Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Fernando Batinga de Mendonça
Soneto
para Carlos Cunha
vi planícies ampliadas
e formas verdes, completas
— nas estradas já traçadas
não mais cor, facões trafegam.
vi enxadas, dinamites
vi balões, os exilados
vi azul das explosões
ouvi céus encarcerados
vi silêncio decomposto
que não sendo lentamente,
mas que é em plano oposto.
vi das coisas se faltando:
o de fora, perfeição
o de dentro, se buscando.
vi planícies ampliadas
e formas verdes, completas
— nas estradas já traçadas
não mais cor, facões trafegam.
vi enxadas, dinamites
vi balões, os exilados
vi azul das explosões
ouvi céus encarcerados
vi silêncio decomposto
que não sendo lentamente,
mas que é em plano oposto.
vi das coisas se faltando:
o de fora, perfeição
o de dentro, se buscando.
979
Everardo Norões
Café
Desencarno arábias
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.
(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).
Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.
De onde vem o grão
dessa saudade?
Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.
Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.
(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).
Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.
De onde vem o grão
dessa saudade?
Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.
Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
632
Affonso Romano de Sant'Anna
Grécia, 1987
1
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
Fui visitar a Grécia
e ela não estava lá.
Estava nos livros
estava nos mitos
no British Museum,
Nova York, Washington
Louvre, São Petersburgo Berlim.
Fui visitar a Grécia
e tive que inventá-la em mim.
2
Centenas de adolescentes gregos
desembarcam junto ao canal de Corinto:
eram náiades de blue jeans.
Os jovens vinham de Esparta
mas não traziam discos e dardos
exercitavam os músculos modernos
carregando enormes rádios
tocando rock
como os negros de Nova York.
3
Em torno do templo de Apolo em Corinto
casas com antenas de tevê
tentam captar mensagens de outros deuses
de outro Olimpo.
4
Ali de cima contemplamos o vale
o Templo de Micenas a tumba fabulosa
de onde o explorador tirou
toneladas de ouro e glória.
Mais discreto o chofer do ônibus
colhe rúculas junto à estrada
para uma anti-histórica salada.
5
Delfos.
Só sobrou o que era sólido:
– a pedra
e a densa porosidade
dos mitos.
6
No teatro de Epidauros
se a pessoa se coloca
no círculo assinalado
e acende um fósforo
no topo da arquibancada
ouve-se o estalido da combustão
com certo assombro.
No centro destes textos
ponho o coração batendo aceso.
Há eco? Ouvidos?
Ou em torno de Epidauros
só há silêncio e escombro?
976
Charles Bukowski
Neblina
pior neblina
que já vi
estava voltando de carro da
praia
com meu chapa Desmond
quando
ela
chegou
era tão grossa
que dava
para cortá-la com
a proverbial
faca.
e nós estávamos um bocado
bêbados.
não podíamos sair
fora da estrada porque tínhamos
medo de
bater nos carros já estacionados
no
acostamento
mas paramos por
um momento e
Desmond subiu
no capô
e se ajoelhou nele
e disse, "está bem,
vamos, vou
guiar você!"
e eu arranquei
e
Desmond berrava,
"MERDA! NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e ele começou
a rire eu
comecei a rir.
eu mal podia
ver sua bunda
enfiada lá
no capô
e então ele
disse
de novo: "MERDA!
NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e nós dois começamos
a rir cada vez
mais
uma risada que
não conseguíamos parar
toda aquela neblina
ao nosso redor
enquanto
seguíamos
só continuávamos
a dirigir e
a rir
passamos por
cruzamento após
cruzamento
frequentemente ouvindo
motores e buzinas
mas sem ver
nada
até que em um
cruzamento a
neblina se desfez
um pouco
consegui entrever
um posto de gasolina
uma lanchonete
e havia uma
luz verde
e
Desmond estava
ausente
saí fora
e estacionei no
posto de gasolina e
esperei
e lá veio
Desmond a pé
através da
neblina
berrei e
acenei e ele me
viu
correu até o carro
e entrou
dirigimos para
L.A.
uma semana mais tarde
ele foi para
Hlinois para ver
a mulher com a qual
havia
rompido
e eu
nunca mais
o vi.
