Poemas neste tema

Vida

Gilberto Gil

Gilberto Gil

A linha e o linho

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão

A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a
correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Poesia XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.



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Fernando Pinto do Amaral

Fernando Pinto do Amaral

Á Chegada do Inverno

Nem sempre
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo

Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro

Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
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Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Vigília

Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia

com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor

Nunca me senti
tão
preso à vida.
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Adalgisa Nery

Adalgisa Nery

Instante

O espanto abriu meu pensamento
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.

(Adalgisa Nery)
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

A Pedra Lavrada

1 - A mão que lavra a pedra
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.

2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.

3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.

4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.

5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.

(...)


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 20 oitava
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Fernando Fabião

Fernando Fabião

Deixa que as Mãos

Deixa que
as mãos
Percorram o caminho difícil do azul
Como se o azul
Fosse a cor da alegria
O lugar aceso de uma vida.

Deixa que as mãos
Transportem barcos
E regressem de nenhuma viagem.

Deixa o coração adormecido
Na lembrança das aves - grão de areia.
Uma sirene ao longe.

Deixa a roupa dobrada
A candeia acesa
O lugar na mesa.
Há sempre uma hera por cortar

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Afonso Duarte

Afonso Duarte

Recordação

Eu bem sei
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.
Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.
Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...

Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos.

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Mário Hélio

Mário Hélio

16-VI(Niilismo)

a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.

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Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos

Translúcido

Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.

Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.

Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.

Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.

Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,

Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.

A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.

Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.

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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos

é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida,

Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida,
Em que nos distraímos de outra coisa —
        Que coisa, não sabemos —;
Livres porque brincamos se jogamos,
Presos porque tem regras todo jogo;
        Quem somos? quem seremos?
Feliz o a quem surge a consciência
Do jogo, mas não toda, e essa dele
        Em o saber perdê-la.
1 493 1
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

As estrelas brilham por amor

As estrelas brilham por amor,
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres

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Antônio Massa

Antônio Massa

A Teia da Vida

Renda bordada
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem

rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro

no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma

seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa

o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida

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Adélia Prado

Adélia Prado

Entrevista

Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem
[é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.
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Nelson Ascher

Nelson Ascher

Hölderlin

p/ Antonio Medina Rodrigues
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.

971 1
Renata Pallottini

Renata Pallottini

O Carro

O carro corre ao longe numa boa
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.

A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.


In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
2 665 1
Alexandre S. Santos

Alexandre S. Santos

Saída para a Sanidade

O que tens a dizer ser insensato,
senão contradizer-te com palavras ocas;
deitar-te sobre pregos e sentir prazer;
cobrir-te de medalhas e lisonjas mocas;
travestir-te de feliz enquanto no retrato...

Abre com grande grito teu peito;
deixa pulsar sem disfarce teu coração;
chora lágrimas de dor verdadeira;
sonha e vive, porém, com emoção;
clama ajuda ao desfalecer no leito...

Ouve a voz que brota de tua entranha;
mescla ao teu bom senso o sentimento;
escorra sangue da veia pungida;
não percas a luta para o tormento;
toma o gozo pela dor, numa barganha...

Então, quando da visita da alvorada
sentires o calor vivificante da coragem,
não mates teu tempo com pura divagação,
ungi-te de vigor e parte numa viagem;
chora, ri, ama, faça da vida namorada.

979 1
Nuno Júdice

Nuno Júdice

O amor, um dever de passagem

Fui envenenado pela dor obscura do Futuro.
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
já não sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.

A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.

A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.

Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.

2 057 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Durmo ou não? Passam juntas em minha alma

Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.

Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.

Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Disperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade?

4 839 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se penso mais que um momento

Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,

Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,

Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lambra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.

5 051 1
Linhares Filho

Linhares Filho

Das Coisas

Meus cabelos captam a voz das coisas
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.

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Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Banquete Ilúdico

Quando me chegam, subitamente,
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.

Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.

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Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Filosofia

A realidade é apenas
um milagre da nossa fantasia...

Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.174. (Manancial, 44
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