Poemas neste tema

Vida

Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Naquele tempo

Naquele tempo
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.

Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.

1 295
Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

A Cancela da Estrada

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Cavaleiro, à disparada,
Lá vai no cavalo ardente.
Cavaleiro em descuidada
Marcha, lá vem indolente.

Passa, ondeia levantada
A poeira, toldando o ambiente.

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Bate, e exaspera-se e brada
Ou chora contra o batente:
(Ninguém lhe ouve na arrastada,
Roufenha voz o que sente)

— "Minha vida desgraçada
Repouso não me consente;
Vivo a bater nesta estrada
Constantemente."

Moços, moças, de tornada
De alguma festa, em ridente
Chusma inquieta e alvoroçada,
Passaram ruidosamente.

Desta inda se ouve a risada,
Daquele o beijo... Plangente

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Agora, é noiva coroada
De capela alvinitente;
Segue o noivo a sua amada,
Um carro atrás, outro à frente.

Agora, é uma cruz alçada...
Um enterro. Quanta gente!

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Bate ao vir a madrugada,
Bate, ao ir-se o sol no poente;
(Das sombras pela calada
Seu bater é mais dolente)

Bate, se é noite enluarada,
Se escura é a noite e silente;

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Nossa vida é aquela estrada,
Com os que passam diariamente
E após si da caminhada
A poeira deixam somente.

Coração, como a cansada
Cancela de som gemente,

Bates a tua pancada
Constantemente.


Publicado no livro Poesias, 1912/1925: quarta série (1927). Poema integrante da série Alma e Céu.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. v.3. (Fluminense
2 881
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Era uma vez um país

Era uma vez um país
onde o fruto alastra o chão
vastos campos onde os touros
nédios urram sobranceiros
entre os bandos de carneiros
pelas soltas dos Mourões:

"Não te aproximes daqui: descalça as alpercatas, porque o logar onde te encontras é
uma terra sagrada"
eles fundaram a terra sagrada e sobre ela
num círculo do chão foi abatida
a grande cajazeira com seus frutos de ouro
e o capitão mandou matar os gaviões
e à glória da cantaria da pedra de ângulo
das paredes de pedra
foram colhidos os tamarindos e derrubadas as jacas e abatidas as jaqueiras
e imolados os animais perigosos
e queimados à bala os forasteiros.

Bebam à minha saúde — ordenou o Capitão
quando assentou a cumieira da casa —
e entre os copos de aguardente parecia
um deus embriagado e cosmogônico
a criar seu mundo
no país dos Mourões
in illo tempore.

Venho desse país e desse tempo
e em seu chão e em seu dia o Capitão — o sabedor da guerra —
furldou meus olhos e meus pés
de sabedor do amor
e sabedor da morte.

Aquela que ainda não pariu — comece a parir;
aquele que ainda não matou — comece a matar:
e o país dos Mourões surgiu no fim das águas
surgiu do sangue de nascer e do sangue de morrer
in illo tempore
no tempo de parir e de matar

997
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos os mistérios do universo

Todos os mistérios do universo
São um só: o mistério do universo.
Um dia — nunca o sol me-lo trouxera! (
Vi-o esse mistério — claramente
Com completa visão e compreendendo
Em todo o mistério do mistério
Na sua infinidade e concisão!
E desde então nunca mais livre fui
Mas no horror vivo e (...)
Recordando em cada momento essa visão,
Desse horror ocupado eternamente
Como da vida o calor do sangue
Intimamente anseia.
1 199
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Raul Young, capitão de longo curso, Godo,

Raul Young, capitão de longo curso, Godo,
vai marinhando um barco de cedro por Buenos Aires
ao vento fluvial — e alí
inaugurei o Paraná e o pampa
e os adolescentes se repetiram
no Richmond de Florida onde um dia
o espaço suplicou a forma de teu corpo:
Joana
Joana de Aragão
— te chamamos —
e acenaste um sorriso entre os cristais
e ali ainda agora
estão os teus cabelos governando o vento
pois para sempre
estarás onde estiveste: — viaja
a estrela imóvel
todos os céus
do capitão de longo curso

