Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
988
Fábio Roberto Rodrigues Belo
Passaporte
passeport
porque porta passo pra
poder te ver?
que passatempo fará resistir minha
paciência?
faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte
por onde
o pássaro faz
seupercurso?
preciso ter alegria
paraguerrear...
per fas et nefas
persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.
porque porta passo pra
poder te ver?
que passatempo fará resistir minha
paciência?
faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte
por onde
o pássaro faz
seupercurso?
preciso ter alegria
paraguerrear...
per fas et nefas
persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.
984
Nuno Gomes dos Santos
O mar é uma lonjura
O mar é uma lonjura entre dois portos
um ponto de chegada e de partida
o mar é esta noite em que dois corpos
descobrem a maré-cheia da vida
O mar é uma lágrima perdida
mil vezes retratada em corpo inteiro
uma colcha de penas estendida
na cama deste barco marinheiro
E quando a solidão não é ser mar
é ser apenas água de um ribeiro
ou então se uma jangada a naufragar
se cruza com a soberba de um veleiro
Então é que começa o mar revolto
que é esta gaivota no meu peito
e então é que o poema fica solto
liberto como um rio fora do leito
Que eu sempre hei-de dizer que navegar
não é estar no porão como quem teme
que a vida há-de ser um barco no mar
e eu um marinheiro sempre ao leme.
um ponto de chegada e de partida
o mar é esta noite em que dois corpos
descobrem a maré-cheia da vida
O mar é uma lágrima perdida
mil vezes retratada em corpo inteiro
uma colcha de penas estendida
na cama deste barco marinheiro
E quando a solidão não é ser mar
é ser apenas água de um ribeiro
ou então se uma jangada a naufragar
se cruza com a soberba de um veleiro
Então é que começa o mar revolto
que é esta gaivota no meu peito
e então é que o poema fica solto
liberto como um rio fora do leito
Que eu sempre hei-de dizer que navegar
não é estar no porão como quem teme
que a vida há-de ser um barco no mar
e eu um marinheiro sempre ao leme.
761
Carlos Drummond de Andrade
Postal Para Catherine
Paris pede postais
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
665
Carlos Drummond de Andrade
Governador Em Viagem
Do Rio a Vila Rica
passando por São Paulo
são léguas de infinito,
contrabando e onça,
carrapato, carrapicho,
inseguro pousar
na ventania dos ranchos.
Governador vai governando
a cavalo, que remédio?
Vai ouvindo, nomeando,
prendendo
se é caso de prender,
e recolhendo mesuras,
mas na hora de comer,
mas na hora de dormir,
de que lhe vale a patente?
Antes fosse para a Índia.
O sofrido espinhaço,
os dolentes intestinos
reclamam da jornada.
A escuridão sem tapetes
é bem naquele lugar
onde Judas perde as botas.
Ei, amigo, que me ofertas?
Chão de terra, sim, senhor.
E de boca?
Saberá Vossa Importância
que em minha trempe cozinho
a metade de um macaco
e umas poucas formigonas.
— A que sabem teus petiscos?
— Macaco, a caça mais fina
que pula neste fundão,
e bumbum de tanajura,
dês que cozido a preceito,
não há manteiga de Flandres
que em gosto se lhe compare.
Quer provar?
(Bravo Conde, pobre Conde
de Assumar,
já começa a vomitar.)
passando por São Paulo
são léguas de infinito,
contrabando e onça,
carrapato, carrapicho,
inseguro pousar
na ventania dos ranchos.
Governador vai governando
a cavalo, que remédio?
Vai ouvindo, nomeando,
prendendo
se é caso de prender,
e recolhendo mesuras,
mas na hora de comer,
mas na hora de dormir,
de que lhe vale a patente?
Antes fosse para a Índia.
O sofrido espinhaço,
os dolentes intestinos
reclamam da jornada.
A escuridão sem tapetes
é bem naquele lugar
onde Judas perde as botas.
Ei, amigo, que me ofertas?
Chão de terra, sim, senhor.
E de boca?
Saberá Vossa Importância
que em minha trempe cozinho
a metade de um macaco
e umas poucas formigonas.
— A que sabem teus petiscos?
— Macaco, a caça mais fina
que pula neste fundão,
e bumbum de tanajura,
dês que cozido a preceito,
não há manteiga de Flandres
que em gosto se lhe compare.
Quer provar?
(Bravo Conde, pobre Conde
de Assumar,
já começa a vomitar.)
995
Sá Júnior
Momento Inefável
Leio numa biblioteca pública.
Pessoas riem alegres.
