Vida
Susana Thénon
Mundo
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
Angela Santos
Vibração
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está
As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.
Angela Santos
Onda dos Sentidos
onda dos sentidos é que nos leva
para longe do mundo e da luta
que nos cansa,
ao encontro do instante
único,
onde se funde e refaz
o nosso ser irmão
Na calma do olhar com que me tocas
solto os meus medos
e dou-me,
o corpo em chama
e a alma vaga de cuidados
no corpo quente que se dá
estremeço
nos seus sinais te descubro
e a mim decifro
esquecida do mundo,
no êxtase de luz,
amando… vivo!
Gláucia Lemos
Poema ao Amor Recém-Nascido
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
Daniel Faria
Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença
Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-
Peço um coração
Nuclear
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Mário Donizete Massari
Alicerce
de cada coração
nos gestos trabalhados
de cada ato.
Nas avenidas iluminadas
no pátio das universidades
nos pensamentos obscenos
que ora nos invadem.
Nos gritos abafados
na noite
nos movimentos especulativos
da morte.
Nas rondas soturnas das estrelas, a nos
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ESTÁ O ALICERCE DO PROJETO
[QUE É A VIDA
Aleilton Fonseca
motivo
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
Adão José Pereira
A Vida
Que o Pai Celeste assinou,
E com habilidade infinda
Afeto e ternura expressou.
Porém ela é veloz e passageira,
Corre tão rapidamente!
E qual uma águia ligeira,
Passa e nos leva de repente.
Ma enquanto existe há esperança
De que melhores dias virão!
Trazendo paz, amor e bonança,
Fartura, prosperidade e realização.
Aloísio Miguel Marques
Sem Nome
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
Carlos Nejar
Carta de Guia
que não estanca nos passos ou valores;
corta-se ao viver o baraço dos meses,
a varanda de clausuras,
para sermos o silencioso sulco,
a clareira de dons.
Viver são rédeas soltas
onde a memória destrança
o tropel dos símbolos.
Não tem contradança.
Viver no mundo é casa alugada,
onde dispomos, por instantes,
a cadeira na sacada,
retendo o rosto da amada
em nosso canto,
a refazer as cordas de seu leito.
Viver é soldar o esquecimento.
Publicado no livro Casa dos Arreios (1973).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.376-377. (Poiesis
Susana Thénon
Eu
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
Lêdo Ivo
A Marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca dágua
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
— tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.
Juscelino Vieira Mendes
Fim Natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
Juscelino Vieira Mendes
Ato de Dormir
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
Juscelino Vieira Mendes
Como será o céu?
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
Juscelino Vieira Mendes
Tormento
Porque, enquanto um homem permanece
entre os vivos, há esperança.
Eclesiastes, IX, 4
Há essa angústia de ser humano
E os répteis
se entrincheiram no hospital
E os vermes
se preparam para devorar uma linda criança
Indecorosa orgia da dor
Cruel da degenerescência humana...
E há essa indiferença de ser humano
que transcende as raias do absurdo
Insensatez:
"Onde está o teu crachá?"
"Não tem ninguém para examinar o sangue!"
"Já estou no meu horário de saída..."
E há essa alegria de ser humano
De ter com quem contar
Ter a quem buscar
Que paira sobre todos
E a todos domina
E ama
E há essa esperança de ser humano
Na manhã que vem suave e forte
sobre a embriaguez sonora do vento
apavorando vermes e répteis
E entre a angústia, alegria e esperança
um trilho imenso de leito ao lar
onde enfermeiras e médicos
crachás e pessoas; vozes e braços
harmonizam o cântico singelo e belo:
"Ela está salva — vai!...
Maristela vive — vem!."
Domingo, 29 de julho de 1990.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
Aníbal Machado
Consumimos
Consumimos o melhor tempo da vida a apalpar o terreno, reunir dados, instalar sondas, armar os aparelhos, ajuntar material. Tudo para começarmos a viver. Quando se aproxima o dia da prova – que dia? que prova? – nossas armas estão caducas, o celeiro apodrecido. Vem-nos então a revolta contra as extorsões do tempo; depois, a desconfiança de que fomos logrados.
E não nos conformamos em reconhecer que na longa prorrogação com que disfarçamos o nosso medo de viver estava a própria realização de nossa vida.
Viver é o mesmo que preparar-se para viver.
Lêdo Ivo
Perdas e Danos
Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.
Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.
Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.
Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.
He who sleeps forfeits the night.
He shuns eternity,
a captive candelabrum
in the darkness of the sky.
He who sleeps forfeits love,
the mature vigil
of the fiesh that dreams itself
awakened.
He who sleeps forfeits death
that breathes unseen
like the hare in the forest.
He who sleeps forfeits everything
that fortune places
on the table of the universe.
Jorge Viegas
Nirvana
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
António de Navarro
Poema IV
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.
...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!
Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!
Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!
Juscelino Vieira Mendes
O Salvador
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
Valéry Larbaud
Motociclistas
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
Ana Paula Ribeiro Tavares
Cerimônia de Passagem
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
Luanda, 85
Luís António Cajazeira Ramos
Soneto Patético
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
Refaço o mundo com exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
Refugio-me no trabalho — há paz como um véu.
As horas vão... e a tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
Tranco-me em casa, e o mundo sangra na TV.
Sangue do meu sangue, tudo se esvai. Enfim,
durmo, não sei quem te viu, não sei quem me vê.