Poemas neste tema

Viagens e Horizontes

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Liberdade

ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.

já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.

então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.

ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 282
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó curva do horizonte, quem te passa,

Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, vão de ser ou estar.
Seta, que o peito enorme me transpassa.
Não doas, que morrer é continuar.

Não vejo mais esse a quem quis. A taça,
De ouro, não se partiu. Caída ao mar
Sumiu-se, mas no fundo é a mesma graça
Oculta para nós, mas sem mudar.

Ó curva do horizonte, eu me aproximo,
Para quem deixo, um dia cessarei
Da vista do último no último cimo,

Mas para mim o mesmo eterno irei
Na curva, até que o tempo a espera
E aonde estive um dia voltarei.


13/08/1921
4 190
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tim-Tim Para Luís Martins

I

Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.

II

Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.

III

De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.

IV

Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.

23/04/1981
1 281
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a primeira vez que partiu foi ao Uruguai

a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
1 088
João Baveca

João Baveca

Pero D'ambroa Prometeu, de Pram

Pero d'Ambroa prometeu, de pram,
que fosse romeu de Santa Maria,
e acabou assi sa romaria
com'acabou a do frume Jordam:
ca entonce atá Mompilier chegou,
e ora per Roçavales passou
e tornou-se do poio de Roldam.

E pois ................................
[...]

- Ca, pois aqui cheguei, já nom dirám
que nom foi.......................
.........................................
........................................[am]
............................. en buscar
senom de que podesse pois chufar
e ach'aqui o corno de Roldam.
642
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não gosto de barcos

não gosto de barcos
nem nada que flutue devagar
me faz falta uma esquina
uma rua para atravessar
uma escada, uma curva em frente
uma pista, um sinal de trânsito
me faz falta direção constante
um trilho, uma ponte, um meio de chegar
barcos ficam à deriva
e eu nunca afundo no mesmo lugar
1 126
José Augusto de Carvalho

José Augusto de Carvalho

Desmistificação

Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...

Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!

O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...

821
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Terceiro Filho

Em busca dos irmãos que tinham ido
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.

Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré...
1 234
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Velha História

Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.

E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.

O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
1 096
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Terramarear

No convés
o vento batendo no meu rosto,
eu pensava nas coisas que aconteciam
e acreditava
que a vida no mar é saudável.

A mão estendida para o mastro,
o barco cruzando o oceano.

Tinha treze anos e partia
em busca de glória e aventura.

891
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Flores de Paraguay

Begonias
Y, en Paraguay,
Crisantemos.

No Brasil, o mato.

Plateños
lírios
en tumbas
porteñas.

808
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Mário de Andrade em San Francisco

para Roberto Piva & Cláudio Willer
1.

Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro
-- São Paulo, comoção da minha vida --
na voz de Mário, teu poeta,
subindo e descendo as ladeiras de angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.

Dez horas da noite.
Meus pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a medina de Marraquech,
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square, no coração de San Francisco,
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a rua Lopes Chaves em noite de crimes.

Dez horas da noite.
A culpa do insofrido, onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou -- e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate,
banhada em luar,
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.

Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente, onde a Primavera existe e
se ergue do mar todo ano, ofertando presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos trilhos como
o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à Voluntários da Pá--tria
ou às madrugadas arrepiadas de frio do largo de São Bento
mas aqui os bondes arrastam nossa aflição Powell St. acima, depois pelo
Embarcadero até o Fisherman’s Wharf e por fim nos despejam
na Ghirardelli Square,
de onde avistamos nossos sonhos,
catedrais ancoradas no cais impossível,
e a Primavera mais terrível
cobre de flores nossos ombros pensos --
arlequinal!
comoção de nossas vidas!

2.

A noite agora não é mais criança.
A cidade assolada em neblina acolhe os deuses da madrugada e nos vê
passar.
Não é nossa Londres das neblinas finas, onde as rolas da Normal esvoaçam
entre os dedos da garoa,
mas é a cidade que nos abrigou com sua Primavera incandescente e guiou
nossa vagabundagem por labirintos de espanto, numa noite ilu-
minada pelo desespero de náufragos e rainhas exi-ladas.
Foi aqui,
naquele bar imundo da O’Farrell quase esquina com a Market, em meio ao
cheiro azedo e oleoso de tantas noites mal-dormidas, de-pois da
milésima cerveja, depois de esgotarmos todos os versos bem
amados, que sabíamos de cor,
foi aqui,
naquele canto escuro que Allen Ginsberg it’s too long that I have been alone, it’s
too long foi-se chegando irritado e implorou come Poet, shut up &
eat my word e você o embalou no colo e depois sonhou que tinha
vomitado a cidade de San Francisco no oceano azul.
Foi aqui
que Leadbelly, o negro desdentado, sentou-se à nossa mesa e nos ensinou a
chorar em uníssono com seu banjo prodigioso e você lhe ensi-
nou os passos da dança que todos sabíamos e ele en-tão, com
outro brilho nos olhos, voltou a nos chamar irmãos e nos dese-
jou alegria e você o abençoou.

