Poemas neste tema

Vida

Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Os Bois

De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
1 113
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Numa praia

Em cada corpo recomeça o mundo,
mas onde então acaba este começo?
Amor não sabe mais o que é profundo,
vem da pele e respira só no verso.

Passamos a toalha pelo corpo,
com o suor a enxugar a morte:
há gotas de água fria no teu rosto,
em ti meus dedos lêem sua sorte.

Um riso nos chamou,fulgor ou seta,
e o dia se refez sem mais promessa.
Nos meus dedos ficou a ferida aberta:
só no teu corpo o mundo recomeça.
1 775
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

Recanto 2

Viver,entretanto,é ver,ir
vendoe também ver incluir dormirsem que nada se
desfaça ou excluano interior dos
sonhos.Pensemos no comércio de viver:passagem dos
naviosquando,a passar,se retêm a espessaàgua do tempo,da
tempestade.Um comércio,apenas-desvio da moedada trajectória
do ouro para o papel.Sempre viver
incluiu andar percorrer voarde avião ou com os braços
ou num ser de maisrodas que nos conduzaa
outro sentido ambulatório.

de Dezanove Recantos

3 203
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Da Janela do Hospital

Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
1 175
Ernesto de Melo e Castro

Ernesto de Melo e Castro

Autobiografia fenómeno-F(re)udiana

fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro

só não fui é paneleiro

fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro

só não fui é paneleiro

fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro

só não fui é paneleiro

fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro

só não fui é paneleiro

trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro

só não fui é paneleiro

e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro

só não sou é paneleiro.

1 277
Vicente Franz Cecim

Vicente Franz Cecim

Os grandes mestres

Os grandes mestres

há uma qualidade que os homens ignoram: viver é

menos

Queda que a pedra da memória

e mais do que as serpentes reconhecem: O odor humano

Está

entre as estrelas morrendo nos seus sonhos

e a terra fria afagada contra o peito

antes de lançar um sol sobre as suas vítimas

Se isso se parece um pouco com as residências do mal

e com casas perdidas em si mesmas,

foram os Cálices da espécie que deram à vida a nutrição e os tumultos

Eu falo da invenção da sede

Porque o homem é o animal de areia que dá sentido às fontes do real

e quanto a noite cai,

bebemos a água escura do ventre das mulheres

Mas vejam: o escorpião instalou as suas ferragens

O céu tem suas lágrimas em silêncio

O caracol da voz,

quando sussurra os enigmas da chuva,

sabe:

Quase nunca é tempo

Quase nunca é tempo

para o perfume do sangue

Quase nunca é tempo

de permanecer humano

Esses rios têm espelhos partidos, e tudo o que foi

submerso

é um caos perdido

1 057
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Para Onde?

Quando começar a me desintegrar
para onde escorrerão meus belos sentimentos
e as sensações palpáveis do meu corpo?
Para onde escorrerá
o conteúdo desta forma,
este aqui e este agora?
Haverá sobrante essência
do corpo que dessora?
Por quanto tempo ficarei pairando
no céu da sala, nas antologias e conversas,
numa indefinível aura literária
enquanto a carne se desfaz na urna funerária?
1 238
Pablo Neruda

Pablo Neruda

VIII - Ehrenburg

Quantos cães hirsutos,
focinhos de ponta brilhante,
rabos por trás de um móvel,
e logo mais pêlos,
mechas cinzentas, olhos
mais velhos que o mundo,
e uma mão
sobre o papel,
implantando a paz,
derrubando mitos,
vomitando fogo e silvando,
ou falando de simples amor
com a ternura
de um pobre padeiro.
É Ehrenburg.
É sua casa
em Moscou.
Ai quantas vezes,
fechado em sua casa,
pensei que não tinha paredes.
Ali entre quatro muros
o rio da vida,
o rio humano
entra e sai deixando
vidas, feitos, combates,
e o antigo Ehrenburg,
o jovem Ilya,
com este rio de terras e vidas
recolhe aqui e além
fragmentos, chispas,
ondas, beijos, chapéus,
e elabora
como um bruxo.
Tudo deita em seu forno,
de dia e de noite.
Dali saltam metais,
saltam espadas rubras,
grandes pães de fogo,
saltam vagas de ira,
bandeiras,
armas para dois séculos,
ferro para milhões,
e ele muito tranquilo,
hirsuto,
com suas mechas cinzentas,
fumando e cheio
de cinza.

De quando em quando
sai do forno
e quando julgas
que te vai fulminar,
o vês andando,
sorridente,
com as mais enrugadas calças do mundo:
vai plantar um jasmim
em sua casa de campo:
abre o vão,
mete as mãos,
como se fossem de seda
trata as raízes,
as enterra,
as rega,
e então com passinhos curtos,
com cinza, com barro, com folhas,
com jasmim, com história,
com todas as coisas do mundo
sobre os ombros,
afasta-se fumando.

