Poemas neste tema

Vida

Bocage

Bocage

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.

3 020
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Sabedoria

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!

Faze da tua realidade
uma obra de beleza

Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.176. (Manancial, 44
2 938
Carlos Nogueira Fino

Carlos Nogueira Fino

mesmo que o silêncio

mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras

vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas

830
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Anoitece

Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...

O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...

Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.

Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...


Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).

In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
2 016
Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Serpente

cauda e dente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia

In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum
1 556
Amílcar Dória

Amílcar Dória

Eu vou contar a história de uma lida

1.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.

Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.

O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento

que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.

876
Angela Santos

Angela Santos

Presença

Danam-se
os ventos da alma
e tudo se agita e confunde
no seio do turbilhão

Ainda que eu não saiba
Vou

levada na tempestade
o que me leva não se diz
ou sabe

vou porque sim, sem perguntas
levada vou.
Grandes as presenças
da vida e da morte
abraçamos uma
rechaçamos a outra
sem nada saber…

Que outro olhar
ou dimensão do ver
pode acercar a infinita presença,
vida e morte
morte e vida
tão extremas tão unidas...

Pudesse a vida
ser só celebração, cores, aromas
terra, húmus , simples sentir
e a morte
essa dimensão maior
que aceitássemos não saber.

981
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Boi para Guilhermino

"O boi de março e sua baba"
Guilhermino César

O boi sabe da baba que escorre, sabe
da vida inútil que erra e em si não cabe.

O boi sabe pisar a terra como quem flutua
entre o remorso alheio e a campa nua.

O boi sabe do peso do seu casco errante
e do lago perdido num olhar distante.

O boi sabe, amoroso, raspar o chão
e ruminar na mesma palha sonho e coração.

O boi sabe esperar paciente o que não vem
e mesmo que viesse já viria sem.

O boi sabe, afinal, que a baba escorre
e fica, e em volta o dia (como tudo) morre.

Mais não sabe o boi e nem saber precisa.
Já lhe basta a afagar o dorso a mansa brisa.


In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
915
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Sintonia

"A certo nível de abstração, a matemática e a poesia
devem se encontrar."
(Albert Einstein)

Equilibrado no universo condescendente,
o desequilíbrio humano sobrevive
em seu próprio ofuscar envenenado.
E, eu tento sintonizar-me no mundo
nestas probabilidades, pouco prováveis,
intuindo como pássaro desnorteado
que conhece, no âmago,
o segredo do equilíbrio
em vôo árduo, nas tempestades.

Nesta relatividade artificializada,
entre o fim tangente
e as metáforas afloradas
tornadas em nada,
tento encontrar-me
no afoito intento
e pousar num recanto sereno.

E, na vez buscada
tantas vezes roubada, fazem-me alçar vôo
como pássaro perseguido.

Os que não se perderam nas correntezas adversas,
vasculham nos cantos sombrios,
onde a vida floresce e semeia segredos segregados, ativos
em razões bem tecidas.
Porque os fugitivos das circunstâncias intrigantes,
libertam-se em suas visões profundas
e guardam sementes das explosões tardias,
em suas mentes e almas imperecíveis.

Nesta contingência enfeitada, nojenta, opaca,
onde a clareza foi obstruída,
temer nova caminhada,
é como fechar a única janela
onde mal se respira.

Nesta jornada milenar de sabedoria desvirtuada,
os pobres homens fecham
um ciclo de riqueza empobrecida.

Uma mesma nuvem densa,
forjada,
inclemente
e abrangente,
de ganância cientificada,
soterra a todos
no estratificado nada.

Existem vidas buscando uma pausa
para restaurar no fôlego que resta
a esperança enjaulada.

Nesta derradeira contingência do salto,
nem todas sementes foram desperdiçadas:
alguém puxará a cortina na manhã seguinte,
se faltarem nossos olhos esmaecidos.