que já vi
estava voltando de carro da
praia
com meu chapa Desmond
quando
ela
chegou
era tão grossa
que dava
para cortá-la com
a proverbial
faca.
e nós estávamos um bocado
bêbados.
não podíamos sair
fora da estrada porque tínhamos
medo de
bater nos carros já estacionados
no
acostamento
mas paramos por
um momento e
Desmond subiu
no capô
e se ajoelhou nele
e disse, "está bem,
vamos, vou
guiar você!"
e eu arranquei
e
Desmond berrava,
"MERDA! NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e ele começou
a rire eu
comecei a rir.
eu mal podia
ver sua bunda
enfiada lá
no capô
e então ele
disse
de novo: "MERDA!
NÃO CONSIGO
VER NADA!"
e nós dois começamos
a rir cada vez
mais
uma risada que
não conseguíamos parar
toda aquela neblina
ao nosso redor
enquanto
seguíamos
só continuávamos
a dirigir e
a rir
passamos por
cruzamento após
cruzamento
frequentemente ouvindo
motores e buzinas
mas sem ver
nada
até que em um
cruzamento a
neblina se desfez
um pouco
consegui entrever
um posto de gasolina
uma lanchonete
e havia uma
luz verde
e
Desmond estava
ausente
saí fora
e estacionei no
posto de gasolina e
esperei
e lá veio
Desmond a pé
através da
neblina
berrei e
acenei e ele me
viu
correu até o carro
e entrou
dirigimos para
L.A.
uma semana mais tarde
ele foi para
Hlinois para ver
a mulher com a qual
havia
rompido
e eu
nunca mais
o vi.
1 053
Charles Bukowski
A Palavra Final
sempre no poema
nós erramos por pouco.
ah,
para dizer a palavra final
você precisa
matar o peixe,
jogar fora a
cabeça e o rabo
(especialmente os olhos)
e comer o restante.
há essa fome
de sair pela estrada
procurando aquilo
em um Cadillac 1998,
árvores ao longo da rodovia,
uma lua manchada de estrume,
e passar por cima dele
e sair e
olhar aquilo,
segurar em sua mão
e olhar aquilo,
examiná-lo
(especialmente os olhos)
então jogar fora
e
s'imbora de Cadillac.
nós erramos por pouco.
ah,
para dizer a palavra final
você precisa
matar o peixe,
jogar fora a
cabeça e o rabo
(especialmente os olhos)
e comer o restante.
há essa fome
de sair pela estrada
procurando aquilo
em um Cadillac 1998,
árvores ao longo da rodovia,
uma lua manchada de estrume,
e passar por cima dele
e sair e
olhar aquilo,
segurar em sua mão
e olhar aquilo,
examiná-lo
(especialmente os olhos)
então jogar fora
e
s'imbora de Cadillac.
631
Francisco Carvalho
Testamento Real
Fui nascido rei
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
1 005
Tatiana Faia
ALGUNS POEMAS PORTÁTEIS
1.
entrando e saindo de livrarias de arte
tenho-me julgado civilizada
este engano deve-se a uma educação
encontros de poetas e artistas
à rejeição do melodrama enquanto
forma de arte inapropriada
a ter perdido tempo com alguns profetas do deserto
longas horas passadas em bibliotecas
a minha civilização deve-se tanto
a noções cosmopolitas
quanto à solidão de carruagens vazias
de comboios nocturnos assobiando
através de túneis o maquinista
mais uma solidão sublinhada
na luz da carruagem da frente
e também nenhum agulheiro poderá mudar
o sentido das linhas das palmas das mãos
a minha civilização deve-se a enredos
pensados em cidades estrangeiras
a encontros entre homens e mulheres
numa rota de colisão febril
fermentada no sangue
à solidão de horas passadas a ler em escritórios
muito depois de estes terem ficado vazios
e as portas principais se fecharem e um guarda solitário
se sentar com uma lanterna e um jornal
tenho sido civilizada por razões que não são naturais
com o tipo de hesitação com que um homem
aperta o nó de uma gravata pára um momento
considera a escuridão azul e chata do fato
a luz do rosto no vazio do espelho
2.
