Poemas neste tema
Vida
Henri Michaux
Labyrinthe
Labyrinthe
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
1 147
José Miguel Silva
Não é tarde
O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
1 212
E. E. Cummings
Since feeling is first,
Since feeling is first,
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;
wholly to be a fool
while spring is in the world
my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady i swear by all flowers. Dont cry
-the best gesture of my brain is less than
your eyelids flutter which says
we are for each other: then
laugh, leaning back in my arms
for lifes not a paragraph
and death i think is no parenthesis
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;
wholly to be a fool
while spring is in the world
my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady i swear by all flowers. Dont cry
-the best gesture of my brain is less than
your eyelids flutter which says
we are for each other: then
laugh, leaning back in my arms
for lifes not a paragraph
and death i think is no parenthesis
1 407
Renato Rezende
Impressões do Parque Lage
Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
809
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 212
Fernando Pessoa
Wake with the Sun, wake with the morn
Wake with the Sun, wake with the morn
Wake with the coming day,
Be with the dew and the flush new born,
But, unlike them, stay.
Mists fall of from what thou art
They are what we see.
Come and enter into our heart
And let life be.
The morn belongs to the empty world
Men are later here.
Come and let life be slowly unfurled
Off thee like fear.
And in thy terrible being but thou
Sans body nor soul
Pour all thy balm on my saddened brow,
And make my hope whole!
04/07/1917
Wake with the coming day,
Be with the dew and the flush new born,
But, unlike them, stay.
Mists fall of from what thou art
They are what we see.
Come and enter into our heart
And let life be.
The morn belongs to the empty world
Men are later here.
Come and let life be slowly unfurled
Off thee like fear.
And in thy terrible being but thou
Sans body nor soul
Pour all thy balm on my saddened brow,
And make my hope whole!
04/07/1917
4 360
Fernando Pessoa
THE STORY OF SALOMON WASTE
THE STORY OF SALOMON WASTE
This is all the story of Salomon Waste.
Always hurrying yet never in haste
He fussed and worked and toiled all frothing
And at the end of all did nothing
This is all of Salomon Waste.
He lived in wishing and in striving,
And nothing came of all his living;
He worked and toiled in pain and sweat,
And nothing came out of all that.
This is all the story of Salomon Waste.
..............
Each day new projects did betray,
Yet each day was like every day.
He was born and died and between these
He worried himself himself to tease.
He bustled, worried, moved and cried
But in his life no more’s descried
Than two clear facts: he lived and died.
This is all the story of Salomon Waste.
Alexander Search, 11/08/1907
This is all the story of Salomon Waste.
Always hurrying yet never in haste
He fussed and worked and toiled all frothing
And at the end of all did nothing
This is all of Salomon Waste.
He lived in wishing and in striving,
And nothing came of all his living;
He worked and toiled in pain and sweat,
And nothing came out of all that.
This is all the story of Salomon Waste.
..............
Each day new projects did betray,
Yet each day was like every day.
He was born and died and between these
He worried himself himself to tease.
He bustled, worried, moved and cried
But in his life no more’s descried
Than two clear facts: he lived and died.
This is all the story of Salomon Waste.
Alexander Search, 11/08/1907
4 513
Renato Rezende
O Balde
Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
721
Renato Rezende
Nós
Cada um de nós
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?
Desconfio
que somos o mesmo.
Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?
Desconfio
que somos o mesmo.
Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
1 063
Pe. Osvaldo Chaves
Doce e Breve
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
1 065
Fernando Pessoa
50 - SONNET
God made my shivering nerves His human lyre,
A lyre whose curves in angels' faces end.
When God doth sing the song's invisible fire
And half-visible wings over it bend.
Fountain of incorruptible desire!
Gold-misted green isle where my bark doth tend!
My soul, rich with electedness, doth tire
My sense o) me with aches with God to blend.
But lo! to live is to be blent with God
Already. We need nought but life, all life.
Pain, evil, hale, lust, treachery, the rod
Of custom, the bypath of dreams, the knife
Grief hideth till it cut her, the delight
Of death – all these we God's willed spite.
A lyre whose curves in angels' faces end.
When God doth sing the song's invisible fire
And half-visible wings over it bend.
Fountain of incorruptible desire!
Gold-misted green isle where my bark doth tend!
My soul, rich with electedness, doth tire
My sense o) me with aches with God to blend.
But lo! to live is to be blent with God
Already. We need nought but life, all life.
Pain, evil, hale, lust, treachery, the rod
Of custom, the bypath of dreams, the knife
Grief hideth till it cut her, the delight
Of death – all these we God's willed spite.
4 610
Renato Rezende
Perto, Na Suiça
Passeio pelo jardim florido
com um carrinho de criança, e a criança dorme.
Agora sou uma mãe de seios rosas
e isto é a Suíça.
Sento-me e medito
no mar infinito, nas águas
de um tempo esquisito
como se fora um passado
ainda a ser vivido.
A criança dorme, o céu está azul, azul
por trás de alguns pinheiros.
