Poemas neste tema
Vida
António Ramos Rosa
Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito
Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
1 127
Fernando Pessoa
A vida é para os inconscientes (Ó Lydia, Celimène, Daisy)
A vida é para os inconscientes (Ó Lydia, Celimène, Daisy)
E o consciente é para os mortos — o consciente sem a Vida...
Fumo o cigarro que cheira bem à mágoa dos outros,
E sou ridículo para eles porque os observo e me observam.
Mas não me importo.
Desdobro-me em Caeiro e em técnico
— Técnico de máquinas, técnico de gente, técnico da moda —
E do que descubro em meu torno não sou responsável nem em verso.
O estandarte roto, cosido a seda, dos impérios de Maple —
Metam-no na gaveta das coisas póstumas e basta...
E o consciente é para os mortos — o consciente sem a Vida...
Fumo o cigarro que cheira bem à mágoa dos outros,
E sou ridículo para eles porque os observo e me observam.
Mas não me importo.
Desdobro-me em Caeiro e em técnico
— Técnico de máquinas, técnico de gente, técnico da moda —
E do que descubro em meu torno não sou responsável nem em verso.
O estandarte roto, cosido a seda, dos impérios de Maple —
Metam-no na gaveta das coisas póstumas e basta...
1 418
Angela Santos
Chama
Atento no remurejar da alma
onde correm todas as marcas
como sargaços rumo à foz
dos dias brancos.
Tantos invernos entremeados
pela luz que ascende desse jardim,
onde ardem todas as promessas
de ouro, a viagem onde me circum-navego...
Quantos sonhos
quantos sóis arderam no caminho?
De luz sempre a busca,
ainda hoje se espelha
nas gotas de chuva onde me abrigo
neste canto do mundo...
De luz, de explosões
matinais é a fome
do que em mim
chamo de alma.
onde correm todas as marcas
como sargaços rumo à foz
dos dias brancos.
Tantos invernos entremeados
pela luz que ascende desse jardim,
onde ardem todas as promessas
de ouro, a viagem onde me circum-navego...
Quantos sonhos
quantos sóis arderam no caminho?
De luz sempre a busca,
ainda hoje se espelha
nas gotas de chuva onde me abrigo
neste canto do mundo...
De luz, de explosões
matinais é a fome
do que em mim
chamo de alma.
933
Daniel Faria
Um coração de sangue
Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença
Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-
Peço um coração
Nuclear
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença
Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-
Peço um coração
Nuclear
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 987
Tomáz Kim
Campo de Batalha
1
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
1 581
Aloísio Miguel Marques
Sem Nome
A vida que a gente vive é um quadro que se pinta.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
661
Moacyr Felix
Porque
A Márcia e Jorge Vanderley
Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.
O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.
Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.
Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.
O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.
Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.
Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
1 266
Fernando Pessoa
O que pensando sofreu
O que pensando sofreu
Na loucura foi feliz.
Ah, vem comigo, que és meu.
Hei-de levar-te ao país
Do qual ninguém nada diz
E que ninguém concebeu.
Nem Deus, nem céu, nem inferno
Nem vidas ou morte
No incompreensível eterno
Que abriu teu pensar profundo.
Vem, dos teus olhos se esvaia
Bem e mal; e p'ra ti caia
Minha sombra sobre o mundo.
A opressão do mistério
Mancha-te a alma de luz;
Vem comigo que avanço
Além do vago sidério,
Transluz.
Vamos além do descanso,
Vamos para além da luz.
Triste que riu e chorou
E, além do rir e chorar,
Por pensamentos passou...
Vem a mim que eu sei amar.
FAUSTO:
Oh, Morte, vem-me levar!
MORTE:
Vem, oh meu filho, aqui estou.
Na loucura foi feliz.
Ah, vem comigo, que és meu.
Hei-de levar-te ao país
Do qual ninguém nada diz
E que ninguém concebeu.
Nem Deus, nem céu, nem inferno
Nem vidas ou morte
No incompreensível eterno
Que abriu teu pensar profundo.
Vem, dos teus olhos se esvaia
Bem e mal; e p'ra ti caia
Minha sombra sobre o mundo.
A opressão do mistério
Mancha-te a alma de luz;
Vem comigo que avanço
Além do vago sidério,
Transluz.
Vamos além do descanso,
Vamos para além da luz.
Triste que riu e chorou
E, além do rir e chorar,
Por pensamentos passou...
Vem a mim que eu sei amar.
FAUSTO:
Oh, Morte, vem-me levar!
MORTE:
Vem, oh meu filho, aqui estou.
1 288
Fernando Pessoa
Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Sem um suspiro abandonemos Cristo
E a febre de buscarmos
Um deus dos dualismos.
E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
Nos restitua o antigo
Sentimento da vida.