entrando e saindo de livrarias de arte
tenho-me comportado de certas maneiras
que podem não soar perfeitamente razoáveis
e tenho estado presente em reuniões marcadas
com livros com que me encontrei antes
como a bíblia ilustrada de chagall
um livro cujas páginas finais
são pontuadas de atmosferas vermelhas
paisagens vermelhas, as mãos de deus vermelhas
paisagens onde se alojam como âncoras danças pagãs
mas não é provável que os nossos finais
aconteçam em vermelho
eles serão azuis, azuis escuros, amarelos
como a sorte nos sorri
nada menos do que o céu estrelado
nas costas de eugène boch no quadro de van gogh
não é provável que os nossos finais
aconteçam em vermelho
porque vivemos rodeados de coisas
que constantemente começam e acabam
e que só se manifestam por meio de meias medidas
coisas que numa altura ou noutra acreditámos
que eram sagradas — e o que quero dizer com isto
é —, dignas de um cuidado especial
coisas que se manifestam por exemplo
em amantes que adormecem
agarrados um ao outro como conchas
em cidades onde as noites são demasiado longas
onde o inverno dura o ano inteiro
ou no cabelo vermelho da tua mulher
recordado por ti muito tempo depois
no trabalho de certos entardeceres
em ruas movimentadas de escritórios
e gente e carros ou na ordem da cor
e do cheiro das romãs na solidão
de uma tarde a chegar ao fim
no teu pequeno apartamento suburbano
um sopro ligando-se a outro sopro
atando as imagens que constituem
o registo do que pode bem ter sido a tua vida
ou nem isso porque é preciso perguntar
a mim própria o que é que pretendo lamentar
aqui ou melhor o que pretendo lamentar
ao certo com este poema
3.
um estudioso de munch
depois do roubo de «o grito»
criticou noutros historiadores da arte
a preocupação em restaurar o quadro
que não tinha voltado intacto
das mãos dos ladrões
este estudioso defendia
que munch não ia querer saber de restaurar o quadro
nódoas negras e escoriações
eram apenas a marca de mais uma viagem
e munch ficaria contente em manter o quadro como estava
o estudioso pensava que munch não ia querer saber
porque o pintor amava coisas baratas
e pintava as suas obras com materiais baratos
e mantinha os seus cães perto da sua arte
4.
vivo numa cidade onde a polícia se ocupa
sobretudo de vigiar pedintes
e se à noite passearmos pelas artérias principais
as cenas que se repetem são as de homens em farrapos
sozinhos com os seus cães
cobrindo as cabeças com as mãos
enquanto as carrinhas da polícia passam lentamente
eles mantêm o seu silêncio
e eu lembro-me que foi adrienne rich quem escreveu
que eu vivo num país onde os poetas não são presos
por serem poetas
são presos por serem negros, mulheres, pobres
revejo versões desta cena todas as noites
quando regresso a casa depois do trabalho
e conheço-a bem porque tenho vivido
o mesmo dia durante os últimos sete meses
e presto atenção espero pela carrinha da polícia
a dumka nos meus ouvidos não me permite negar
que o mundo é uma bola de vidro
que a estabilidade de cada peça depende
de a rotação total do globo
não ultrapassar uma certa velocidade
e penso que sou responsável sobretudo
por estas horas em que me cruzo com gente na rua
em que paro de ser um agente
ao serviço de uma corporação cujo deus
é previsivelmente de um verde monótono e jamais
cometeria o erro de um grande final vermelho
eu estou viva quieta e sou responsável
por escrever estas palavras
a caneta contra o papel
o frio na cara
o som de um violoncelo nos ouvidos
que segredo pode ser encontrado na quietude?