Um mapa do mundo
geografiza-me no presente da vida.
(Distantes de nós mesmos!)
O momento é mágico
e as horas indecisas.
Imerso em palavras,
meu corpo evapora vontades nas sílabas,
meus olhos enfurecem-se nos sons dos vocábulos.
Leio.
Amo em demasia
essa ação descontínua.
A corda rompe do lado forte.
A bomba por mais que se queira jamais explode!
Leio.
A vida prolonga-se em cenas suaves.
Palavras constroem ações.
Sóis rompem regras e regulamentos
e outros tantos astros danificam irremediavelmente todas as leis.
Leio.
As sugestões das palavras
não me enganam pantomimicamente.
Insuflam em mim a mais natural e poderosa emoção.
Leio,
bebendo soluços e lágrimas.
A luz entra nitidamente pelas janelas...
As pessoas pensam, falam e ouvem com atenção.
Pessoas riem alegres.
Um mapa do mundo
geografiza-me no presente da vida.
(Distantes de nós mesmos!)
O momento é mágico
e as horas indecisas.
Imerso em palavras,
meu corpo evapora vontades nas sílabas,
meus olhos enfurecem-se nos sons dos vocábulos.
Leio.
Amo em demasia
essa ação descontínua.
A corda rompe do lado forte.
A bomba por mais que se queira jamais explode!
Leio.
A vida prolonga-se em cenas suaves.
Palavras constroem ações.
Sóis rompem regras e regulamentos
e outros tantos astros danificam irremediavelmente todas as leis.
Leio.
As sugestões das palavras
não me enganam pantomimicamente.
Insuflam em mim a mais natural e poderosa emoção.
Leio,
bebendo soluços e lágrimas.
A luz entra nitidamente pelas janelas...
As pessoas pensam, falam e ouvem com atenção.
1 464
Renato Russo
Maurício
Já não sei dizer se ainda sei sentir
O meu coração já não me pertence
Já não quer mais me obedecer
Parece que agora estar tão cansado quanto eu
Até pensei que era mais por não saber
Que ainda sou capaz de acreditar
Me sinto tão só
E dizem que a solidão até que me cai bem
Às vezes faço planos
Às vezes quero ir
Para algum país distante e
Voltar a ser feliz
Já não sei dizer o que aconteceu
Se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu
Se meu desejo então já se realizou
O que fazer depois
Prá onde é que eu vou ?
Eu vi você voltar prá mim
O meu coração já não me pertence
Já não quer mais me obedecer
Parece que agora estar tão cansado quanto eu
Até pensei que era mais por não saber
Que ainda sou capaz de acreditar
Me sinto tão só
E dizem que a solidão até que me cai bem
Às vezes faço planos
Às vezes quero ir
Para algum país distante e
Voltar a ser feliz
Já não sei dizer o que aconteceu
Se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu
Se meu desejo então já se realizou
O que fazer depois
Prá onde é que eu vou ?
Eu vi você voltar prá mim
1 444
José Saramago
6
Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele
Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas
Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare
Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam
O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade
O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes
As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado
Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho
Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas
Nenhum excremento nas imediações
E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições
Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens
Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas
Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare
Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam
O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade
O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes
As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado
Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho
Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas
Nenhum excremento nas imediações
E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições
Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens
Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
965
Ruy Pereira e Alvim
Despertar
Sonhei com barcos
e velas
navegando no meu quarto.
Em cada vela a promessa
de novos sonhos
no mar...
e velas
navegando no meu quarto.
Em cada vela a promessa
de novos sonhos
no mar...
1 029
Ruy Pereira e Alvim
Manifesto 3 - Contra o Número
Qualquer lugar
é destino
para quem não quer ficar.
Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...
Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.
Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.
E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...
Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.
De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...
é destino
para quem não quer ficar.
Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...
Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.
Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.
E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...
Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.
De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...
899
Ernani Sátyro
As Dunas
(Nos céus da Bahia)
As dunas não são dunas.
Só mesmo imaginando elas são dunas,
Que vistas do avião, ao sol,
Apenas são espelhos.
É preciso que à terra nós baixemos
Para que sejam dunas.
Baixemos, pois, mas não por muito tempo.
Deixemos que elas sejam o que do alto são.
As dunas não são dunas.
Só mesmo imaginando elas são dunas,
Que vistas do avião, ao sol,
Apenas são espelhos.
É preciso que à terra nós baixemos
Para que sejam dunas.
Baixemos, pois, mas não por muito tempo.
Deixemos que elas sejam o que do alto são.
