Poemas neste tema

Vida

Maria do Carmo Verza Sartori

Maria do Carmo Verza Sartori

O Íntimo da Rosa

O íntimo da rosa busca reentrâncias
retorna a si
despetálam-se uma a uma
as camadas que nos protegem

Somos sãos
círculos...
Somos sons, cores, bichos...

Somos a rosa!
perfume, mistério, juventude
fugaz beleza
essência divina que sempre retorna.

883
António de Navarro

António de Navarro

Poema IV

Ópera humana...
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.

...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!

Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano

Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!

Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!

1 041
Machado de Assis

Machado de Assis

Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

2 330
Ana Paula Ribeiro Tavares

Ana Paula Ribeiro Tavares

Cerimônia de Passagem

"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"

a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto

a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho

o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto

o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio

"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"

Luanda, 85

2 480
Raimundo Braga Martins

Raimundo Braga Martins

O Tempo e o Homem

O Tempo e o Homem

Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!

Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!

A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!

E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!

É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!

O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos

801
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó curva do horizonte, quem te passa,

Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.

Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 400
Mário Hélio

Mário Hélio

9-IX (Odores)

pobres flores que fiam
filhas finitas
e se des pet alam
olhando o po m ar
e em enormes tristezas se calam
e resv alam as pét alas
suprindo a fome do oceano de ar.
flores selvagens que se desfloram
e se confragem frágeis imperfeitas
vestidas, sorvidas, vertidas,
em pouca vida e muita ilusão,
e não repousam nunca, não descansam
o cansaço de há séculos serem sempre vivas
esquivas, cativas, passivas,
e dançam em delírio, dançam
esquecendo que são flores -- fenescem
melhor do que enterarrarassementes
dispersá-las à tarde
despertálas é tarde
já se transformaram em cardos
na tarde longa e oblonga por trás dos rochedos.
eu não canto a saudade, desconheço o degredo.
o meu sonho é um segredo improfíquo que segrego.
podres odres das flores que nascem pra definhar,
pobres dos homens que vivem para sonhar.

665
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Poema do sol de amanhã

Um corpo magro
caminho lentamente
como soubesse ser a vida
um facho de luz.

Como soubesse que as palavras
encerram um sentido
às vezes incompreensíveis
a certos olhos.

O caminho contém pedregulhos
esparsas incertezas
momentâneas alegrias
de descobrir que algo está errado.

Quando a noite chegar
brincará de contar estrelas
e no berço de feno
sonhará com belezas.

Levantará cedo
quando o sol traçar seu primeiro perfil
como uma avenida iluminada

o mundo é uma grande avenida iluminada
que brilha para alguns

Então sua caminhada reiniciará

o longo caminho dos que não têm para [onde ir

745
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Delírio Legível

à Maria Teresa Dias Furtado
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)

Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso

Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água

Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)

Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra

Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira

Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar

Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável

Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais

Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco

Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue

Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
1 063
Mário Hélio

Mário Hélio

13-III(Quid Novi)

a velhice das plantas
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.

856
Bruno Kampel

Bruno Kampel

Dizer

Dizer
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
853
Mário Hélio

Mário Hélio

11-I(Formas)

vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.

não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.

teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?

cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.

não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.

918
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Cais

O cais é o fim
e o início
chegada e ponto de partida.

Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)

Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.

Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.

Um bem estar me habita.

Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.

935
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Soneto Patético

Acordo para um mundo novo no jornal.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.

Refaço o mundo com exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
Refugio-me no trabalho — há paz como um véu.

As horas vão... e a tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.

Tranco-me em casa, e o mundo sangra na TV.
Sangue do meu sangue, tudo se esvai. Enfim,
durmo, não sei quem te viu, não sei quem me vê.

1 223
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Viver e morrer

Viver por viver,
não é viver.

Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.

Viver e morrer
que um dia há de ser,

— mas nunca morrer sem viver

519
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Trilogia

nascimento

— nasceu nas horas
que precedem
a fome

vida

— cresceu com fome

morte

— morreu de fome

794
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Mãos

As mãos não falam
por si,
mas pelos gestos;

mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.

As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,

aridez de sentimentos
a povoar o mundo

Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.

988
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Calle con almacén rosado

Ya se le van los ojos a la noche en cada bocacalle
y es como una sequía husmeando lluvia.
Ya todos los caminos están cerca,
y hasta el camino del milagro.
El viento trae el alba entorpecida.
El alba es nuestro miedo de hacer cosas distintas y se nos viene encima.
Toda la santa noche he caminado
y su inquietud me deja
en esta calle que es cualquiera.
Aquí otra vez la seguridad de la llanura
en el horizonte
y el terreno baldío que se deshace en yuyos y alambres
y el almacén tan claro como la luna nueva de ayer tarde.
Es familiar como un recuerdo la esquina
con esos largos zócalos y la promesa de un patio.
¡Qué lindo atestiguarte, calle de siempre, ya que te miraron tan pocas cosas mis días!
Ya la luz raya el aire.
Mis años recorrieron los caminos de la tierra y del agua
y sólo a vos te siento, calle dura y rosada.
Pienso si tus paredes concibieron la aurora,
almacén que en la punta de la noche eres claro.
Pienso y se me hace voz ante las casas
la confesión de mi pobreza:
no he mirado los ríos ni la mar ni la sierra,
pero intimó conmigo la luz de Buenos Aires
y yo forjo los versos de mi vida y mi muerte con esa luz de calle.
Calle grande y sufrida,
eres la única música de que sabe mi vida.


"Luna de enfrente" (1925)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 63 e 64 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 271
Maria da Costa Lage

Maria da Costa Lage

Haicai

A chuva a descer,
como tristeza fininha,
vai filtrando o ser.

A bola batida
no pingue-pongue estonteia,
assim como a vida.

891
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Do partir e do voltar

Partir. Voltar.
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.

Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.

E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...

915
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Eu

Eu sou aquele
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.

Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...

Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...

O JORNAL - 14.04.96

932
Amílcar Dória

Amílcar Dória

Eu vou contar a história de uma lida

1.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.

Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.

O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento

que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.

876
Luiz Lopes Sobrinho

Luiz Lopes Sobrinho

O Amor

Sem amor, este mundo é um exílio!
Sem amor, nosso lar é uma prisão!
Sem amor, não há mãe e nem há filho!
Sem amor, não nos pulsa o coração!

Sem amor, não há paz nem alegria!
Sem amor, tudo, enfim, é solitário!
Sem amor, os tormentos de um só dia
São iguais aos tormentos do Calvário!

Ai! o amor não traz só felicidade!
Também traz, o amor, imensas dores,
Dessas dores que nascem da saudade!

Mas, é muito melhor ser desgraçado,
Sofrer do próprio amor os dissabores,
Que ser feliz e nunca ter amado!

1 228
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Mi vida entera

Aquí otra vez, los labios memorables, único y semejante a vosotros.
He persistido en la aproximación de la dicha y en la intimidad de la pena.
He atravesado el mar. He conocido muchas tierras; he visto una mujer y dos o tres hombres.
He querido a una niña altiva y blanca y de una hispánica quietud.
He visto un arrabal infinito donde se cumple una insaciada inmortalidad de ponientes.
He paladeado numerosas palabras.
Creo profundamente que eso es todo y que ni veré ni ejecutaré cosas nuevas.
Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en pobreza y en riqueza a las de Dios y a las de todos los hombres.


"Luna de enfrente" (1925)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 77 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 446