que temos existido exaustos
do lado de fora de paisagens previsíveis
quando a minha cara deixa de poder ser reconhecível
e reparo que nos últimos meses
a minha letra mudou
munch pintou «o grito» depois
de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos
ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia
Um Quarto em Atenas, Tinta da China, 2018
entrando e saindo de livrarias de arte
tenho-me julgado civilizada
este engano deve-se a uma educação
encontros de poetas e artistas
à rejeição do melodrama enquanto
forma de arte inapropriada
a ter perdido tempo com alguns profetas do deserto
longas horas passadas em bibliotecas
a minha civilização deve-se tanto
a noções cosmopolitas
quanto à solidão de carruagens vazias
de comboios nocturnos assobiando
através de túneis o maquinista
mais uma solidão sublinhada
na luz da carruagem da frente
e também nenhum agulheiro poderá mudar
o sentido das linhas das palmas das mãos
a minha civilização deve-se a enredos
pensados em cidades estrangeiras
a encontros entre homens e mulheres
numa rota de colisão febril
fermentada no sangue
à solidão de horas passadas a ler em escritórios
muito depois de estes terem ficado vazios
e as portas principais se fecharem e um guarda solitário
se sentar com uma lanterna e um jornal
tenho sido civilizada por razões que não são naturais
com o tipo de hesitação com que um homem
aperta o nó de uma gravata pára um momento
considera a escuridão azul e chata do fato
a luz do rosto no vazio do espelho
2.
entrando e saindo de livrarias de arte
tenho-me comportado de certas maneiras
que podem não soar perfeitamente razoáveis
e tenho estado presente em reuniões marcadas
com livros com que me encontrei antes
como a bíblia ilustrada de chagall
um livro cujas páginas finais
são pontuadas de atmosferas vermelhas
paisagens vermelhas, as mãos de deus vermelhas
paisagens onde se alojam como âncoras danças pagãs
mas não é provável que os nossos finais
aconteçam em vermelho
eles serão azuis, azuis escuros, amarelos
como a sorte nos sorri
nada menos do que o céu estrelado
nas costas de eugène boch no quadro de van gogh
não é provável que os nossos finais
aconteçam em vermelho
porque vivemos rodeados de coisas
que constantemente começam e acabam
e que só se manifestam por meio de meias medidas
coisas que numa altura ou noutra acreditámos
que eram sagradas — e o que quero dizer com isto
é —, dignas de um cuidado especial
coisas que se manifestam por exemplo
em amantes que adormecem
agarrados um ao outro como conchas
em cidades onde as noites são demasiado longas
onde o inverno dura o ano inteiro
ou no cabelo vermelho da tua mulher
recordado por ti muito tempo depois
no trabalho de certos entardeceres
em ruas movimentadas de escritórios
e gente e carros ou na ordem da cor
e do cheiro das romãs na solidão
de uma tarde a chegar ao fim
no teu pequeno apartamento suburbano
um sopro ligando-se a outro sopro
atando as imagens que constituem
o registo do que pode bem ter sido a tua vida
ou nem isso porque é preciso perguntar
a mim própria o que é que pretendo lamentar
aqui ou melhor o que pretendo lamentar
ao certo com este poema
3.
um estudioso de munch
depois do roubo de «o grito»
criticou noutros historiadores da arte
a preocupação em restaurar o quadro
que não tinha voltado intacto
das mãos dos ladrões
este estudioso defendia
que munch não ia querer saber de restaurar o quadro
nódoas negras e escoriações
eram apenas a marca de mais uma viagem
e munch ficaria contente em manter o quadro como estava
o estudioso pensava que munch não ia querer saber
porque o pintor amava coisas baratas
e pintava as suas obras com materiais baratos
e mantinha os seus cães perto da sua arte
4.
vivo numa cidade onde a polícia se ocupa
sobretudo de vigiar pedintes
e se à noite passearmos pelas artérias principais
as cenas que se repetem são as de homens em farrapos
sozinhos com os seus cães
cobrindo as cabeças com as mãos
enquanto as carrinhas da polícia passam lentamente
eles mantêm o seu silêncio
e eu lembro-me que foi adrienne rich quem escreveu
que eu vivo num país onde os poetas não são presos
por serem poetas
são presos por serem negros, mulheres, pobres
revejo versões desta cena todas as noites
quando regresso a casa depois do trabalho
e conheço-a bem porque tenho vivido
o mesmo dia durante os últimos sete meses
e presto atenção espero pela carrinha da polícia
a dumka nos meus ouvidos não me permite negar
que o mundo é uma bola de vidro
que a estabilidade de cada peça depende
de a rotação total do globo
não ultrapassar uma certa velocidade
e penso que sou responsável sobretudo
por estas horas em que me cruzo com gente na rua
em que paro de ser um agente
ao serviço de uma corporação cujo deus
é previsivelmente de um verde monótono e jamais
cometeria o erro de um grande final vermelho
eu estou viva quieta e sou responsável
por escrever estas palavras
a caneta contra o papel
o frio na cara
o som de um violoncelo nos ouvidos
que segredo pode ser encontrado na quietude?
