Poemas neste tema
Vida
Ruy Belo
Metamorfose
Ó homem que passas tranquilo na rua
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no principio e no fim da rua
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no principio e no fim da rua
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 473
Fernando Pessoa
IV - Doura o dia. Silente, o vento dura.
........IV
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
1 295
Moacyr Felix
Cantiga para os Pescadores
A Tereza e Ferreira Gullar
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar!
Eia, que outro peixe não serve
quando mais terra não há,
que a morte só tem valia
no gesto que encontra o mar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar!
Na espuma branca das ondas
onde o vento lambe o sal,
no meu orgulho de homem
que prova o bem, prova o mal,
noites de álcool e de areia
se erguerão, farpas lançadas
contra a morte universal
(isto é triste, mas não mata
esta alegria infernal
de eu havê-las arrancado
qual grande peixe de prata
deste nada tão central).
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar.
(...)
Publicado no livro Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.101
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar!
Eia, que outro peixe não serve
quando mais terra não há,
que a morte só tem valia
no gesto que encontra o mar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar!
Na espuma branca das ondas
onde o vento lambe o sal,
no meu orgulho de homem
que prova o bem, prova o mal,
noites de álcool e de areia
se erguerão, farpas lançadas
contra a morte universal
(isto é triste, mas não mata
esta alegria infernal
de eu havê-las arrancado
qual grande peixe de prata
deste nada tão central).
Eia, que eu vou pescar um peixe
de ver meu barco virar,
que tudo é vida se o homem
é onda de um renovar
que se renova a si mesmo
sem nunca ter que parar.
(...)
Publicado no livro Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.101
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
1 183
Fernando Pessoa
Só uma cousa me apavora
Só uma cousa me apavora
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!
E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e (...)
Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.
Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
E que eu não morra nunca.
Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.
Não me deixeis morrer...
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!
E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e (...)
Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.
Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
E que eu não morra nunca.
Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.
Não me deixeis morrer...
1 331
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Eu sou o Espírito de Alegria,
Eu sou o Espírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
1 487
Fernando Pessoa
40 - ELEVATION
Before light was, light's bright idea lit
God's thought of it,
And, because through God's thought light's thought did pass,
Light ever was,
And from beyond eternity became
The living flame
That trembles into life and reddens with
Our life's soul‑width.
Before light was, when yet the night was queen
O'er what had been,
In God's realized prescience it could be
Light from eternity,
For no time enters into God's thoughts or
Their spaceless Hour.
Take thou therefore, my Song, from light the mood
Of being, and brood,
Like the Dove unbegot, over the abyss
Of consciousness,
Taking as thy true part that thought of God
Whence light issued.
Let my words burst into that divine flame
That lights its name
Of each thing from within with ultimate meaning.
Though earth be screening
With fixed appearance the Sun in each Thing,
Bear, on thy wing
High‑lifted, rays from the unrisen Sun
Whence life is spun.
Soar out, my Song, out of despair and night
And catch that light
Ere it appear, from neath the horizon
Of action,
Borne out of dreams by intuition bright
Of endless light.
Though none believe nor any understand,
Yet feel thee fanned
With those breeze‑breaths that come up with the morn
From the Unborn.
Soar like a lark into the coming day
And bear thy way
Into the possibility of noon
Hid in the dawn.
No matter that none know what thy words speak.
A day shall break
Out of eternity as each day bright
Out of each night.
Thy wings shall touch the slanting light of dawn
And, upwards drawn
By being light‑struck, shall to light be near
When light's yet far.
Hope is thy ready and high‑soaring flight
Out of the night,
Joy is thy touching of the first high rays
That day betrays,
Life is the course thy flight sequesters from
Earth and its nightly doom,
And these three things are one in thy belief
That pain is brief.
II
Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light,
That yet art bright
With the epitome of the outer shine,
Thou that art mine
And yet not mine but general to the earth,
Wings of rebirth,
Whose song, though in me heard, participates
Of all that all elates,
Thou point of meeting of me with the wings
Hidden in all things,
Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of
Some abstract love,
Thou exhalation of the prisoned flight
Of all things' weight,
Thou that in me art fear, mad splendour, all
To ache and enthral,
Attract me, take me, o pure flight, and rise
With me in thine eyes,
Lost, cast, unpetalled and divine, up to
What thou dost woo!
O Spirit‑Lark that wakest ere the morn
And art reborn
At each recoming of the sun, and art
The wiser part
Of all that message is to our low eyes
Of what shall rise!
Life‑weightless Bird that no meads can attract,
But that must act
Its fate in air, above our marshes sad
And meads low‑laid,
In free heights communing with the Great Horn
As yet unborn!