Trinta anos chorava o poeta a mesma lágrima
no bar do Richmond de Florida:
muitas vezes te encontrei e uma vez
te alongavas entre as mesas do bar
e crescias e recolhias
o bandoneon de teu corpo:
sobre esta mesa embaralho
os naipes do tempo e preciso
de muitos tempos no espaço desta mesa — de muitos
espaços antigos e futuros
para tuas chegadas e partidas

outra vez tua beleza
era uma lança fulgurante
de Belgrano a Corrientes:
janta Leopoldo Marechal com Juan Domingo entre choférs
no restaurante de La Boca:
por la cabeza de los dirigentes
ou
con la cabeza de los dirigentes
salta Güemes
de su tierra salteña
los gauchos degolladores
— e te lembras? —
Carbajal
servia numa terrina de prata
a cabeça sangrenta do capitão
e as taças
espumavam à saúde
vinho ou sangue
pois tênsil é o dia
e trazes o arco tenso e a lira
de cordas tensas e buscar-te
é desferir a flecha e desferir o som
por teus signos teus rastros caminhamos
caçadores da vida caçadores da morte caçadores do amor
e assim se caça a liberdade e assim recolho
em batalhas de amor campos de plumas, dom Luís,
a rosa por botim —
e ou vinho ou sangue
à saúde, Apolo.

919
Juan Gelman

Juan Gelman

Limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.

(tradução de Antonio Miranda)

:

Límites

¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?

Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.

1 928
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Crucificado, / Não como Cristo numa mera cruz,

Crucificado,
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
1 239
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:

Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.

Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:

pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea

Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas

pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.

1 086
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Nascia o gerifalte sobre os ombros

Nascia o gerifalte sobre os ombros
na testa brotavam o louro e a madressilva
a cintura gerava o boldrié de Orion
e a flecha e o arco inteiravam as mãos
o cavalo baio decorria das coxas e das ancas
e nos olhos levantava-se a estrela:
Phaeton! Phaeton!

A caça caça o caçador

A sombra assusta o corpo
mas Apolo
não teme seu fantasma
e o cavalo baio
galopa seu galope
junto ao gerifalte à flecha à estrela
Phaeton! Phaeton!

Pois me nutrias quando
a mão celeste ordenhava as estrelas
apojadas de azul
poeta sum
a boca cheia
dos gomos luminosos
e da Vega da Lira e de Cassiopéia
por isso — Fratello Sole, digo,
Sorella Luna
doce incesto noturno
tu Pythia, tu Phebéia, tu Delphinia
Artemis Artemísia
quia nocte quasi dies
in diebus diabola

Bêbados de estrelas
rolávamos sobre as constelações
no lagar capitoso
Phaeton! Phaeton
Incestuosa —
de nós mesmos nascíamos
e éramos naquele tempo nossa própria fábula
e a mesma flama nos torneia agora
o corpo fulgurante no coração da lenda

Pois quem te lembra nua
empinado el culo quando
ardiam nos lençóis as sarças peludas —
eras a mera lenda
e em tua virilha lendária
fabulava o odor
do pênis mitológico —
Phaeton! Phaeton!

Os cavalos nitrian no pântano, dos astros
e seus cascos
golpeavam os planetas — a espuma
dos meteoros no focinho:
os que Zeus derruba das alturas
deixam no firmamento a Via-Láctea
Phaeton! Phaeton!
teu rastro
Pyrie eleison.

Sob plátanos brancos de uma ilha sepulcral
oficiava ao crepúsculo tua beleza, amor
Phanes Phanus Phalena
Phales Phalerus Phales
Phalanthus Phaletusa
Phaeton Phalanthus Phalus
De falernos
na cavalgada embriagada conhecemos
as veias da manhã e os ossos da noite
pois transpusemos
a aurora e seu crepúsculo
e do tempo regido ao casco dos cavalos falernos
apeei-me à fronteira
da eternidade
Atymnios —
da heroica louvação insaciado

Bebi o vinho do tempo —
e a eternidade
é minha embriaguez
pois não existo mais senão
no coração da lenda — e sou
eu mesmo a minha própria lenda
Phaeton
heroicis laudibus non satiatus
non satiatus
insaciável
inefável
inconsolável
pontífice e histrião
mordia os rins do planeta
e fincando as rosetas das esporas chibateava o lombo
da galáxia
com meu cometa coruscante
Phaeton!
Phaeton!

um trevo nos calcanhares
o rastro dos pés inapagável
dizia norte e sul e leste e oeste
com a rosa-dos-ventos sob os tornozelos
ego poeta
vou caminhando como o som caminha
desde
por
para
até
ubi unde quo qua
et usque quousque
quam diu.