O dia está ameno, mas o coração humano
(mesmo o desta mãe que medita,
mesmo o desta criança tão bonita)
é sempre brasa e abismo.
Teresópolis, 8 de março 1998
com um carrinho de criança, e a criança dorme.
Agora sou uma mãe de seios rosas
e isto é a Suíça.
Sento-me e medito
no mar infinito, nas águas
de um tempo esquisito
como se fora um passado
ainda a ser vivido.
A criança dorme, o céu está azul, azul
por trás de alguns pinheiros.
O dia está ameno, mas o coração humano
(mesmo o desta mãe que medita,
mesmo o desta criança tão bonita)
é sempre brasa e abismo.
Teresópolis, 8 de março 1998
930
Fernando Pessoa
CARNAVAL [a]
II. Carnaval
A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira...
A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões trás a alegria
Duma plebe farsante e copiosa...
Cada momento é um carnaval imenso,
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisto maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso
De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver o que é que faz ao pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça...
Automóveis, veículos, (...)
As ruas cheias, (...)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.
Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade (...)
Uma pândega esta existência toda...
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o ciente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda...
E contudo eu estou como ninguém
De Amoroso acordo com isto tudo...
Não encontro em mim, quando em estudo,
Diferença entre mim e isto que tem
Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo...
Que tipos! Que agradáveis e antipáticos!
Como eu sou deles com um nojo a eles!
O mesmo tom europeu em nossas peles
E o mesmo ar conjuga-nos (...)
Tenho às vezes o todo de ser eu
Com esta forma de hoje e estas maneiras...
Gasto inúteis horas inteiras
A descobrir quem sou e nunca deu
Resultado a pesquisa... Se há um plano
Que eu forme, na vida que talho para mim
Antes que eu chegue desse plano ao fim
Será estar como antes fora dele. É engano
A gente ter confiança em quem tem ser...
(...)
A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira...
A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões trás a alegria
Duma plebe farsante e copiosa...
Cada momento é um carnaval imenso,
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisto maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso
De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver o que é que faz ao pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça...
Automóveis, veículos, (...)
As ruas cheias, (...)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.
Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade (...)
Uma pândega esta existência toda...
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o ciente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda...
E contudo eu estou como ninguém
De Amoroso acordo com isto tudo...
Não encontro em mim, quando em estudo,
Diferença entre mim e isto que tem
Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo...
Que tipos! Que agradáveis e antipáticos!
Como eu sou deles com um nojo a eles!
O mesmo tom europeu em nossas peles
E o mesmo ar conjuga-nos (...)
Tenho às vezes o todo de ser eu
Com esta forma de hoje e estas maneiras...
Gasto inúteis horas inteiras
A descobrir quem sou e nunca deu
Resultado a pesquisa... Se há um plano
Que eu forme, na vida que talho para mim
Antes que eu chegue desse plano ao fim
Será estar como antes fora dele. É engano
A gente ter confiança em quem tem ser...
(...)
2 893
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 075
António Carlos Cortez
Arte poética e não
A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.
639
Manuel António Pina
[Tudo à minha volta ]
Tudo à minha volta cumpre
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
1 435
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
932
Renato Rezende
Epílogo
Aqui
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
1 050
Affonso Romano de Sant'Anna
Momentos de Glória
Todos têm seu momento de glória:
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
602
María Victoria Atencia
Sazón
Sazón
Ya está todo en sazón. Me siento hecha,
me conozco mujer y clavo al suelo
profunda la raíz, y tiendo en vuelo
la rama, cierta en ti, de su cosecha.
¡Cómo crece la rama y qué derecha!
Todo es hoy en mi tronco un solo anhelo
de vivir y vivir: tender al cielo,
erguida en vertical, como la flecha
que se lanza a la nube. Tan erguida
que tu voz se ha aprendido la destreza
de abrirla sonriente y florecida.
Me remueve tu voz. Por ella siento
que la rama combada se endereza
y el fruto de mi voz se crece al viento.
Ya está todo en sazón. Me siento hecha,
me conozco mujer y clavo al suelo
profunda la raíz, y tiendo en vuelo
la rama, cierta en ti, de su cosecha.
¡Cómo crece la rama y qué derecha!
Todo es hoy en mi tronco un solo anhelo
de vivir y vivir: tender al cielo,
erguida en vertical, como la flecha
que se lanza a la nube. Tan erguida
que tu voz se ha aprendido la destreza
de abrirla sonriente y florecida.
Me remueve tu voz. Por ella siento
que la rama combada se endereza
y el fruto de mi voz se crece al viento.
951
Fernando Pessoa
9 - Go: thou hast nothing to forgive
THE SHINNING POOL
Go: thou hast nothing to forgive.
To dream is better than to live.
But he shall see the rising sun
Who leaveth everything undone;
Whose mind from his attention's task
Strays like the shifting of a mask.
He only shall through greener vales
Than even those that shine right through
The window-panes of children's tales
Wander, who thinks the world anew.