O sterile Bird that hast no nest nor home
But what shall come,
That hast no song save in the heights above
Nests, homes and love,
Nor any thought save for the coming day,
Though far away
It seem to those who measure yet thy flight
But by its height
And not by its intention, that is carried
From life and married
To those diviner hours that winged things
Find with their wings!
O Bird of ruthless song and untold wishes,
Whose high flight reaches
Heights not of earth, but of pure air, encumbered
With no joys weighed and numbered!
Take all my heart in thy purpose of going
And make the flowing
Down to earth of my song be like thy song,
Something strange, strong
With distance, eerily half‑perishing
From farness! Sing,
And let my heart be what thou meanst with singings
My life with winging.
My hopes and fears with th’tone wherewith thy note
To me doth float
And the great purpose hidden in my fate
With thy mere height!
My heart shall thus be happy even if pained,
Free even if strained
To keep that height of joy whence tremble down
Thy songs to our own.
My soul may thus be happy, full and free.
Oh, happily
Raise me from me and lift my life unto
That thou dost woo -
The light, the sky, the distance and the morn,
Till I be unborn
Again to pure dispersion in the seas
Of the high breeze
That speaks to thee, ere light be born, of light,
Till the delight
Of without being being shall make me
Song and sky be!
God's thought of it,
And, because through God's thought light's thought did pass,
Light ever was,
And from beyond eternity became
The living flame
That trembles into life and reddens with
Our life's soul‑width.
Before light was, when yet the night was queen
O'er what had been,
In God's realized prescience it could be
Light from eternity,
For no time enters into God's thoughts or
Their spaceless Hour.
Take thou therefore, my Song, from light the mood
Of being, and brood,
Like the Dove unbegot, over the abyss
Of consciousness,
Taking as thy true part that thought of God
Whence light issued.
Let my words burst into that divine flame
That lights its name
Of each thing from within with ultimate meaning.
Though earth be screening
With fixed appearance the Sun in each Thing,
Bear, on thy wing
High‑lifted, rays from the unrisen Sun
Whence life is spun.
Soar out, my Song, out of despair and night
And catch that light
Ere it appear, from neath the horizon
Of action,
Borne out of dreams by intuition bright
Of endless light.
Though none believe nor any understand,
Yet feel thee fanned
With those breeze‑breaths that come up with the morn
From the Unborn.
Soar like a lark into the coming day
And bear thy way
Into the possibility of noon
Hid in the dawn.
No matter that none know what thy words speak.
A day shall break
Out of eternity as each day bright
Out of each night.
Thy wings shall touch the slanting light of dawn
And, upwards drawn
By being light‑struck, shall to light be near
When light's yet far.
Hope is thy ready and high‑soaring flight
Out of the night,
Joy is thy touching of the first high rays
That day betrays,
Life is the course thy flight sequesters from
Earth and its nightly doom,
And these three things are one in thy belief
That pain is brief.
II
Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light,
That yet art bright
With the epitome of the outer shine,
Thou that art mine
And yet not mine but general to the earth,
Wings of rebirth,
Whose song, though in me heard, participates
Of all that all elates,
Thou point of meeting of me with the wings
Hidden in all things,
Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of
Some abstract love,
Thou exhalation of the prisoned flight
Of all things' weight,
Thou that in me art fear, mad splendour, all
To ache and enthral,
Attract me, take me, o pure flight, and rise
With me in thine eyes,
Lost, cast, unpetalled and divine, up to
What thou dost woo!
O Spirit‑Lark that wakest ere the morn
And art reborn
At each recoming of the sun, and art
The wiser part
Of all that message is to our low eyes
Of what shall rise!
Life‑weightless Bird that no meads can attract,
But that must act
Its fate in air, above our marshes sad
And meads low‑laid,
In free heights communing with the Great Horn
As yet unborn!
O sterile Bird that hast no nest nor home
But what shall come,
That hast no song save in the heights above
Nests, homes and love,
Nor any thought save for the coming day,
Though far away
It seem to those who measure yet thy flight
But by its height
And not by its intention, that is carried
From life and married
To those diviner hours that winged things
Find with their wings!
O Bird of ruthless song and untold wishes,
Whose high flight reaches
Heights not of earth, but of pure air, encumbered
With no joys weighed and numbered!
Take all my heart in thy purpose of going
And make the flowing
Down to earth of my song be like thy song,
Something strange, strong
With distance, eerily half‑perishing
From farness! Sing,
And let my heart be what thou meanst with singings
My life with winging.