Depois,
arrancamos de cada rua os fantasmas que ali se abrigavam e derruba-mos to-
das as pedras que se acumularam no caminho
e as mãos sangradas e famintas finalmente descobrimos que San Francisco
(Alexandria, você sabe, a Tebas impossível que nunca pudemos
pisar) é uma cidade viúva de segredos e os fantas-mas que aí
avistamos são os nossos próprios fantasmas, para sempre per-
didos

-- como teu coração paulistano,
Mário,
que um dia você enterrou no Pátio do Colégio
e ali estava, quente e vivo,
entre as ruínas da O’Farrell quase esquina com a Market,
dedilhando um blues sem esperança
-- como tua língua,
que você um dia guardou no alto do Ipiranga,
para cantar a liberdade, saudade,
mas esta já não foi possível encontrar mais, não.
Por isso também nos perdemos e nos achamos,
comoção de nossas vidas!

3.

Depois
rolamos nosso sono em delírio, pelas ruas,
e em nossos olhos ardia
a lembrança daquilo que nenhum de nós sabia.
Depois,
diante do cais, em Lands End, os braços abertos em cruz,
você gritou para o abismo em frente,
ou sussurrou para as almas encolhidas de medo:
-- A noite vem do mar cheirando a cravo!
E por um instante
o baiano poeta Sosígenes bailou entre nós
naquela madrugada em San Francisco,
mas logo regressou a seus castelos em Belmonte.
No fundo das águas havia dragões e havia sereias
e ao longe, e-eh-ô!, Boi Paciência e o Irmão Pequeno.
Cada rua era um rio que o mar desenhara na terra
e a lua enorme
uma ânfora plantada na torre mais alta da Golden Gate.

-- Garoa do meu São Paulo,
garoa sai dos meus olhos!
E a garoa caía em San Francisco
ou em Londres das neblinas finas.
Depois
rolamos nosso sono em delírio pela Mission St., como um rio,
de leste a oeste cruzamos toda a cidade,
à procura do sol,
guiados pelo cheiro do mar,
mas o cheiro do mar nos levou para longe do mar.
-- Água do meu Tietê,
onde me queres levar?
Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar...
Nessas águas Boi Paciência se afogou,
que o peito das águas tudo soverteu.

Você queria um porto seguro na terra dos homens,
por isso perguntava pela culpa do insofrido
e suplicava:
-- Garoa, sai dos meus olhos!
Por isso
você desceu ao léu da corrente do rio
e entrou na terra dos homens ao coro das quatro estações
mas não me ensinou o caminho
ou não aprendi a lição.

Ao regressar,
teus olhos eram só preguiça e mágoa,
teus olhos bailavam no ar,
o ar de mansa maresia dos mares de San Francisco,
teus olhos bailavam no ar a grandeza de todas as glórias
e teu coração entoava:
-- Estou pequeno, inútil,
bicho da terra derrotado,
e já nem sei se vale a pena
cantar São Paulo na lida

Você recusou a Paciência (Boi morto) e a esperança
e em teus olhos as águas murmuravam hostis,
levando as auroras represadas
para o peito do sofrimento dos homens.
Nem eram tantas essas águas, nem tamanhas.
Era uma lágrima, apenas, uma lágrima
das águas turvas do nosso Tietê, límpida
lágrima em que brilhava um céu de chumbo,
arlequinal!
comoção de nossas vidas!

4.

Quatro horas da manhã.
Caminhamos em silêncio pelo longo e frio corredor infinito da Powell St.
à espera do primeiro carro do subway que nos levará de volta a Berkeley e à
Telegraph Avenue,
onde a Revolução é um estado de espírito permanente e, qual Oroboros, do
seu próprio tédio se alimenta,
onde até o breakfast cheira a conspiração e onde os filhos dos hippies ven-
dem penduricalhos & melancolia e aceitam credit card.
Mas você sabe, Mário,
São Paulo também sempre foi berço de revoluções.

Quatro horas da manhã.
Deixamos para trás o cais e a noite negra
e em nossos ouvidos ecoa o grito de Álvaro de Campos:
-- Ó coisas navais! Meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!

Caminhamos em silêncio pela Powell St.
e você começa a saltar pela calçada
como se estivesse na avenida São João.
De repente,
o riso debochado
que brota dos teus e dos meus lábios
se espraia pelas ruas solitárias
e divide a madrugada.

Antes você perguntava pela culpa do insofrido
e se
1 111
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VIAGEM

VIAGEM

Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!

Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara

De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim

Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!

Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
6 074
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Quem Mi Ora Quisesse Cruzar

Quem mi ora quisesse cruzar,
bem assi poderia ir,
bem como foi a Ultramar
Pero d'Ambrõa Deus servir:
morar tanto quant'el morou
na melhor rua que achou
e dizer: - Venho d'Ultramar.

E tal vila foi el buscar,
de que nunca quiso sair,
atá que pôde bem osmar
que podia ir e viir
outr'homem de Ierusalém;
e poss'eu ir, se andar bem,
u el foi tod'aquest'osmar.

E poss'em Mompirler morar,
bem com'el fez, por nos mentir;
e ante que cheg'ao mar,
tornar-me posso, e departir,
com'el depart', em como Deus
prês mort'em poder dos judeus,
e enas tormentas do mar.