Only for him who sits and sings
On the stiles and forgets his road
Does the fairies' bird spread her wings
And the fairies' flowers grow more broad.
He shall not find a hand to feed
The silent sources of his need.
No one shall point the rill where he
May slake the thirst of infancy.
But greener valleys than To-Day
And dearer thoughts than Far Away
Shall tap at his window and wake
His freshness other thirsts to slake.
So, like a seamstress sitting still
At a window in the sunset
Of a village no steps have met,
He shall belong to nothing ill,
But incorporeal, like a wish,
His soul shall like a rainbow cross
The rain-green pastures of his loss
And earth shall blossom into speech.
Go: thou hast nothing to forgive.
To dream is better than to live.
But he shall see the rising sun
Who leaveth everything undone;
Whose mind from his attention's task
Strays like the shifting of a mask.
He only shall through greener vales
Than even those that shine right through
The window-panes of children's tales
Wander, who thinks the world anew.
Only for him who sits and sings
On the stiles and forgets his road
Does the fairies' bird spread her wings
And the fairies' flowers grow more broad.
He shall not find a hand to feed
The silent sources of his need.
No one shall point the rill where he
May slake the thirst of infancy.
But greener valleys than To-Day
And dearer thoughts than Far Away
Shall tap at his window and wake
His freshness other thirsts to slake.
So, like a seamstress sitting still
At a window in the sunset
Of a village no steps have met,
He shall belong to nothing ill,
But incorporeal, like a wish,
His soul shall like a rainbow cross
The rain-green pastures of his loss
And earth shall blossom into speech.
4 360
Daniel Faria
Quando eu era uma criança de muletas
Quando eu era uma criança de muletas
Estudei o alicerce de coisas paradas
Observei as coisas que se moviam
No olhar estático das coisas que meditam.Era cirúrigico
Como o homem que opera nas pupilas as artérias do seu próprio coração.
Estudei um peregrino e outro e outro.Estavam parados
Contemplavam os passos percorridos
No perímetro da meditação.
anotei que os alicerces do movimento são líquidos
Constantes.
Primeiro líquido:a água,nas coisas altas as nuvens
E penso também nos rios.Segundo líquido: a saliva
Que curou os cegos.Terceiro líquido: a saliva
Do relâmpago,da velocidade das coisas que caem.O sétimo líquido:
o sangue do cordeiro.
Quando eu era uma criança parada
Quando não andava numa cadeira de rodas a empurrar o corpo com as mãos
Estudei o movimento dos líquidos
Segui o derrame da semente ao morrer
Caminhasse eu porém e seguiria
O fio de água no olhar de quem amei.
de Dos Líquidos (2000)
Estudei o alicerce de coisas paradas
Observei as coisas que se moviam
No olhar estático das coisas que meditam.Era cirúrigico
Como o homem que opera nas pupilas as artérias do seu próprio coração.
Estudei um peregrino e outro e outro.Estavam parados
Contemplavam os passos percorridos
No perímetro da meditação.
anotei que os alicerces do movimento são líquidos
Constantes.
Primeiro líquido:a água,nas coisas altas as nuvens
E penso também nos rios.Segundo líquido: a saliva
Que curou os cegos.Terceiro líquido: a saliva
Do relâmpago,da velocidade das coisas que caem.O sétimo líquido:
o sangue do cordeiro.
Quando eu era uma criança parada
Quando não andava numa cadeira de rodas a empurrar o corpo com as mãos
Estudei o movimento dos líquidos
Segui o derrame da semente ao morrer
Caminhasse eu porém e seguiria
O fio de água no olhar de quem amei.
de Dos Líquidos (2000)
1 793
Affonso Romano de Sant'Anna
Textamento
Minha mãe teve dúvidas
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
943
Ana Hatherly
FEIGENBAUM, SEIT WIE LANGE SCHON ISTS MIR
BEDEUTEND
Figueiraó árvore que irrompes da
tua securasuportando o penoso desdobrar de teus
ramosamaldiçoadaofereces ainda a doçura de teus frutosa sombra de
tuas
folhasa firmeza do teu apego à terra Ó dura
bruta formaheroína da escassezó teimosaque
insistes e insistese nos ensinasque a vida é feita
de incessantes mortese que a nóssuas futuras
vítimasnos aguardaa todo o momentoa derrocada do
templosem nenhum outro frutoalém da amarguraÓ
doçuraporque amargas tantoa nossa tentação de florirao
mesmo tempo sendo tudo e nada ?
Figueiraó árvore que irrompes da
tua securasuportando o penoso desdobrar de teus
ramosamaldiçoadaofereces ainda a doçura de teus frutosa sombra de
tuas
folhasa firmeza do teu apego à terra Ó dura
bruta formaheroína da escassezó teimosaque
insistes e insistese nos ensinasque a vida é feita
de incessantes mortese que a nóssuas futuras
vítimasnos aguardaa todo o momentoa derrocada do
templosem nenhum outro frutoalém da amarguraÓ
doçuraporque amargas tantoa nossa tentação de florirao
mesmo tempo sendo tudo e nada ?
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