Há uma vigília corajosa e temida,
nesta insônia que nos consola
e a esperança, embora cansada,
terá nova jornada
nos que despertam.

A Vida,
a paisagem,
ressurgirão em sua teimosia.
O pouco do restante,
será fartura,
porque o amor e as mãos são magos,
que refazem magias roubadas.

Imagem - 01330001


In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 761
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Saudação a Ismael Nery

Acima dos cubos verdes e das esferas azuis
um Ente magnético sopra o espírito da vida.
Depois de fixar os contornos dos corpos
transpõe a região que nasceu sob o signo do amor
e reúne num abraço as partes desconhecidas do mundo.
Apelo dos ritmos movendo as figuras humanas,
solicitação das matérias do sonho, espírito que nunca
[descansa.
Ele pensa desligado do tempo,
as formas futuras dormem nos seus olhos.
Recebe diretamente do Espírito
a visão instantânea das coisas, ó vertigem!
penetra o sentido das idéias, das cores, a tonalidade
[da Criação,
olho do mundo,
zona livre de corrupção, música que não pára nunca,
forma e transparência.


Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série A Cabeça Decotada.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
2 005
Marcus Accioly

Marcus Accioly

Os Bichos

O Jumento

I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
1 801
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Pergunta

para Jerusa

O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?

Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.

Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.

E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?

E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.

Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.

(João Pessoa 1977)


Poema integrante da série III. Pessoal.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
923
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Manha(ã)

O recém-nascido
chora de madrugada
seu choro alto.
Também o dia
recém-saído
de seu parto
dói a vida
no grito
anunciador
dos galos.

E se entreouvem
(a criança e a alvorada)
e pois que participam
da mesma hora clara
de reinventar a luz
na carne do mundo
e das criaturas
repartem irmãmente
a voz dúplice
da
noite.

Mas feita a escolha,
cabe à criança o silêncio,
e o seu avesso
à manhã que vai nascer
inaugurando inda uma vez
a criação dos sons

e o secreto mudar
da sombra em sol.
Agora,
a criança
dorme:

— O dia
acorda.
E sobre
o sono mudo
do filho do homem
debruça
o véu da aurora
e a canção de ninar
da noite
morta.

1975


Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.96-97. (Sélesis, 13
1 382
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Folclírica 3

O mundo tem
entrada e saída.

Eu:
estou de visita.

(Quem pôs
a vassoura
atrás da porta
do invisível?)

1975


Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.111. (Sélesis, 13
1 241
Antônio Massa

Antônio Massa

Cartesianos

Cartesianos
desabados entre as fórmulas
confeccionadas sob encomenda
emendas nas vielas nossas
invadidas pelo prático ímpeto
de desnudar da vida
uma satisfação qualquer
Conhecemos os quadrantes
mas não vemos antes
de toda a metria
nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto
e não para preenchê-lo
com formulações técnicas
étnicas
ásperas

Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos
deveras quadrados
sem contornos nas arestas
sem astúcia para contornar
situações pontudas
oferecendo apenas
respostas pontiaguadas
aos ponteiros da vida
que ao acaso giram,
não para marcar hora
a outrora
ou demora
mas para manifestar
que avançam
dançam enquanto vivos
enquanto ventos
enquanto corpos
enquanto bichos

Cartesianos...
destituídos da vontade de crescer
almejando desvendar a vida
com o conhecimento obsoleto
por demais lógico e tétrico
objético
Queremos resgatar o saber
do monstro do Desconhecido
mas quem irá salvaguardar
nossas almas
se não concedemos
se não concebemos
se não compreendemos
se não empreendemos
o caminho para o Ninho
para nos entendermos
para nos perdoarmos
para nos conhecermos
ao invés de esquecermos
de nós
os homens
os lobisomens
os meta homens
os meio homens