E se m'eu quiser enganar
Deus, ben'o poss'aqui comprir
em Burgos; ca, se preguntar
por novas, ben'as posso oír
tam bem come el em Mompirler,
e dizê-las pois a quem quer
que me por novas preguntar.

E pois end'as novas souber,
tam bem poss'eu, se mi quiser,
come um gram palmeiro chufar.
636
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Marinha Mejouchi, Pero D'ambroa

Marinha Mejouchi, Pero d'Ambroa
diz el que tu o fuist'a pregoar
que nunca foi na terra d'Ultramar;
mais nom fezisti come molher boa;
ca, Marinha Mejouchi, si é si:
Pero d'Ambrõa sei eu ca foi lh'i;
mais queseste-lhi tu mal assacar.

Marinha Mejouchi, sem nulha falha,
Pero d'Ambrõa em Soco do Vem
filhou a cruz pera Ierusalém;
e depois daquesto, se Deus mi valha,
Marinha Mejouchi, come romeu
que vem cansado, tal o vi end'eu
tornar; e dizes que nom tornou en?

Marinha Mejouchi, muitas vegadas
Pero d'Ambrõa achou-t'en[de] mal;
mais, se te colh'end'em logar atal,
com'andas tu assi pelas pousadas,
Marinha Mejouchi, há mui gram sazom,
Pero d'Ambrõa, se t'achar entom,
gram med'hei que ti querrá fazer mal.
523
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Joam Baveca E Pero D'ambrõa

Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
começarom de fazer sa tençom,
e sairom-se logo da razom
       Joam Baveca e Pero d'Ambrõa;
e, porque x'a nom souberom seguir,
nunca quedarom pois em departir
       Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.

Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
ar forom outra razom começar.
Sobre que houverom de pelejar
       Joam Baveca e Pero d'Ambrõa?
Sobre la terra de Ierusalém,
que diziam que sabiam mui bem
       Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.

Joam Baveca e Pero d'Ambrõa
ar departirom logo no Gram Cam;
e pelejarom sobr'esto de pram
       Joam Baveca e Pero d'Ambrõa,
dizend': - Ora veeremos quis qual é!
E leixei eu assi, per bõa fé,
       Joam Baveca e Pero d'Ambrõa.
435
Afonso X

Afonso X

Dom Gonçalo, Pois Queredes Ir Daqui Pera Sevilha

Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.

Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.

E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.

E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.

Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.

Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.

E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.

E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.

Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.

E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.

E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.

E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
727
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lentidão dos vapores pelo mar...

Lentidão dos vapores pelo mar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.

Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!

Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!

Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras

Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.

O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.

        Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
        Cidades, brumas, margens
        De rios desejadas para     olhar...
        Costa triste, ermo mar
        Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
        — Frio pela consciência dos meus nervos —
        De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...

Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota

Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...

Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens

Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...

Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.

Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
1 386
Ruy Belo

Ruy Belo

Homem de grandes dias

E a cal casa de cada qual

Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
1 030
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Sempre Algumas Léguas Restam

Em todos os sítios
o vento arranca as folhas secas.

Assim, também é certo
a cerca, mesmo caindo, seguir a terra.

Só o rio desata nós de água
em ramalhetes de pedra.

E sempre algumas léguas restam
para chegar ou partir

na claridade dispersa.

1 130
Afonso X

Afonso X

Nom Me Posso Pagar Tanto

Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.

E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.

Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.

E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

A varanda de Julieta

Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Pero da Ponte

Pero da Ponte

Um Dia Fui Cavalgar

Um dia fui cavalgar
de Burgos contra Carrion
e saiu-m'a convidar
no caminh'um infançom;
       e tanto me convidou
que houvi logo a jantar
       com el, mal que mi pesou.

U m'eu de Burgos parti,
log'a Deus m'encomendei
e log'a El proug'assi
que um infançom achei;
       e tanto me convidou
que houvi a jantar log'i
       com el, mal que mi pesou.

E se eu de coraçom
roguei Deus, baratei bem:
ca em pouca de sazom
aque m'um infançom vem;
       e tanto me convidou
que houvi a jantar entom
       com el, mal que mi pesou.

E nunca já comerei
com'entom com el comi;
mais, u eu com el topei,
quisera-m'ir, e el i
       atanto me convidou
que, sem meu grado, jantei
       com el, mal que mi pesou.
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Pero da Ponte

Pero da Ponte

Quand'eu D'olide Saí

Quand'eu d'Olide saí,
preguntei por Aivar;
e disse-mi log'assi
aquel que foi preguntar:
- Senhor, vós creed'a mi,
que o sei mui bem contar:
Eu vos contarei quant'há daqui a cas Dom Xemeno:
       um dia mui grand'há i, e um jantar mui pequeno.

Disse-mi, u me del parti:
- Quero-vos bem conselhar:
a jornada que daqui
vós oi queredes filhar
será grande, pois des i
crás nom é rem o jantar.
Por en vos conto quant'há daqui a cas Dom Xemeno:
       um dia mui grand'há i, e um jantar mui pequeno.
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