Sem um suspiro abandonemos Cristo
E a febre de buscarmos
Um deus dos dualismos.
E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
Nos restitua o antigo
Sentimento da vida.
1 459
Jorge Luis Borges
La recoleta
Convencidos de caducidad
por tantas nobles certidumbres del polvo,
nos demoramos y bajamos la voz
entre las lentas filas de panteones,
cuya retórica de sombra y de mármol
promete o prefigura la deseable
dignidad de haber muerto.
Bellos son los sepulcros,
el desnudo latín y las trabadas fechas fatales,
la conjunción del mármol y de la flor
y las plazuelas con frescura de patio
y los muchos ayeres de a historia
hoy detenida y única.
Equivocamos esa paz con la muerte
y creemos anhelar nuestro fin
y anhelamos el sueño y la indiferencia.
Vibrante en las espadas y en la pasión
y dormida en la hiedra,
sólo la vida existe.
El espacio y el tiempo son normas suyas,
son instrumentos mágicos del alma,
y cuando ésta se apague,
se apagarán con ella el espacio, el tiempo y la muerte,
como al cesar la luz
caduca el simulacro de los espejos
que ya la tarde fue apagando.
Sombra benigna de los árboles,
viento con pájaros que sobre las ramas ondea,
alma que se dispersa entre otras almas,
fuera un milagro que alguna vez dejaran de ser,
milagro incomprensible,
aunque su imaginaria repetición
infame con horror nuestros días.
Estas cosas pensé en la Recoleta,
en el lugar de mi ceniza.
"Fervor de Buenos Aires", 1923
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 19 e 20 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
por tantas nobles certidumbres del polvo,
nos demoramos y bajamos la voz
entre las lentas filas de panteones,
cuya retórica de sombra y de mármol
promete o prefigura la deseable
dignidad de haber muerto.
Bellos son los sepulcros,
el desnudo latín y las trabadas fechas fatales,
la conjunción del mármol y de la flor
y las plazuelas con frescura de patio
y los muchos ayeres de a historia
hoy detenida y única.
Equivocamos esa paz con la muerte
y creemos anhelar nuestro fin
y anhelamos el sueño y la indiferencia.
Vibrante en las espadas y en la pasión
y dormida en la hiedra,
sólo la vida existe.
El espacio y el tiempo son normas suyas,
son instrumentos mágicos del alma,
y cuando ésta se apague,
se apagarán con ella el espacio, el tiempo y la muerte,
como al cesar la luz
caduca el simulacro de los espejos
que ya la tarde fue apagando.
Sombra benigna de los árboles,
viento con pájaros que sobre las ramas ondea,
alma que se dispersa entre otras almas,
fuera un milagro que alguna vez dejaran de ser,
milagro incomprensible,
aunque su imaginaria repetición
infame con horror nuestros días.
Estas cosas pensé en la Recoleta,
en el lugar de mi ceniza.
"Fervor de Buenos Aires", 1923
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 19 e 20 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
5 818
Juscelino Vieira Mendes
Fim Natural
És o fim natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
935
Walmir Ayala
Arte Poética
A Jorge Octávio Mourão
Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer
assim
faço poema, às vezes.
Faço poema sempre como vivo.
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.34
Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer
assim
faço poema, às vezes.
Faço poema sempre como vivo.
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.34
2 488
Fernando Pessoa
Sofro, Lídia, do medo do destino. [1]
Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
1 455
Jorge Luis Borges
El reloj de arena
Está bien que se mida con la dura
Sombra que una columna en el estío
Arroja o con el agua de aquel río
En que Heráclito vio nuestra locura
El tiempo, ya que al tiempo y al destino
Se parecen los dos: la imponderable
Sombra diurna y el curso irrevocable
Del agua que prosigue su camino.
Está bien, pero el tiempo en los desiertos
Otra substancia halló, suave y pesada,
Que parece haber sido imaginada
Para medir el tiempo de los muertos.
Surge así el alegórico instrumento
De los grabados de los diccionarios,
La pieza que los grises anticuarios
Relegarán al mundo ceniciento
Del alfil desparejo, de la espada
Inerme, del borroso telescopio,
Del sándalo mordido por el opio
Del polvo, del azar y de la nada.
¿Quién no se ha demorado ante el severo
Y tétrico instrumento que acompaña
En la diestra del dios a la guadaña
Y cuyas líneas repitió Durero?
Por el ápice abierto el cono inverso
Deja caer la cautelosa arena,
Oro gradual que se desprende y llena
El cóncavo cristal de su universo.
Hay un agrado en observar la arcana
Arena que resbala y que declina
Y, a punto de caer, se arremolina
Con una prisa que es del todo humana.
