Filhos

Poemas neste tema

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Poema à mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!

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Manuela Amaral

Manuela Amaral

Nasci-te

No meu ventre de mulher cresceu teu feto

e foi a minha boca que te deu palavras

e silêncios para tu gritares

Dos meus braços multipliquei teus braços

e dei distâncias para tu voares

Dei-te tempos-de-nada

medidos de coragem

E foste. E és.
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Ao Miguel

Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.
Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que a cegueira e cobardia?
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Miguel Torga

Miguel Torga

Lírica

No meu
jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive....
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!
O recuado
Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:
Este, de ser menino
Ao pé de ti......

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Federico García Lorca

Federico García Lorca

Canção Tonta

Mama.
Eu quero ser de prata.

Filho,
Terás muito frio.

Mama.
Eu quero ser de água.

Filho,
Terás muito frio.

Mama.
Borda-me em teu travesseiro.

Isso sim!
Agora mesmo!

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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

papai e mamãe

papai e mamãe
moram separados.
como só tenho um coração,
cada um mora de um lado.


In: TAVARES, Ulisses. Aos poucos fico louco. Il. Ota. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

NOTA: Publicado com título "Kramer With Kramer" no livro PULSO (1995
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Para Os 18 Meses de Marina Louise

sol sol
é minha pequena
menina
sol
no tapete –
sol sol
saindo pela
porta
colhendo uma
flor
esperando que eu
me levante
para
brincar.
um velho
emerge
de sua
cadeira,
castigado de batalha,
e ela olha
e só

amor, no que eu
me transformo
por meio de sua
majestade
de seu infinito
e mágico
sol.
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Malangatana Valente Ngwenya

Malangatana Valente Ngwenya

Amor Verde

Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom

Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Tu, Baby, ao leres um dia

Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -

Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.

Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!

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Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Maternidade

A Eliane

Vagidos de silêncio
enchem teu ventre,
enquanto esperas, ansiosa,
o instante de lágrimas
e de nervosos risos.

Mas, transposto o momento de incertezas,
descansarás, terna e bela, ao meu lado
na contemplação de um novo dia
que nasce.

917 1
Castro Alves

Castro Alves

Epitáfio

Para um túmulo de mãe.

COMO O ORVALHO das ramas do salgueiro
Resvala sobre a lápide do trilho,
Assim gotejam lágrimas de filho,
O Minha Mãe! sobre o sepulcro teu.
Mas como o sol nascente a gota enxuga
Que a noite derramou sobre os escolhos...
O anjo da Crença nos enxuga os olhos
E faz do pranto uma oração... no céu!

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Herberto Helder

Herberto Helder

I J

E aparece a criança;
mostra o braço: a água iluminada no ar, o braço
ceifando a água
— tudo tão do perigo da leveza, tão dos elementos
meteorológicos, instáveis,
que só agora a escrita o fixa e fecha
dentro das massas maternais ligadas
no profundo das trevas.
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Rodrigo Emílio

Rodrigo Emílio

PREFA(S)CIO II

De entre todos os motivos
porque sulco os loucos trilhos
de extermínio
em que me abismo,

sobressaem, sempre vivos:

os meus livros,
os meus filhos
e o fascínio
do fascismo.
858
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Problema existencial

Como esperar que você compreenda
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?

A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.

(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)

Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?

A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Carla

Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tomy

Este menino, que só
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oitava Camoniana para Fernanda

De Ely e Lorita, brandos, nasce a branda
(Vede da natureza o ideal concerto!),
Bonita e sem pecado algum Fernanda,
Que alegria dos pais será decerto.
E faça quem sobre o Universo manda
O mundo para ela um céu aberto,
Onde continuamente, como um dia
De claro sol, a vida lhe sorria.
1 063
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Anunciação

O anjo, embuçado
Num raio X,
Curvou-se e disse:
— Chico de Assis,
Senhora Eunice,
Queríeis filho?
Pois, Deus louvado,
Me maravilho,
Que ouvidos sois:
Dar-vos-á dois!
1 015
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sônia Maria

Sônia, filha de Gilberto
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Maria Isabel

Cresça em beleza, em simpatia e graças cresça A filha de Hilda e de João Victor, e eu, Manuel
Velho bardo, cada vez mais me desvaneça
De meu nome rimar com o seu, Maria Isabel.
1 055
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Acalanto de John Talbot

Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descansar,
Que te guardo eu.

8 de agosto de 1942
1 540
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ana Margarida Maria

Ana — Sant'Ana — principia.
Maria acaba. Entre elas brilha
Uma flor branca. E eis, maravilha
De pureza, graça, alegria,
Ana Margarida Maria.
1 230
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Alphonsus de Guimaraens Filho

Refrão de glória, eis vem no trilho
Do pai — dois mestres em refrães —
Trás Alphonsus de Guimaraens,
Alphonsus de Guimaraens Filho.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

John Talbot

John Talbot, John Talbot,
He's not very tall, but
He's a baby so sweet, so nice.
He looks like-a bird
And I never have heard
Of such kind, such lovely blue eyes.
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