que temos existido exaustos
do lado de fora de paisagens previsíveis
quando a minha cara deixa de poder ser reconhecível
e reparo que nos últimos meses
a minha letra mudou
munch pintou «o grito» depois
de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos
ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia
Um Quarto em Atenas, Tinta da China, 2018
917
Flávio Villa-Lobos
Mistério
Uma só palavra tua
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.
877
Reinaldo Ferreira
Oh! tarde de sábado britânica
Oh! tarde de sábado britânica,
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.
1 899
Reinaldo Ferreira
Do campo dos mortos
Do campo dos mortos
Em terra estrangeira
Por onde passámos
Absortos os dois,
Saímos ilesos de melancolia,
Por irmos tão vivos, tão livres
E juntos os dois.
Em vão sobre as campas
Dos mortos estrangeiros
Visível olvido
Na terra sem rosas votivas
Chamava por nós.
Nós íamos indo,
Felizes, felizes,
E o ventre da terra
Sonhava raízes
À volta de nós.
Nós íamos indo
Na hora que, breve, passava,
Vivendo-a sòmente.
E a nossa presença encarnava
No campo dos mortos em terra estrangeira
- Passado, passado -
O presente.
Em terra estrangeira
Por onde passámos
Absortos os dois,
Saímos ilesos de melancolia,
Por irmos tão vivos, tão livres
E juntos os dois.
Em vão sobre as campas
Dos mortos estrangeiros
Visível olvido
Na terra sem rosas votivas
Chamava por nós.
Nós íamos indo,
Felizes, felizes,
E o ventre da terra
Sonhava raízes
À volta de nós.
Nós íamos indo
Na hora que, breve, passava,
Vivendo-a sòmente.
E a nossa presença encarnava
No campo dos mortos em terra estrangeira
- Passado, passado -
O presente.
1 544
António Ramos Rosa
Atravesso
Atravesso
a terra
com a rapidez de uma palavra
a terra
com a rapidez de uma palavra
938
António Ramos Rosa
Na Tensão Apaziguante
Na tensão apaziguante
inicia-se uma viagem com o vento
vazios na dilatação do ar
lúcidos de pé abarcando o horizonte.
inicia-se uma viagem com o vento
vazios na dilatação do ar
lúcidos de pé abarcando o horizonte.
1 052
António Pocinho
cartas
As cartas não viajam à velocidade da luz, nem lá perto, nem mesmo as cartas de condução. Só os bilhetes-postais viajam a uma velocidade superior à da luz, com as suas palavras acabadas de se pôr sobre uma paisagem ou um momento, com esses recados de nós, mansos viajantes siderais, mesmo quando vamos só até Cacilhas.
791
Birago Diop
Viático
Em um dos três canários
dos três canários nos quais certas noites ressurgem
as almas serenas,
o sopro dos ancestrais,
dos ancestrais que foram homens,
dos ancestrais que foram sábios,
Mãe encharcou três dedos,
três dedos de sua mão esquerda:
o polegar, o indicador e o maior.
Eu encharquei três dedos,
três dedos de minha mão direita:
o polegar, o indicador e o maior.
Com seus três dedos vermelhos de sangue,
de sangue de cachorro
de sangue de touro
de sangue de bode,
Mãe me tocou três vezes.
Tocou minha testa com o polegar,
com o indicador o meu peito esquerdo
e meu umbigo com seu dedo maior.
Eu estendi meus dedos rubros de sangue,
de sangue de cachorro,
de sangue de touro
de sangue de bode.