Se queres saber algo de jasmins,
escreve-lhe uma carta.
1 116
Arsenii Tarkovskii

Arsenii Tarkovskii

O Verão

partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada…
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto

1 071
Natércia Freire

Natércia Freire

Assim

Assim por muito mais e muito
menosAssim por heroísmo e cobardia.Assim a tarde a noite
no momentoAssim pensar em mim quando
vivias.Assim os dedos longos nos cabelosDos mortos
abraçados e cativos.Assim esta miséria de estar
vivaE não saber estar viva quando vivo.Assim
nas brancas árvores o tempoAssim ter acabado o
meu destinoE ler-me noutros versos, noutros
nomesAssim desconhecer aonde habito.Assim por muito
mais e muito menosSe acaba, em vida, a vida ao
suicida.Assim por ser a hora mais cinzenta,O desamparo
assim da minha vida.

1 288
Natércia Freire

Natércia Freire

E levantam-se as pessoas

E levantam-se as pessoas

E levantam-se as
pessoascomo quem se adormecesse.Preparam-se para o
sonode uma vigília nas ruasnas casas e nos
empregos.E naufragam e sufocamnas avenidas do
Tempo.Conversam como quem fechacreches gaiolas
enterros-crianças aves e mortosNos sorrisos e nos
risosna lucidez dos reflexospensam os tristes dos
homensganhar os dias correndo.Mas são retidos nas
sombras.São amarrados aos ventosão sacudidos em
potrose forcas de entendimento.Eles que são
cabeleiras,nas chuvas de outros intentosnos rios e nas
goteiras.E levantam-se as pessoascomo quem fosse
viver.Dá o Sol por sobre o Diafaz o dia
apodrecer.(Maduro quer dizer Mortecom toda a
sabedoria)Deitam-se então as pessoaspara a morte de outro
dia.

1 356
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os invulneráveis

Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?

Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.

Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.

É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
1 022
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os anos

Vai o tempo baixando talvez em meu corpo, em teu corpo, uma rosa,
e como um termômetro a idade da rosa desce à terra;
é lenta e delgada a linha de sua inexorável estreiteza
e na transparência do dia caminha a sede na taça
e se vai minorando a chama do vinho em teu corpo;
a rosa que esteve na altura de tua cabeleira
infundindo a pompa fragrante da primavera
pendeu transbordando os olhos com água de espadas e relâmpagos de água-marinha,
pôs no nariz um tremor de adeio de voo na sombra
e o rastro que deixa o aroma veloz do veado na selva
tudo foi percebido, caçado, queimado e perdido:

a rosa duplica os lábios curiosos e ansiosos do enamorado,
levanta os peitos compactos das açucenas
e cresce a dura donzela como um obelisco
até derramar-se em carícias molhadas pelo embelezamento
e baixa a rosa no filho matando a mãe
e volta a brilhar seu fulgor na altura do homem que nasce,
até que no trânsito cai do sexo a rosa
e cambaleia a idade na noite do frio
até que a terra recolhe teu corpo que já não floresce.
Não conto a paisagem, não diga o viajante que eu o examino,
não diga que vejo através de seu corpo de vidro a idade que sustenta ou demole seus passos,
eu sou o distante que leva em suas veias sua vida e a minha
e se participo de sua alma compartilho com ele o outono
e no movimento estrelado das estações floridas
resguardo a parte da primavera que lhe corresponde.

Foi minha obrigação transparente viver outras vidas,
morrer outras mortes e ressuscitar entre gente que não me conhece.

É esta a hora do mar circundante e pela janela compreendo
a água infinita que não me interessa. Sabei, companheiros,
que os pescadores de ouriços saíram e vejo sua mínima nave
tocar o penhasco de Ilha Negra distanciar-se bailando na espuma
enquanto sobe e desce na onda um aziago debate:
a proa cai de bruços e cede o vazio
até que outra vez se estabelece na espuma seu nenúfar negro.

Desceu mascarado ao silêncio o que era Rodríguez
e agora com roupa de esqualo chama-se sigilo e ondula
buscando colado à pedra o calado organismo
que pulsa entreaberto colado à sua mãe infinita
até que a faca separe a vida e a pedra
e o homem regressa levando em um saco o molusco
sangrento.
1 093
Paulo de Tarso

Paulo de Tarso

Símiles

1.
As formigas levam
para escuros subterrâneos
folhas verdes e outras
migalhas da terra,
idéias e palavras
de infindáveis
conversas, meio
a organizadas rotas
de acumulação e intriga.
Frágeis e efêmeras
face à natureza poderosa
e à terra infinita
para seus curtos passos.
Industriosas formigas.

2.
As abelhas produzem
mais que o necessário
em labuta e lida.
Exploram a terra
e escrevem nos favos
impressões da viagem
dourada e florida.
Abelhas amealham
moeda excessiva,
herança desendereçam
a quem primeiro chega,
esbanja e utiliza.
É muito a colméia
para a pouca vida.