Cartesianos...
demais para aceitarmos
Amor numa relação homossexual
demais para aceitarmos
o Amor que de cima nos é oferecido
nos ferimos
não podemos computar o Sentimento
então erguemos os muros
as fronhas
as frontes
os horizontes
separamos o homem
do bicho
do corpo
do vento
da vida
mas não separamos
o homem
do homem
lobisomem
meta homem
meio homens
mulheres
crianças
que não justificam nosso fim
nosso início
nosso concerto
nosso desconcerto
nossa cartesianidade
que é o precipício
a precipitação
a prece para a ação
desnutrida
desdentada
exaurida

Cartesianos...
nossas questões fúteis
inúteis
indagam quantos raios emite o sol
quantos pelos há na púbis
quantas vidas há na morte
mas não nos preocupamos
em tomar a quentura
da luz
do corpo
em viver esta vida
como se ela fosse única
como se ela fosse virgem
e fôssemos penetrando calor adentro
noite adentro
suspirando cada ponto de aurora
gemendo cada agora
germinando
curtindo
cultivando
cultuando

Cegos frente às cordas bambas
bombas para quem não as sente
com os dedos
o corpo
a alma
a calma
estamos caindo em nossos mapas
arquitetônicos
astrais
geométricos
geográficos
e os leões nos esperam no picadeiro
depois da queda
depois da morte
e sabe-se lá qual a sorte
de quem despenca
flácido
ácido
nas gargantas do felino

Cartesianos, infelizmente,
esperamos o Artesão
que venha cobrar os juros
construir os muros
edificar os matadouros
Arrancar de nós o couro
o ouro
os cofres
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta?

842
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Trindade

A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...

E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!

A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...

Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!

3 668
Eliana Mora

Eliana Mora

Espanto

Se um dia
saio a dizer
o que me vai na cabeça
muitos irão se espantar
[alguns vão até estranhar]

Mas na verdade eu teria
uma história a revelar

E o resumo seria
um aqui jaz
elegia
ou canto a enaltecer
a tal de vida
[promessa]
meio sem eira nem beira
meio sem voz
[de coleira]

Com a dona desta vida
arrematando seus cantos
como faz a bordadeira
[para o pano não rasgar]

(18 de setembro de 1998)

818
André Joffily Abath

André Joffily Abath

O Navegador

Tempo não é o que passa,
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.

1 678
Antônio Massa

Antônio Massa

Voar

O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma

é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma

som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir

843
Antônio Massa

Antônio Massa

Enredos de Busca

Louvado seja
aquele que não existe
e não conflitua
as raízes da vida
com os pedaços de ventania
agarrados ao seu espírito

Louvado seja
aquele que se agarra
nos pedaços de conflitos
(ventanias de vida)
inexistentes
no espírito de suas raízes

Louvado seja
o espírito daquele
que existe nos pedaços
dos conflitos da vida
e agarra suas ventanias
com as raízes da pertinácia

970
Tite de Lemos

Tite de Lemos

XXIII [Toda vida é rascunho impermanente

Toda vida é rascunho impermanente
manuscrito com tinta azul lavável.
Não divise futuros, não invente
eternidades nem se torne escrava

de horizontes perdidos e apagados.
Somos mortais, por isso celebramos
casuais centelhas de imortalidade.
Por mais que dure e se transvie em ramos,

uma árvore tem a sua hora.
Se a chuva a curva, sofre mas não chora,
senão, dizem, até se alegra e gosta

sem se dar ao trabalho de sorrir.
Deus, amor, lhe dê olhos de menina
que a paisagem de hoje descortinem.


In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
1 231
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Dinheiro

Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune, adoré; on a consideration,
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand

Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.

2 653
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.



2 027
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Hai-kais

Árvore cortada
No tronco tão machucado -
O verde brotando.

Malas nas mãos.
Nos olhos tantas lágrimas.
Casa inundada.

Foi tão rica a safra!
Até os arrozais se curvam
Em reverência.

Estrela de inverno
Embora distante e fraca
Procura brilhar.

1 093