Eu estendi meus três dedos aos ventos,
ao vento do Norte, ao vento do Nascente,
ao vento do Sul, ao vento do Poente;
e ergui meus três dedos na direção da Lua,
da Lua cheia, a Lua cheia e nua
quando ela foi ao fundo do canário maior.
Afundei meus três dedos na areia,
Na areia que se arrefecera.
Então Mãe disse: “Vai pelo Mundo, vai,
Ao longo da Vida Eles estarão em seus passos”.
Desde então eu vou,
eu vou pelas sendas,
pelas sendas e pelas estradas,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e para além do além.
E quando chego perto da gente ruim,
os Homens de coração negro,
quando me aproximo dos invejosos,
os Homens de coração negro,
à minha frente avançam os Sopros dos meus Ancestrais.
:
Viatique
Dans un des trois canaris
des trois canaris où reviennent certains soirs
les âmes satisfaites et sereines,
les souffles des ancêtres,
des ancêtres qui furent des hommes
des aïeux qui furent des sages,
Mère a trempé trois doigts,
trois doigts de sa main gauche:
le pouce, l'index et le majeur;
Moi j'ai trempé trois doigts:
trois doigts de la main droite:
le pouce, l'index et le majeur.
Avec ses trois doigts rouge de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc,
Mère m'a touché mon front avec son pouce,
Avec l'index mon sein gauche
Et mon nombril avec son majeur.
Moi j'ai tendu mes doigts rouges de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc.
J'ai tendu mes trois doigts aux vents
aux vents du Nord, aux vents du Levant
aux vents du Sud, aux vents du Couchant;
Et j'ai levé mes trois doigts vers la Lune,
vers la Lune pleine, la Lune pleine et nue
Quand elle fut au fond du plus grand canari.
Après j'ai enfoncé mes trois doigts dans le sable
dans le sable qui s'était refroidi.
Alors Mère a dit: "Va par le Monde, Va!
Dans la vie ils seront sur tes pas."
Depuis je vais
je vais par les sentiers
par les sentiers et sur les routes,
par-delà la mer et plus loin, plus loin encore,
par-delà la mer et par-delà l'au-delà;
Et lorsque j'approche les méchants,
les Hommes au coeur noir,
lorsque j'approche les envieux,
les Hommes au coeur noir
Devant moi s'avancent les Souffles des Aïeux.
dos três canários nos quais certas noites ressurgem
as almas serenas,
o sopro dos ancestrais,
dos ancestrais que foram homens,
dos ancestrais que foram sábios,
Mãe encharcou três dedos,
três dedos de sua mão esquerda:
o polegar, o indicador e o maior.
Eu encharquei três dedos,
três dedos de minha mão direita:
o polegar, o indicador e o maior.
Com seus três dedos vermelhos de sangue,
de sangue de cachorro
de sangue de touro
de sangue de bode,
Mãe me tocou três vezes.
Tocou minha testa com o polegar,
com o indicador o meu peito esquerdo
e meu umbigo com seu dedo maior.
Eu estendi meus dedos rubros de sangue,
de sangue de cachorro,
de sangue de touro
de sangue de bode.
Eu estendi meus três dedos aos ventos,
ao vento do Norte, ao vento do Nascente,
ao vento do Sul, ao vento do Poente;
e ergui meus três dedos na direção da Lua,
da Lua cheia, a Lua cheia e nua
quando ela foi ao fundo do canário maior.
Afundei meus três dedos na areia,
Na areia que se arrefecera.
Então Mãe disse: “Vai pelo Mundo, vai,
Ao longo da Vida Eles estarão em seus passos”.
Desde então eu vou,
eu vou pelas sendas,
pelas sendas e pelas estradas,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e para além do além.
E quando chego perto da gente ruim,
os Homens de coração negro,
quando me aproximo dos invejosos,
os Homens de coração negro,
à minha frente avançam os Sopros dos meus Ancestrais.
:
Viatique
Dans un des trois canaris
des trois canaris où reviennent certains soirs
les âmes satisfaites et sereines,
les souffles des ancêtres,
des ancêtres qui furent des hommes
des aïeux qui furent des sages,
Mère a trempé trois doigts,
trois doigts de sa main gauche:
le pouce, l'index et le majeur;
Moi j'ai trempé trois doigts:
trois doigts de la main droite:
le pouce, l'index et le majeur.