My hopes and fears with th’tone wherewith thy note
To me doth float
And the great purpose hidden in my fate
With thy mere height!
My heart shall thus be happy even if pained,
Free even if strained
To keep that height of joy whence tremble down
Thy songs to our own.
My soul may thus be happy, full and free.
Oh, happily
Raise me from me and lift my life unto
That thou dost woo -
The light, the sky, the distance and the morn,
Till I be unborn
Again to pure dispersion in the seas
Of the high breeze
That speaks to thee, ere light be born, of light,
Till the delight
Of without being being shall make me
Song and sky be!
1 663
Ruy Belo
Saint-Malo 63
Eu curvo ante a infância a face embaciada
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
520
Ruy Belo
Homem perto do chão
Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar
Mas em que rosto isento de contradição
há-de ele peregrino erguer a tenda?
Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse
esse deus invisível
Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem
a pesada cabeça entre as mão caída
Ele que desça ao fundo de todos os olhos
que nos trazem a alma à flor da pele
também não serão lá o coração ou a infância
Quando a tarde morrer ou o outono vier
do seu olhar é que as aves todas partirão
Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 20 e 21 | Editorial Presença Lda., 1984
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar
Mas em que rosto isento de contradição
há-de ele peregrino erguer a tenda?
Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse
esse deus invisível
Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem
a pesada cabeça entre as mão caída
Ele que desça ao fundo de todos os olhos
que nos trazem a alma à flor da pele
também não serão lá o coração ou a infância
Quando a tarde morrer ou o outono vier
do seu olhar é que as aves todas partirão
Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 20 e 21 | Editorial Presença Lda., 1984
1 179
Ruy Belo
Turismo
Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 028
Fernão Garcia Esgaravunha
Nenguem-Mim, Que Vistes Mal Doente
Nenguem-mim, que vistes mal doente
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
580
Fernando Pessoa
Não torna atrás a negregada prole
Não torna atrás a negregada prole
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
1 114
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
853
Fernando Pessoa
CARNAVAL [b]
CARNAVAL
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
2 227
Debora Bottcher
Momentos
Quase a Vida me foge dos sentidos quando te vejo.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.
915
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
974
Affonso Romano de Sant'Anna
Aprendizados
Uns aprendem a nadar
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.
Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.
Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.
Em alguns.
No amor, não.
outros a dançar, tocar piano,
fazer tricô e a esperar.
Na infância cai-se
para se aprender a andar,
cai-se do cavalo e do emprego
aprendendo a viver e a cavalgar.
Em alguns aprendizados
chega-se à perfeição.
Em alguns.
No amor, não.
1 258
Fernando Pessoa
Do not think of me. Love me.
Do not think of me. Love me.
That shall somehow suffice.
……
……
Let us be purposeless
Sedately and for a task.
We can be nothing this
Dashes not with the mask
Of being anything...
Be we eer on the wing...
And towards nowhere flying,
Maybe we shall obtain
A thought of what our dying
May steal from life and pain...
That shall somehow suffice.
……
……
Let us be purposeless
Sedately and for a task.
We can be nothing this
Dashes not with the mask
Of being anything...
Be we eer on the wing...
And towards nowhere flying,
Maybe we shall obtain
A thought of what our dying
May steal from life and pain...
1 229
Vesna Parun
Oliveiras velhas como velhas mulheres
Oliveiras velhas como velhas mulheres
Sempre sempre expostas à seca e ao vento
Desde a era bíblica as velhas oliveiras
Já vêm embalando a paz mítica no ventre
Oliveiras filhas do mar atarracadas
Todo o sofrimento humano nelas está
Deitaram raízes no penhasco grávidas
Oliveiras berço do sol e leito do ar
Oliveiras minhas irmãs no oceano
Passam os seus dias vazios descontentes
Feito nossos avós túmidas de ruína
Escuras e negras com seus mementos tristes
Oliveiras vocês são empedrada gente
Nossas amarguras nossos duros pesares
Dos seus seios jorra um dourado azeite
E a vida transborda como nos velhos livros
(tradução de Aleksandr Jovanovic, in Céu Vazio: 63 poetas eslavos, São Paulo: Hucitec, 1996).
.
.
.
855
Fernando Pessoa
Out of a great nebula of Night and Storm
Out of a great nebula of Night and Storm
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.
The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.
The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
1 294
Antero de Quental
Aspiração
Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
2 928
Daniel Cruz Filho
Canto do Homem no Kósmos
Canto I
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
465
Fernando Pessoa
35 - THE HOURS
The hours are weary of being hours.
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
1 475
Lara de Lemos
Conta Corrente
Para Wanda Maria
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
1 548
João Maimona
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
1 080