862
Everaldo Ygor
Somos Estranhos
Somos estranhos
Estranhos ao tempo
Mas vamos sentir
Os versos da liberdade
Abraçar o vôo no Azul
Amar
Os amantes da liberdade
Beber desse suor
E não vamos errar
Não vamos viver a impunidade
Chega de perversidade
Apenas tocar
Vamos seguir os passos
E o rastro dos pássaros
E voar para o Horizonte
E deixar o grito de espanto
Morrer nos lábios
E voar...
Estranhos ao tempo
Mas vamos sentir
Os versos da liberdade
Abraçar o vôo no Azul
Amar
Os amantes da liberdade
Beber desse suor
E não vamos errar
Não vamos viver a impunidade
Chega de perversidade
Apenas tocar
Vamos seguir os passos
E o rastro dos pássaros
E voar para o Horizonte
E deixar o grito de espanto
Morrer nos lábios
E voar...
830
Estêvão da Guarda
Alvar [Rodriguiz] Vej'eu Agravar
Alvar [Rodriguiz] vej'eu agravar
porque se sent'aqui menguad'andar
e tem que lh'ia melhor além mar
que lhe vai aqui, u nasceu e criou;
e por esto diz que se quer tornar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
Tem el que faz dereit'em se queixar,
pois lhe nom val servir e afanar,
nem pod'aqui conselho percalçar
com'além mar, per servir, percalçou;
por en quer-s'ir a seu tempo passar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
porque se sent'aqui menguad'andar
e tem que lh'ia melhor além mar
que lhe vai aqui, u nasceu e criou;
e por esto diz que se quer tornar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
Tem el que faz dereit'em se queixar,
pois lhe nom val servir e afanar,
nem pod'aqui conselho percalçar
com'além mar, per servir, percalçou;
por en quer-s'ir a seu tempo passar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
324
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estrada
Passo muito depressa no país de Caeiro
Pelas rectas da estrada como se voasse
Mas cada coisa surge nomeada
Clara e nítida
Como se a mão do instante a recortasse
Pelas rectas da estrada como se voasse
Mas cada coisa surge nomeada
Clara e nítida
Como se a mão do instante a recortasse
697
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Templo de Athena Aphaia
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
1 162
Charles Bukowski
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
642
Sophia de Mello Breyner Andresen
Termoli
Quase lua cheia e baixa sobre o mar
Magnética e brilhante nos panos pretos da noite
Foi então que abordámos em margens de silêncio
E uma pequena cidade surgiu antiga e cor de bronze
Magnética e brilhante nos panos pretos da noite
Foi então que abordámos em margens de silêncio
E uma pequena cidade surgiu antiga e cor de bronze
1 091
Charles Bukowski
Metido de Novo Em Alguma Enrascada Impossível
e o cara do pé grande, o imbecil, nem se mexeu
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.
1 032
João Airas de Santiago
Andei, Senhor, Leon E Castela
Andei, senhor, Leon e Castela
depois que m'eu desta terra quitei,
e nom foi i dona nem donzela
que eu nom viss', e mais vos en direi:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
[E] quantas donas eu vi, des quando
me foi daqui, punhei de as cousir,
e, poilas vi, estive cuidando
em vós, senhor, e por vos nom mentir,
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
E as que alá maior prez haviam
em todo bem, tôdalas fui veer,
e cousi-as, e bem pareciam,
pero, senhor, quero-vos al dizer:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
depois que m'eu desta terra quitei,
e nom foi i dona nem donzela
que eu nom viss', e mais vos en direi:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
[E] quantas donas eu vi, des quando
me foi daqui, punhei de as cousir,
e, poilas vi, estive cuidando
em vós, senhor, e por vos nom mentir,
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
E as que alá maior prez haviam
em todo bem, tôdalas fui veer,
e cousi-as, e bem pareciam,
pero, senhor, quero-vos al dizer:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
591
João Airas de Santiago
A Por Que Perço o Dormir
A por que perço o dormir
e ando mui namorado
vejo-a daqui partir
e fic'eu desemparado;
a mui gram prazer se vai
a Crexent', em sua mua baia;
vestida d'um prés de Cambrai,
Deus! que bem lh'está manto e saia.
A morrer houvi por en
tanto a vi bem talhada,
que parecia mui bem
em sua sela dourada;
as sueiras som d'ensai
e os arções [som] de faia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'eu filhar
terria-m'en por bem andante
e nos braços a levar
na coma do rocim, deante,
per caminho de Lampai
passar Minh'e Doir'e Gaia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'alongar
quatro légoas de Crecente
e nos braço'la filhar,
apertá-la fortemente,
nom lhi valria dizer "ai"
nem chamar Deus nem Sant'Ovaia.