La arena de los ciclos es la misma
E infinita es la historia de la arena;
Así, bajo tus dichas o tu pena,
La invulnerable eternidad se abisma.
No se detiene nunca la caída
Yo me desangro, no el cristal. El rito
De decantar la arena es infinito
Y con la arena se nos va la vida.
En los minutos de la arena creo
Sentir el tiempo cósmico: la historia
Que encierra en sus espejos la memoria
O que ha disuelto el mágico Leteo.
El pilar de humo y el pilar de fuego,
Cartago y Roma y su apretada guerra,
Simón Mago, los siete pies de tierra
Que el rey sajón ofrece al rey noruego,
Todo lo arrastra y pierde este incansable
Hilo sutil de arena numerosa.
No he de salvarme yo, fortuita cosa
De tiempo, que es materia deleznable.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 113 e 114 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Sombra que una columna en el estío
Arroja o con el agua de aquel río
En que Heráclito vio nuestra locura
El tiempo, ya que al tiempo y al destino
Se parecen los dos: la imponderable
Sombra diurna y el curso irrevocable
Del agua que prosigue su camino.
Está bien, pero el tiempo en los desiertos
Otra substancia halló, suave y pesada,
Que parece haber sido imaginada
Para medir el tiempo de los muertos.
Surge así el alegórico instrumento
De los grabados de los diccionarios,
La pieza que los grises anticuarios
Relegarán al mundo ceniciento
Del alfil desparejo, de la espada
Inerme, del borroso telescopio,
Del sándalo mordido por el opio
Del polvo, del azar y de la nada.
¿Quién no se ha demorado ante el severo
Y tétrico instrumento que acompaña
En la diestra del dios a la guadaña
Y cuyas líneas repitió Durero?
Por el ápice abierto el cono inverso
Deja caer la cautelosa arena,
Oro gradual que se desprende y llena
El cóncavo cristal de su universo.
Hay un agrado en observar la arcana
Arena que resbala y que declina
Y, a punto de caer, se arremolina
Con una prisa que es del todo humana.
La arena de los ciclos es la misma
E infinita es la historia de la arena;
Así, bajo tus dichas o tu pena,
La invulnerable eternidad se abisma.
No se detiene nunca la caída
Yo me desangro, no el cristal. El rito
De decantar la arena es infinito
Y con la arena se nos va la vida.
En los minutos de la arena creo
Sentir el tiempo cósmico: la historia
Que encierra en sus espejos la memoria
O que ha disuelto el mágico Leteo.
El pilar de humo y el pilar de fuego,
Cartago y Roma y su apretada guerra,
Simón Mago, los siete pies de tierra
Que el rey sajón ofrece al rey noruego,
Todo lo arrastra y pierde este incansable
Hilo sutil de arena numerosa.
No he de salvarme yo, fortuita cosa
De tiempo, que es materia deleznable.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 113 e 114 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 595
Juscelino Vieira Mendes
Como será o céu?
Lá no céu, como seremos?
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
1 144
Juscelino Vieira Mendes
Ato de Dormir
O dormir: ante-sala da morte
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
1 192
Luiz Carlos Freitas
Flor da Vida
VIDA não há no interior das rochas que formam o topo das montanhas,
Mesmo assim a vegetação as recobre em cor.
Por mais que se tente tocá-las em tamanha altura,
Parece que Deus, só a ti permitiste,...FLOR.
VIDA feliz do Beija-Flor!
Te beija com doces e precisos toques, sem dor.
Se só a ti foi permitido tocar as rochas,
Por que não me divides com esse pássaro,...FLOR?
VIDA que a natureza reservou para fazer-te bela !
Podes ser acariciada por delicados insetos, com amor.
Já tens tantos atributos que a diferencia do mundo,
Por que não me odorizas com teu perfume,...FLOR ?
VIDA simples levas cravada num mesmo lugar ao chão.
Para se movimentar precisa de luz e calor.
Se só o vento te toca as pétalas e te assanhas tanto,
Por que não permites, ao menos, soprar-te,...FLOR?
VIDA ! Que estranha vida dessas espécies, que os jardins enfeitam !
Quando muda a estação, desaparecem como vapor.
Se morrerias logo após a primavera,
Por que me coloriste tanto com teu pólen,...FLOR?
14/06/96
Mesmo assim a vegetação as recobre em cor.
Por mais que se tente tocá-las em tamanha altura,
Parece que Deus, só a ti permitiste,...FLOR.
VIDA feliz do Beija-Flor!
Te beija com doces e precisos toques, sem dor.
Se só a ti foi permitido tocar as rochas,
Por que não me divides com esse pássaro,...FLOR?
VIDA que a natureza reservou para fazer-te bela !
Podes ser acariciada por delicados insetos, com amor.