1 122
Richard Minne

Richard Minne

Gogol

Leio Gogol. É grande, forte.
Ele fala de vida e morte,
e diz que os homens valem pouco
e são veneno uns para os outros,
mas que esta vida, não obstante,
lhes é muitíssimo importante.
(tradução de José Paulo Paes)
:
Ik lees Gogol. Hij is groot.
Hij spreekt van liefde en dood,
en dat de mensen klein zijn
en voor elkaar venijn zijn
en dat, trots alles, dit leven
nog hoog staat aangeschreven.
.
.
.
706
Mário Pederneiras

Mário Pederneiras

Eterna

Intérmino que fosse o Caminho da Vida
E eterno o caminhar do nosso passo incerto,
Fosse na estrada larga ou fosse no deserto,
Sem lar, sem pão, sem paz, sem sol e sem guarida;

Intérmina que fosse a estrada percorrida.
Sob o Céu todo azul ou de nuvens coberto
E, o repouso fatal nunca estivesse perto
E a distância final nunca fosse vencida;

E vencendo ao caminho as urzes e os escolhos,
As lutas, o pavor, o cansaço do dia,
A fraqueza do passo, a tristeza dos olhos;

Meu pobre coração nessa eterna ansiedade,
Nesse eterno sofrer, eterno arrastaria
Esta triste, esta longa, esta eterna Saudade.

1 492
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Poesia realista

É esta a rua
O rio da vida
A vida tua

Quem por demasiado
tempo se entregou
ao exercício

de escrever
como quem morre
e quer viver

saberá um dia
se foi de verdade
amado?

Não é a escrita
essa rede realista
que agarra a vida

nas malhas de fogo
ou no trânsito do cianeto?
Quem escreve saberá

que escrevendo prolonga
o dia acabado
em mais uma noite

longa como
corpo esgotado?
691
Carlos Soulié do Amaral

Carlos Soulié do Amaral

Soneto da Alegria

De nada, ou quase nada, uma alegria
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.

Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.

E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,

Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
793
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Poesia Escapista

Aqui, onde estamos morando,
O lugar não pode ser mais belo.
São duas colinas e, conseqüentemente,
Um vale. Há um rio. E há um lago.
Doutrinas não há, a não ser as do
"Centro Acadêmico Dom Casmurro".
Mas isso é distante.

De manhã vê-se se o céu está claro
Ou nublado.
Previsões só as sobre o decorrer
(Meteorológico) do dia.
Planos — os de ir a pé ou a cavalo
Para o banho diário.

Os temores locais são poucos:
Se a ponte de madeira fica pronta antes
De São João,
Se o leite chegará para o fornecimento
De manteiga.
Não há estação de rádio.

Alguns benefícios do mundo de 60
Nos chegam pela estrada — penicilina,
Tecidos, matérias plásticas,
Adornos pessoais.
Por milagre, ninguém pede jornais.
Mas as mulheres daqui são bem tratadas
E, felizmente, nada naturais.

Muito prazer de corpo, muito ar.
Luz, água, cavalos, muita vida animal.
Definitiva ligação ao essencial.
Poucos temores, poucos riscos.
Muito pouca aflição:
A China é antiga como antigamente
Não há televisão.

Mas vem, de algum recanto sutil,
A informação
E se planta e cresce insuspeitada
Com outro nome que, traduzido,
Um dia será lido.
Pois é com alegria que o menino
Entra pela casa com um cão,
Seu amigo, seu primeiro grande amigo,
E o apresenta: "Papai, ele se chama Desintegração.

3 169
Daniel Loureiro

Daniel Loureiro

Uma Crença

Jazer tão perto da morte
onde talvez a sorte
de nós, a espécie condenada
a entender para sentir angústia
nas misérias dos prazeres mundanos
ópios de vida que nos causam danos
feridas ocultas agora libertas
Rasgar a libertação

Argh!

Esse Deus contraditório
Piedoso e cruel
Aos crentes fornece seus favos de fel
o consolo débil, frágil
de uma crença como tábua última
Sua mediocridade ilhada

Assim me faço pagão
Diversos Deuses me Divertem
Imperfeições gregas tão civilizadas...