Avec ses trois doigts rouge de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc,
Mère m'a touché mon front avec son pouce,
Avec l'index mon sein gauche
Et mon nombril avec son majeur.
Moi j'ai tendu mes doigts rouges de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc.
J'ai tendu mes trois doigts aux vents
aux vents du Nord, aux vents du Levant
aux vents du Sud, aux vents du Couchant;
Et j'ai levé mes trois doigts vers la Lune,
vers la Lune pleine, la Lune pleine et nue
Quand elle fut au fond du plus grand canari.
Après j'ai enfoncé mes trois doigts dans le sable
dans le sable qui s'était refroidi.
Alors Mère a dit: "Va par le Monde, Va!
Dans la vie ils seront sur tes pas."
Depuis je vais
je vais par les sentiers
par les sentiers et sur les routes,
par-delà la mer et plus loin, plus loin encore,
par-delà la mer et par-delà l'au-delà;
Et lorsque j'approche les méchants,
les Hommes au coeur noir,
lorsque j'approche les envieux,
les Hommes au coeur noir
Devant moi s'avancent les Souffles des Aïeux.
1 204
Angela Santos
Alto Mar
Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
1 094
Angela Santos
Além-Mar
Perco-me
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
743
Jonathan Griffin
COM ESTES OLHOS
Quem cruza o extremo sul da Groenlândia
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
626
Lya Carvalho Jardim
Essa Sou Eu
Se perguntarem por mim
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.
1 028
Maria do Carmo Volpi de Freitas
Libertação
Itinerário de nuvens
azulescendo
a estrada-sonho
do peregrino.
Hastes ao alto
beijos de brisa
e asas
para o encontro
possível.
in No Remanso das Horas - Achiamê - RJ
azulescendo
a estrada-sonho
do peregrino.
Hastes ao alto
beijos de brisa
e asas
para o encontro
possível.
in No Remanso das Horas - Achiamê - RJ
829
Luiz Nogueira Barros
Soneto à liberdade
Longa será, por certo, a estiagem:
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
853
Luiz Nogueira Barros
Do partir e do voltar
Partir. Voltar.
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
913
Luiz Nogueira Barros
Viagem
Parto pleno de ventura e na aventura
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
843
João Linneu
Espanha
Que quero eu do Sul da Espanha?
As neves eternas da Sierra Nevada.
As videiras das suas vertentes.
O balir de suas ovelhas.
O olíveo odor de seu azeite.
As águas de suas nascentes.
O olvidar do Hotel Ovídeo?
Que quero eu do Sul da Espanha?
O amor único de suas mulheres.
O justo orgulho de seus homens.
A fúria elegante de seus touros.
A luz do seu sol.
O azul do mar andaluz.
Que quero eu do Sul da Espanha?
A esperança transatlântica dos meus avós.
O sustento da miga em minha pança.
O descer do vinho por minha goela.
O desafiar moinhos de vento.
O ninar de minha abuela.
Que quero eu do Sul da Espanha?
Atávica fúria ibérica,
saudade avoenga
que me faz perder o norte
pelo Sul da Espanha!
As neves eternas da Sierra Nevada.
As videiras das suas vertentes.
O balir de suas ovelhas.
O olíveo odor de seu azeite.
As águas de suas nascentes.
O olvidar do Hotel Ovídeo?
Que quero eu do Sul da Espanha?
O amor único de suas mulheres.
O justo orgulho de seus homens.
A fúria elegante de seus touros.
A luz do seu sol.
O azul do mar andaluz.
Que quero eu do Sul da Espanha?
A esperança transatlântica dos meus avós.
O sustento da miga em minha pança.
O descer do vinho por minha goela.
O desafiar moinhos de vento.
O ninar de minha abuela.
Que quero eu do Sul da Espanha?
Atávica fúria ibérica,
saudade avoenga
que me faz perder o norte
pelo Sul da Espanha!
855
Cristiane Neder
Queria Experimentar no Seu Corpo
Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
843