Já tens tantos atributos que a diferencia do mundo,
Por que não me odorizas com teu perfume,...FLOR ?
VIDA simples levas cravada num mesmo lugar ao chão.
Para se movimentar precisa de luz e calor.
Se só o vento te toca as pétalas e te assanhas tanto,
Por que não permites, ao menos, soprar-te,...FLOR?
VIDA ! Que estranha vida dessas espécies, que os jardins enfeitam !
Quando muda a estação, desaparecem como vapor.
Se morrerias logo após a primavera,
Por que me coloriste tanto com teu pólen,...FLOR?
14/06/96
990
Mário Donizete Massari
Reconstrução
Reconstruir a fé
Moldada em desejos
vãos
Sentir-se parte do todo
projeto da reconstrução
sem brilho nos olhos
mas brilhos nas mãos
tecer gestos
construir corações
caminhos serão palavras
e as palavras nossas armas
para que juntos possamos
construir a nossa paz
Reconstruir a vida
no sentido mais amplo
e acima de tudo
sentir-se projeto da reconstrução
Moldada em desejos
vãos
Sentir-se parte do todo
projeto da reconstrução
sem brilho nos olhos
mas brilhos nas mãos
tecer gestos
construir corações
caminhos serão palavras
e as palavras nossas armas
para que juntos possamos
construir a nossa paz
Reconstruir a vida
no sentido mais amplo
e acima de tudo
sentir-se projeto da reconstrução
653
Juscelino Vieira Mendes
Tormento
Para Maristela Mendes
Porque, enquanto um homem permanece
entre os vivos, há esperança.
Eclesiastes, IX, 4
Há essa angústia de ser humano
E os répteis
se entrincheiram no hospital
E os vermes
se preparam para devorar uma linda criança
Indecorosa orgia da dor
Cruel da degenerescência humana...
E há essa indiferença de ser humano
que transcende as raias do absurdo
Insensatez:
"Onde está o teu crachá?"
"Não tem ninguém para examinar o sangue!"
"Já estou no meu horário de saída..."
E há essa alegria de ser humano
De ter com quem contar
Ter a quem buscar
Que paira sobre todos
E a todos domina
E ama
E há essa esperança de ser humano
Na manhã que vem suave e forte
sobre a embriaguez sonora do vento
apavorando vermes e répteis
E entre a angústia, alegria e esperança
um trilho imenso de leito ao lar
onde enfermeiras e médicos
crachás e pessoas; vozes e braços
harmonizam o cântico singelo e belo:
"Ela está salva — vai!...
Maristela vive — vem!."
Domingo, 29 de julho de 1990.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
Porque, enquanto um homem permanece
entre os vivos, há esperança.
Eclesiastes, IX, 4
Há essa angústia de ser humano
E os répteis
se entrincheiram no hospital
E os vermes
se preparam para devorar uma linda criança
Indecorosa orgia da dor
Cruel da degenerescência humana...
E há essa indiferença de ser humano
que transcende as raias do absurdo
Insensatez:
"Onde está o teu crachá?"
"Não tem ninguém para examinar o sangue!"
"Já estou no meu horário de saída..."
E há essa alegria de ser humano
De ter com quem contar
Ter a quem buscar
Que paira sobre todos
E a todos domina
E ama
E há essa esperança de ser humano
Na manhã que vem suave e forte
sobre a embriaguez sonora do vento
apavorando vermes e répteis
E entre a angústia, alegria e esperança
um trilho imenso de leito ao lar
onde enfermeiras e médicos
crachás e pessoas; vozes e braços
harmonizam o cântico singelo e belo:
"Ela está salva — vai!...
Maristela vive — vem!."
Domingo, 29 de julho de 1990.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
1 035
Mário Donizete Massari
Rotina
Amanheceu
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou
A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento
A rádio anuncia
Nota de falecimento
Mais uma alma que vai
Para onde?
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou
A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento
A rádio anuncia
Nota de falecimento
Mais uma alma que vai
Para onde?
859
Lya Carvalho Jardim
Essa Sou Eu
Se perguntarem por mim
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.
1 031
Mário Donizete Massari
Monafa
Notícia de Jornal
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"
M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"
N ascia com a brancura do dia
A manhecia
F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa
Renascia com a morte que lhe sorria
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"
M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"
N ascia com a brancura do dia
A manhecia
F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa
Renascia com a morte que lhe sorria
1 030
Juscelino Vieira Mendes
O Salvador
Porque isto é bom e agradável
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
1 009
Fernando Pessoa
Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De coisas que não chegou a haver,
Há gente que nunca é adulta sem [...]!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca —
E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De coisas que não chegou a haver,
Há gente que nunca é adulta sem [...]!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca —
E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.
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