Encontros e Desencontros
Poemas neste tema
Carlos Drummond de Andrade
Quadrilha
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Ulisses Tavares
Por um Triz
tão pouco.
o lugar que não se foi
olhar não cruzado
rua desviada
frase não ousada
mão recolhida instantes após.
amor que perdi
quem me ensinou.
In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF)
Fernando Pessoa
Loura a face que espia
Cose, debruçada à janela,
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.
Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.
Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fosse outro era história
Mas o outro nunca nasceu...
18/05/1932
Maria Teresa Horta
Dúvida
a tua voz
e a minha sensação de vácuo
de liberdades paralelas
ontem
esquinas encontradas
no ângulo dos lábios
Amor
a tua lâmpada de nevoeiro
sulcado
manhãs de aves
súbitas
com noites inventadas
nada
é o teu rosto
insetos de vertigem
sem paisagem.
Reinaldo Ferreira
Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.
É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
Pra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.
Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.
Christiane Tricerri
Canção para Cecília: “a Meireles”
Cecília por que me
chegaste agora?
Ainda respiro, mas morro
lentamente.
Oh, Cecília! Por que me
chegaste agora?
Ainda canto, mas vivo
lentamente.
E já não quero caminhar,
e vens me dizer que vôo!
Cineas Santos
Nada Além
e tudo é festa.
O amor bate a porta
e nada resta.
Heinrich Heine
EIN JÜNGLING
Que a um outro jovem cobiça.
Mas este outro a uma outra quer,
E, casando, sai da liça.
Despeitada, a jovem casa
Com outro, seja quem for.
E o primeiro enamorado
Sofre desgostos de amor.
Por ser stória muito antiga,
Não é menos nova, não:
E quando a alguém acontece
Quebra sempre o coração.
Fernando Pessoa
PRESSÁGIO
Vinham, louras, de preto
Ondeando até mim
Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.
Nos olhos toucas tinham
Reflexos de um jardim
Que não o por onde vinham
Na véspera do fim.
Mas passam... Nunca me viram
E eu quanto sonhei afim
A essas que se partiram
Na véspera do fim.
10/04/1927
Mário-Henrique Leiria
NOIVADO
e avançou, de mãos abertas
e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu
de terem muitos meninos
e não serem felizes.
É o que faz a miopia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
«Fernando Pessoa» Ou «Poeta Em Lisboa»
A tua sombra cruza o ângulo da praça
(Trémula incerta impossessiva alheia
E como escrita de lápis leve e baça)
E sob o voo das gaivotas passa
Atropelada por tudo quanto passa
Em sinal de sorte ou de desgraça
Lisboa, 1972
Fernando Pessoa
Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.
Laís Corrêa de Araújo
Adeus
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.
Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
Carlos Anísio Melhor
Ode
Contatos Leves
Não chegaram
com
ter
tua presença.
Mas é certeza solar
Que contém os fragmentos
por entre as horas e as horas
— Espaço aberto no tempo
Que tu existes aqui
Do teu múltiplo olhar.
E o mais
é
sentimento
Que esboça
Retrato
impresso
No ar.
Anízio Vianna
terra estrangeira
de você ser linda
e eu estar com frio
numa terra estrangeira
e acontece
de você viver a mil
e falar sozinha
num lugar que não é seu
e acontece
de você apagar essa lua
e rezar confusa com um terço
da fé que deus lhe deu
e acontece
de você criar coragem
no instante em que parto
para ter com os meus
Amália Bautista
As boas intenções
Esta manhã saí de casa
com várias intenções, todas muito firmes:
a de devorar o mundo,
a de me tornar invulnerável
ou invisível,
de acordo com as circunstâncias,
a de negar tudo o que quero negar,
a de me afirmar.
E mais uma ainda, acima das outras,
acima de todas:
procurar-te e dizer-te que te amo.
Mas não te encontrei.
Paio Soares de Taveirós
O Meu Amigo, Que Mi Dizia
que nunca mais migo viveria,
par Deus, donas, aqui é já.
Que muito m'el havia jurado
que me nom visse, mais, a Deus grado,
par Deus, donas, aqui é já.
O que jurava que me nom visse,
por nom seer todo quant'el disse,
par Deus, donas, aqui é já.
Melhor o fezo ca o nom disse:
par Deus, donas, aqui é já.
João Soares Coelho
Fui Eu, Madre, Lavar Meus Cabelos
a la fonte e paguei-m'eu delos
e de mi, louçana.
Fui eu, madre, lavar mias garcetas
a la fonte e paguei-m'eu delas
e de mi, louçana.
A la fonte [e] paguei-m'eu deles;
aló achei, madr', o senhor deles
e de mi, louçana.
[E], ante que m'eu d'ali partisse,
fui pagada do que m'el[e] disse
e de mi louçana.
D. Dinis
Pera Veer Meu Amigo,
que talhou preito comigo,
alá vou, madre.
Pera veer meu amado,
que mig'há preito talhado,
alá vou, madre.
Que talhou preito comigo;
é por esto que vos digo:
alá vou, madre.
Que mig'há preito talhado;
é por esto que vos falo:
alá vou, madre.
Airas Nunes
A Santiag'em Romaria Vem
el-rei, madr', e praz-me de coraçom
por duas cousas, se Deus me perdom,
em que tenho que me faz Deus gram bem:
ca ve[e]rei el-rei, que nunca vi,
e meu amigo, que vem com el i.
[...]
Renato Rezende
O Outro
vejo o reflexo do meu próprio susto,
e o espelho do meu verdadeiro rosto.
Nova York, julho 1994
Renato Rezende
Cupido
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
Charles Bukowski
É Claro
científicos
leva 325 anos para a última
célula do cérebro
detonar-se.
agora eu percebo que
a maioria das garotas
que encontrei em bares
e trouxe para minha casa
estava mentindo sobre
sua
idade.
Marina Colasanti
IA NO RUMO DE SEVILHA
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.
Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
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