro — voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —
7 694
4
Fernando Pessoa
Coroai-me de rosas! [3]
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
12/06/1914 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
12/06/1914 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
7 505
4
Fernando Pessoa
33 - Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas mudavam...
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas mudavam...
2 966
4
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Flores
Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.
5 150
3
Júlia Lopes de Almeida
A laranjeira
Perfumada laranjeira,
Linda assim dessa maneira,
Sorrindo à luz do arrebol,
Toda em flores, branca toda
- Parece a noiva do Sol
Preparada para a boda.
E esposa do Sol, que a adora,
Com que cuidados divinos
Curva ela os ramos, agora!
E entre as folhas abrigados,
Seus filhos, frutos dourados,
Parecem sois pequeninos.
Linda assim dessa maneira,
Sorrindo à luz do arrebol,
Toda em flores, branca toda
- Parece a noiva do Sol
Preparada para a boda.
E esposa do Sol, que a adora,
Com que cuidados divinos
Curva ela os ramos, agora!
E entre as folhas abrigados,
Seus filhos, frutos dourados,
Parecem sois pequeninos.
5 032
3
Setsuko Geni Oyakawa
Haicai
Chuva fina
Alheio no canteiro
O gerânio brilha
Pétalas de seda
Flutuam, fazem festa
Borboletas
Alheio no canteiro
O gerânio brilha
Pétalas de seda
Flutuam, fazem festa
Borboletas
2 287
3
Amaryllis Schloenbach
Haicai
Angústia
O suor escorre
junto com as lágrimas
e o tempo.
Laborterapia
Rastrear adubo,
à tarde, no campo,
para as plantas da varanda.
O suor escorre
junto com as lágrimas
e o tempo.
Laborterapia
Rastrear adubo,
à tarde, no campo,
para as plantas da varanda.
1 045
3
José Régio
Novo epitáfio para um poeta
Na terra nua, as asas desdobraram,
Espigaram,
Deram flor.
Se ali passar alguém
Que tenha o olfacto fino e o dom do humor,
Dirá que aquele morto é um amor:
Dá flor e cheira bem.
Espigaram,
Deram flor.
Se ali passar alguém
Que tenha o olfacto fino e o dom do humor,
Dirá que aquele morto é um amor:
Dá flor e cheira bem.
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