3.
As cigarras cantam
persistente cantiga,
ostinato canto
dura sua vida.
Ultrasônico pranto,
nênia, latomia,
vara desencanto,
soalheira, ferida
e outro tanto
que acaso exista
em fugitivo dia
de amor e morte,
lamento, acalanto,
perdulária poesia.

1 193
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Relógio

Nenhum igual àquele.

A hora no bolso do colete é furtiva,
a hora na parede da sala é calma,
a hora na incidência da luz é silenciosa.

Mas a hora no relógio da Matriz é grave
como a consciência.

E repete. Repete.

Impossível dormir, se não a escuto.
Ficar acordado, sem sua batida.
Existir, se ela emudece.

Cada hora é fixada no ar, na alma,
continua sonhando na surdez.
Onde não há mais ninguém, ela chega e avisa
varando o pedregal da noite.

Som para ser ouvido no longilonge
do tempo da vida.

Imenso
no pulso
este relógio vai comigo.
1 501
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Rua Em Mim

Rua do Areão, e vou submergindo
na pirâmide fofa ardente, areia
cobrindo olhos dedos pensamento e tudo.
Rua dos Monjolos, e me desfaço milho
pilado lancinante em água.
Rua do Cascalho, arrastam meus despojos
feridos sempremente. Rua Major Laje,
salvai, parente velho, este menino
desintegrado.
Rua do Matadouro, eu vi que sem remédio.
Rua Marginal, é sempre ao lado ao longe o amor.
Ao longe e sem passagem na Ladeira Estreita.
Rua Tiradentes, aprende e cala a boca.
Travessa da Fonte do Caixão, e tudo acaba?
Rua da Piedade, Rua da Esperança,
Rua da Água Santa, e ao úmido milagre
me purifico, e vida.
1 262
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Poema Imortal

Minha vida nada possui de vazio
Conheço o silêncio da solidão
O indestrutível silêncio do exílio.

Meus olhos cruzam campinas silentes
O belo encrostando-se
nas imagens que criei
lúcidas
jamais mortas ou recortadas
límpidas
Sinto que fluem para a verdade.

As imagens contempladas dos gestos
constroem prazeres
Não espero nada
que ainda volte de um poço sem fundo.

Quero respirar a poesia sem outra dor
Sem visões de falsa paz.

Mesmo que o tédio amargure séculos
Viverei o reverso libertado da morte
sem nada deixar sofrer.

1 092
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Presente Vivo

Viver
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
929
Cândida Alves

Cândida Alves

Todo corpo

Todo corpo
Toda vida explica nos seus rastros
Sempre uma notícia escrita nos seus traços
Todos os anseios no mover dos braços
Todo corpo traz um benefício sobre suas curvas
E algum sacrifício com lembranças turvas
Marca suas dobras
Todo corpo amado ou desolado chora
Toda sua virtude e seu pecado aflora
Todo corpo uma mente oculta
Todo corpo é alma enquanto vida pulsa

1 026
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Bichinho

Desmontei
as 11 peças
de um siri.
Sua alminha
toda branca
saiu de banda
por aí.

634
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Vida

Vem vida,
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...

Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.

Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.

Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.

Vem Vida,
Porque eu não posso...

969
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Oh ódio, sentimento incompreendido,

Oh ódio, sentimento incompreendido,
demiurgo do artifício, espectro fumegante
que ilumina os olhos cegos
dos amantes compulsivos!

Tu que ditas as regras entre
os amaldiçoados, decreptos
e infames. Licor sagrado
dos malditos infantes que com

vontade mataram sem
piedade as pobres criancinhas.
Aqui deixo relatado com a pena ungida de sangue
que, sem tu, sentimento inigualável

nós não seríamos felizes um dia,
por não ter conhecido então,
o lado escuro desta nossa vida.

790
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Aqui onde só o vento é testemunha,

Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.

Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?

Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.

Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.

Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!

958
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Rio

A água vai passando
limpinha, limpinha,
espelho do caminho
onde muita gente para,
a se mirar...

Fico olhando...
é bom ver a água passar.

Fraquinha,
na gruta escondida nasceu.
Bebeu o orvalho da serra,
pelo vale desceu,
retratando a paisagem.
E as folhas emurchecidas,
a sua frescura,
reverdeceram-se
milagrosamente.

Rio, recebeu riachos e córregos,
cresceu... ficou importante,
e pontes ganhou
para a estrada
que o engenheiro
traçou.

Encontrou umas pedras,
tropeçou... e, em caídas e quedas,
morro abaixo rolou,
virou cachoeira,
girou, girou,
energia e força
fazendo gerar.

Ergueu-se
em saltos de espuma
e, lá longe, longe
se abriu em remanso...
Foi descansar
junto aos boizinhos
que estavam a pastar...

Depois , as cidades
irá limpar,
antes de correr pro mar.

Destino de água corrente,
faz a gente pensar.

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