Destino e Superação

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
16 677 38
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I. O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
...

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caminho da Índia

I

Ante o seu rosto pára a história
E detém-se o exército dos ventos
Tinha o futuro por memória.

Coração atento em frente à linha lisa
Do horizonte
Vontade inteira e precisa
Exacto pressentimento.
II

Que no largo mar azul se perca o vento
E nossa seja a nossa própria imagem.

Desejo de conhecimento
As tempestades deram-nos passagem.

E os lemes quebrados dos capitães mortos
E os náufragos azuis do fim do mundo
Na rota de todos os portos
No fundo do mar profundo
Com os seus braços ossos
E seus verdes destroços
Marcaram o caminho.
1 243 24
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Este homem que esperou

Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto

Este homem que esperou
à sombra duma árvore
mudar a direcção
ao seu pobre destino

Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra
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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Inscrições Sobre as Ondas

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Deus Escreve Direito

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
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João Apolinário

João Apolinário

Primavera nos dentes

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
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Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Ainda te falta dizer isto

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
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Alice Ruiz

Alice Ruiz

topa um pacto de sangue

topa um pacto de sangue
com essa cigana do futuro
que lê
o passado na tua boca
o presente no teu corpo
e nos teus olhos
tanto quanto nos astros?


Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VI. OS COLOMBOS

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

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Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes

Seja o que for


                              SEJA O QUE FOR
                              QUE SEJA O QUE
                              FOR QUE SEJA O
                              QUE FOR QUE SEJA
                              O QUE FOR QUE
                              SEJA O QUE FOR
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mandei Para o Largo o Barco Atrás do Vento

Mandei para o largo o barco atrás do vento
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse
Morto o vento.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Terceiro: O CONDE D. HENRIQUE

Todo começo é involuntáario.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.

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Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Legenda para a vida de um vagabundo

Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

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Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Resistir

Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vão na onda militar

Vão na onda militar
Os soldados a marchar
Com a banda a lhes tocar
O como têm que andar...

Vou na onda que é a vida
Com uma banda escondida
A tocar como hei-de estar
Entre essa marcha perdida.

Vou e durmo o meu caminho,
Como, no som do moinho,
Dorme o moleiro sozinho.
Durmo, mas sinto-me andar.


19/09/1933
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Fernando Sabino

Fernando Sabino

Certeza

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Navegadores

Eles habitam entre um mastro e o vento.

Têm as mãos brancas de sal
E os ombros vermelhos de sol.

Os espantados peixes se aproximam
Com olhos de gelatina.

O mar manda florir seus roseirais de espuma.

No oceano infinito
Estão detidos num barco
E o barco tem um destino
Que os astros altos indicam.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Áporo

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha.
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caminho

Na marcha pelo deserto eu sabia
Que alguns morreriam

Mas pensava sob o céu redondo
— Onde
O limite do meu amor da minha força?

E eis que morro antes do próximo oásis
Com a garganta seca e o peso
Ilimitado do sol sobre os meus ombros

Eis que morro cega de brancura
Cansada de mais para avistar miragens

Eu sabia
Que alguém
Antes do próximo oásis morreria
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Três Parcas

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tristão E Isolda

Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Movimento

Uma vibração obscura de certezas
Liberta de repente as linhas presas
E o jardim evadido dos seus traços
Sobe cambaleando nos espaços.

Era esta a partida que eu buscava,
Este o rumor de fuga que vibrava
Nos muros da prisão que me prendia.

Era este o tumulto que dormia
Na aparente quietude das folhagens,
Era este o destino que me unia
À suspensão vibrante das paisagens.



Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 77 | Edições Ática, 1974
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