Ânsia pela vida como ser a vida sua
Nua de mandanças do dever ideal

834
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Predestinação

Tinha no nome seu destino líquido: mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.
Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.
Seu provérbio predileto: "Quem tem capa, escapa".
Sua piada favorita: "Ser como o rio:
seguir o curso sem deixar o leito".
Pois estudava: engenharia hidráulica.
Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando
já estava na bica para se formar.
Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva
Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.
Rim flutuante.
Água no joelho.
Hidropsia.
Bolha d’água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.

1 730
Stella Carr

Stella Carr

A corrente

Um rio imita
          o Tempo.
Quanto passa,
caminho de água
na margem da água,
          corrente,
minuto impossível
                    — elo.

Um rio corta
                    veia
                    rua
cadeia-viva
a hora-morta
                    de
nem hoje ou amanhã.

Um dia-tempo
                    não, luz.
Um rio flui
                    infinito,
cordilheiras, planícies,
movimento no fundo
do aquário redondo
— rotação-translação.

      Um rio-rua
  com holofotes
nos olhos fortes

             de luzes
— tráfego —
de milhões de seres
             transeuntes.

Passam, postes, pastam
— rebanhos    
enrolam a lã
                       luminosa,
uns atrás dos outros.

O rio imita a rua.
O mar imita a terra.
O peixe imita o homem.
736
Dagmar Destêrro

Dagmar Destêrro

Corrida

No avanço do tempo corre a vida,
mas nesse tempo há pedras espalhadas,
pedras agudas, carnes esfarrapadas,
sangue jorrando de cada ferida.

o tempo açoita a vida noite e dia
e ele chora, tropeça, levanta e continua.
Só e esperança anima a travessia;
e a alma corre, descabelada e nua.

E a vida não tem tempo, ao tempo, em meio,
de ver o belo existente no caminho;
não perder na corrida é o seu anseio;
sua atenção conserva em desalinho.

No embrião da vida, no tempo, avanço.
Subidas e descidas — tantas conheço:
e na vertigem do correr me canso.
Procuro, em vão, meu horizonte do começo.

1 128
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Adeus, Amor

O amor disse-me adeus, e eu disse: "Adeus,
Amor! Tu fazes bem: a mocidade
Quer a mocidade." Os meus amigos
Me felicitam: "Como estás bem conservado!"
Mas eu sei que no Louvre e outros museus, e até no nosso
Há múmias do velho Egito que estão como eu bem conservadas.
Sei mais que posso ainda receber e dar carinhos e ternura.
Mas acho isso pouco, e exijo a iluminância, o inesperado,
O trauma, o magma... Adeus, Amor!
Todavia não estou sozinho. Nunca estive. A vida inteira
Vivi em tête-à-tête com uma senhora magra, séria,
Da maior distinção.
E agora até sou seu vizinho.
Tu que me lês adivinhaste ela quem é.
Pois é. Portanto digo: "Adeus, Amor!"
E à venerável minha vizinha:
“Ao teu dispor! Mas olha, vem
Para a nossa entrevista última,
Pela mão da tua divina Senhora
— Nossa Senhora da Boa Morte".
1 492
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Tu me aprontas cada uma

Tu me aprontas cada uma...

Vida,
minha vida,
tu me aprontas cada uma...
Já não sei se sou
que te faço acontecer
ou se és tu que
de repente,
do nada,
com novas cartografias,
novos acontecimentos,
me fazes acontecer neles.

1 359
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Oferenda

Oferenda

Nos meus momentos de inconsciência
Nos meus momentos de inconsistência
Em um acaso muito bem planejado
Meu beija-flor inconseqüente
Me leva
Ao teu escorpião de asas azuis
E quanto estrago não fazem
Impregnados
Embriagados
Da vida
Pintada relaxadamente com cores fortes
Ofuscando olhares
Desfazendo contornos
Jogando de sombras
Que trazem a realidade
Em oferenda

1 214
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Antologia

A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— À dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Quero descansar.

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
À mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Rio, 1965
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Mônica Banderas

Mônica Banderas

Apelo

A voz do mundo é oca

como é oca a voz do útero

na hora do parto.

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Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

no teatro tudo é presente

no teatro tudo é presente
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.

a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo

_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome

a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
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