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
e ando mui namorado
vejo-a daqui partir
e fic'eu desemparado;
a mui gram prazer se vai
a Crexent', em sua mua baia;
vestida d'um prés de Cambrai,
Deus! que bem lh'está manto e saia.
A morrer houvi por en
tanto a vi bem talhada,
que parecia mui bem
em sua sela dourada;
as sueiras som d'ensai
e os arções [som] de faia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'eu filhar
terria-m'en por bem andante
e nos braços a levar
na coma do rocim, deante,
per caminho de Lampai
passar Minh'e Doir'e Gaia;
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
Se a pudess'alongar
quatro légoas de Crecente
e nos braço'la filhar,
apertá-la fortemente,
nom lhi valria dizer "ai"
nem chamar Deus nem Sant'Ovaia.
vestida d'um prés de Cambrai
Deus! que bem lh'está manto e saia.
350
Charles Bukowski
A Corda de Vidro
o velho era mais velho do que eu
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
1 060
Carlos Drummond de Andrade
Recado
Ao comandante do navio Aldábi,
que ora deixa este porto: boa rota
e que tudo lhe corra a vento suave,
mas sobretudo, amigo, tome nota:
Vai no vapor alguém que recomendo
ao zelo neerlandês meticuloso
com tulipas ou vidas. Fique atento
quer ao concreto quer ao vaporoso.
Este é diverso, e verso, entre os turistas
papa-milhas errantes pela Terra:
as forças naturais lhe são submissas
à alquimia do verbo, que não erra.
Vai sobre o mar, ou leva o mar consigo?,
o mar de sentimentos brasileiros,
de pernambucanos, índias, infinito
viver em comunhão, alvissareiros
descobrimentos do subsolo humano
contidos na palavra cadenciada
que punge e que embalsama, e tanto, tanto
artifício gentil, noite-alvorada.
Foi bom que este seu barco se chamasse
algo assim como estrela, sem ser Vênus,
mas venusinamente abrindo espaço
claro e profundo a périplos serenos.
Que demanda o viajante? uma londrina
lua reticenciosa, a ponte calma
sobre o rio discreto, a meia-tinta
de coisas ocorridas dentro n’alma?
Mas Londres, por que Londres? Não pergunte
aquilo que ele mesmo não responde.
(“O poeta é um fingidor.”) Seu reino é Tule
ou Pasárgada, e fica não sei onde.
Leve-o, navio, em leve travessia
a essa Europa que o viu enfermo e velho,
e ora jovem e são, rico de vida,
irá vê-lo, milagre de evangelho.
Pois milagre é a poesia, Aldábi: leme,
angra, remédio, púrpura bandeira.
Zele e traga de volta, pontualmente,
o nosso grande e bom Manuel Bandeira.
21/07/1957
que ora deixa este porto: boa rota
e que tudo lhe corra a vento suave,
mas sobretudo, amigo, tome nota:
Vai no vapor alguém que recomendo
ao zelo neerlandês meticuloso
com tulipas ou vidas. Fique atento
quer ao concreto quer ao vaporoso.
Este é diverso, e verso, entre os turistas
papa-milhas errantes pela Terra:
as forças naturais lhe são submissas
à alquimia do verbo, que não erra.
Vai sobre o mar, ou leva o mar consigo?,
o mar de sentimentos brasileiros,
de pernambucanos, índias, infinito
viver em comunhão, alvissareiros
descobrimentos do subsolo humano
contidos na palavra cadenciada
que punge e que embalsama, e tanto, tanto
artifício gentil, noite-alvorada.
Foi bom que este seu barco se chamasse
algo assim como estrela, sem ser Vênus,
mas venusinamente abrindo espaço
claro e profundo a périplos serenos.
Que demanda o viajante? uma londrina
lua reticenciosa, a ponte calma
sobre o rio discreto, a meia-tinta
de coisas ocorridas dentro n’alma?
Mas Londres, por que Londres? Não pergunte
aquilo que ele mesmo não responde.
(“O poeta é um fingidor.”) Seu reino é Tule
ou Pasárgada, e fica não sei onde.
Leve-o, navio, em leve travessia
a essa Europa que o viu enfermo e velho,
e ora jovem e são, rico de vida,
irá vê-lo, milagre de evangelho.
Pois milagre é a poesia, Aldábi: leme,
angra, remédio, púrpura bandeira.
Zele e traga de volta, pontualmente,
o nosso grande e bom Manuel Bandeira.
21/07/1957
747
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 272
Charles Bukowski
Roído Por Maçante Crise
não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
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